Uma Estátua que Anda

Tem gente que pensa que negro não fica vermelho de vergonha. Não é que não fique: fica. Só que, por causa do nosso tom de pele, essa vermelhidão não aparece – aí, cabe ao bom entendedor perceber os nossos outros sinais de “sem-gracisse” como desviar o olhar, encolher os ombros, e por aí vai. Aliás, acho ótimo que não seja possível ver quando eu fico vermelha! Tenho uma amiga que é branca igual leite e, quando ela fica envergonhada, parece um semáforo fechado. Deve ser horrível saber que tá todo mundo vendo isso!

E do mesmo jeito, tem gente que pensa que negro não queima de sol. Ô, gente claro que queima. Nunca viram uma pessoa “da cor” se descascando igual cobra pelas praias afora, não? Eu mesma vejo aos milhares! Mas diferente dos brancos e pardos, quando a gente se queima de sol, não ficamos com aquelas manchas vermelhas debaixo da pele descascada: em nós elas ficam meio esbranquiçadas. É muito feio. Mas eu não sei o que acontece com essa moçada que pensa que só por que é preto pode tomar sol sem passar protetor. Eu passo todo dia – claro que não precisa ser um fator 60, mas um fator 8 eu bem que passo. E quando chego em casa, ainda passo um bepantol pra reidratar a pele (adoro bepantol, o preço é bacaninha e o trem hidrata que é uma beleza!). Mas confesso que teve um dia em que fui à praia sem passar protetor. Estava com várias amigas, aí já viu, né? O papo rola, o sol fica mais forte, a gente não percebe…

O estrago

Acho que ficamos na praia umas oito horas seguidas. De vez em quando íamos pra água, mas passamos muito tempo na areia; as meninas pegando um bronze e eu acompanhando (não faço questão de me bronzear, gosto do meu tom original). Mas claro, acompanhando ao sol. Começou a me dar uma sede muito grande e fui até o carrinho de água de côco; tomei oito de uma vez só, que até o vendedor estranhou. Até me perguntou se eu estava me sentindo bem, porque parecia desanimada – e eu, de fato, nem tinha almoçado, só comido uns espetinhos e uns acarajés de uma mãezinha que faz um acarajé divino. Mas isso não é almoço, e aí pensei: “é, deve ser fome”.

Mas fui piorando e começou a bater uma baita fraqueza. Deitei na canga e não levantei mais. Quando as meninas perceberam que eu nem estava mais participando da conversa, uma delas me deu um sacode, achando que eu estava cochilando, e eu me levantei num salto e gritando de dor. Metade da praia virou pra olhar o que estava acontecendo! Essa amiga que me cutucou deu um pulo e ficou branca de susto (ela é mais negra que eu). Só sei que comecei a chorar de tanta dor, mas era um choro fraco, de quem não tinha força nenhuma; e acabei me deitando e novo, meio apagada, meio acordada. Chamaram o salva-vidas na hora e em questão de minutos (pelo menos, na minha cabeça), eu estava dentro de uma ambulância. Foram dois dias de hospital, com muito soro na veia pra tentar me recuperar da insolação que tive. Do primeiro dia eu não lembro nada, e do segundo só uns flashes. Foi feia a coisa.

A estátua que anda

Enquanto fiquei internada, tiraram meu biquíni e me deixaram sem nada, só com um lençol super leve por cima, pois a pele estava tão castigada pelo sol que qualquer coisa mais pesada que isso a deixava inflamada. Eu estava totalmente besuntada por uma pomada pra queimaduras, super grudenta e com um cheiro forte de remédio. Eu não conseguia nem me mexer, em parte pela fraqueza, em parte pela dor na pele. Em alguns lugares, como nos ombros, a queimadura chegou a segundo grau.

Sair do hospital foi uma odisseia. Minha mãe trouxe o vestido mais leve e solto que eu tinha e eu quase não consegui vesti-lo de tanta dor. Lingerie, nem pensar – aliás, só de pensar já sentia tudo ardendo de novo. Pra dar uma ideia, até o vento fazia arder. Precisaram me dar um remédio pra dor pra eu conseguir chegar em casa, porque até entrar no táxi estava difícil. E uma vez em c asa, só com um lençolzinho, de novo, e muita hidratação.

Uma semana depois, eu consegui sair de casa, mas virei dois vidros de bepantol pelo corpo antes. Eu parecia uma daquelas estátuas de madeira de lei, super brilhantes por causa da cera e do verniz, sabe? Eu reluzia. CLAAARO que chamei a atenção por onde passei, mas a essas alturas eu nem estava ligando mais. Era só não encostarem em mim, que ficava tudo bem. Mas hoje já estou bem melhor, só descascando inteira e com a pele toda cheia de manchas foscas esbranquiçadas.

Como dizia o Pedro Bial naquele videozinho: use filtro solar. Sempre. MESMO.