Fiquei muito tempo sem saber o que fazer com minha geladeira velha. Ela é tão antiga que ninguém vai querer ganhá-la de presente.

Mas agora …
Dentre todos os países da América do Sul, o Brasil é o primeiro a ganhar uma fábrica de reciclagem de geladeiras, freezers e ar condicionado. A unidade, de origem suíça, está em fase final de construção no município paulista de Cabreúva, a 80 km da capital, e deve iniciar os testes operacionais em dez dias, com inauguração prevista para setembro.

Ligada a um projeto europeu de proteção climática para reaproveitamento e descarte adequado do lixo eletroeletrônico, a Indústria Fox está sendo implantada com um sistema inédito de reciclagem: ela é a primeira com capacidade de captar, destruir e transformar os CFC´s (clorofluorcarbonetos), um dos principais vilões do efeito estufa presente no motor e nas paredes das geladeiras e de outros refrigeradores, em uma solução que não agride o meio ambiente.

Apesar de sua produção e uso estarem proibidos no Brasil, refrigeradores antigos ainda possuem CFC na estrutura. Sem um descarte correto desses aparelhos, o gás corre risco de se dispersar na atmosfera, agravando o aquecimento global – o potencial de aumentar o efeito estufa do CFC é 10 mil vezes mais alto do que o do gás carbônico. “O que se vê frequentemente no Brasil é um mercado informal de sucateiros que não dão uma destinação correta a esses aparelhos”, diz Philipp Bohr, diretor geral da empresa.

Segundo Bohr, com a nova tecnologia utilizada na fábrica será possível conseguir uma economia de emissão de gases efeito estufa equivalente a 1 milhão de toneladas de CO2 por ano. O cálculo é feito com base na capacidade produtiva da fábrica, de reciclar até 420 mil aparelhos anualmente, cerca de 35 mil/mês. Inicialmente, a fábrica contará com aparelhos oriundos de programas de eficiência energética de empresas brasileiras de energia, que fazem a troca de geladeiras velhas por novas em comunidades de baixa renda.

No sistema de tecnologia alemã, o CFC é captado por sucção e enviado para uma câmara que atinge até 1400°C de temperatura, que transforma o gás nocivo em uma solução ácida que não agride a camada de ozônio e ainda pode ser aproveitada por indústrias químicas.

Os aparelhos seguem para um mecanismo de trituração. Segundo o executivo, todo o processo de reciclagem apresenta uma taxa de aproveitamento de 96%, que gera porções de matéria-prima para revenda: matéria ferrosa (60%) para usinas de aço; alumínio (5%), que segue para fundição, plástico (13%) e poliuretano (15%).

Em tempos de regulamentação para o descarte ambientalmente correto do lixo eletroeletrônico, parte da recém aprovada Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a empreitada promete dar o ponta-pé inicial para reciclagem de refrigeradores.

No geral, Bohr está otimista em relação ao potencial brasileiro para o desenvolvimento de política de gestão de eletroeletrônicos, mas enfatiza a necessidade de regulamentação e fiscalização da Lei. O alemão, de 31 anos, vem acompanhando de perto as discussões do Conama e da PNRS. Afinal, o mercado por aqui parece bastante promissor: estima-se que em 2009, o País se desfez de mais de 4 milhões de geladeiras.
Para explicar as oportunidades que o negócio da reciclagem gera, ele cita a experiência suíça com gestão de resíduos sólidos, que começou há 20 anos. “Atualmente, existem na Suíça mais de 12 mil pontos de coleta de refrigeradores e 35 empresas recicladoras que reaproveitam, em um ano, mais de 350 mil geladeiras”, desataca. “Trata-se de uma indústria de reciclagem de geladeira que movimenta 200 milhões de reais por ano”.

Com base nessa experiência européia, é instigante imaginar o que poderia ser feito com os milhares de aparelhos de refrigeração descartados anualmente por aqui. Segundo os cálculos de Bohr, só a cidade de São Paulo poderia lucrar meio bilhão de reais com a reciclagem de geladeiras.

As perspectivas otimistas para o futuro da gestão responsável de resíduos sólidos no País aumenta ainda mais se considerarmos que cada eletroeletrônico – computador, celular, lâmpada, televisão, pilha, bateria e muitos outros aparelhos – demandará uma tecnologia específica para manejo, descarte e, principalmente, para reciclagem. “Com volume de material e leis eficientes, o Brasil deve atrair mais empresas estrangeiras do setor e também incentivar o desenvolvimento de tecnologias nacionais”, prevê Bohr.

O investimento na fábrica de Cabreúva foi de R$ 20 milhões. Para 2011, a Indústria Fox estuda a instalação de mais duas unidades de reciclagem, uma no Nordeste e outra no Sul. Juntas, segundo cálculos da empresa, essas duas regiões descartaram, no ano passado, mais de 1,7 milhão de geladeiras. Um desperdício.