Salve, Passageiro!

Motoristas, de maneira geral, têm sempre histórias diferentes para contar. Como nós transportamos muita gente ao logo do dia, sempre nos deparamos com situações inusitadas e verdadeiros personagens de histórias as mais malucas. Afinal – e graças a Deus – todo mundo é diferente, vê a vida de forma diferente e gosta de coisas diferentes de nós.

Eu fui motorista de táxi durante muitos anos e levei e busquei pessoas bem interessantes, mas as situações mais diferentes eu vivi depois que comecei a trabalhar num serviço de aluguel de vans. Eu era encarregado de uma com 16 lugares então sempre levava grupos grandes. Já transportei convidados para festas de casamento, grupos de empresários para congressos, equipe de esportistas para ginásios… mas também já levei umas turminhas bem diferentes a outros lugares!

The dark side

EmoLembro até hoje de um grupo que me contratou para levá-los a uma festa emo. Eu nem sabia o que era isso! Havia começado a trabalhar na empresa há duas semanas e até aquele dia só tinha feito o traslado de pessoas “normais” (por assim dizer). O combinado era buscá-los no ponto de encontro às nove da noite; nunca gostei de trabalhos noturnos, mas são ossos do ofício e lá fui eu, meia hora antes.

Chegando lá, haviam dois garotos, com uns 16 anos, vestidos de preto, com capuz e cabelo caindo em frente ao rosto, encostados na parede. Só me olhavam, não faziam mais nada. Claro que achei estranho e fiquei alerta sobre eles – e por precaução, deixei a van ligada e já engatada na primeira marcha. Em poucos minutos chegaram outros, alguns aparentando 18 anos; se cumprimentaram com gestos de mão que nunca vi antes e um deles (o que parecia ser mais velho) se aproximou da minha janela e perguntou se eu era o cara do aluguel de van. Confirmei, enquanto sentia a pressão do pé no acelerador aumentar e calculava minha rota de fuga. Vai saber… Nove da noite e um bando de jovens de preto e cabelo no rosto me encarando daquele jeito!

Só então ele se apresentou: era o responsável pelo aluguel da van e pelo grupo que eu ia transportar a te a tal festa grunge. Acho que notou que eu estava meio assustado e deu uma risadinha sincera – e aí sim eu fiquei sabendo o que raios era uma festa emo. Hehehehe! E aí, quem deu risada fui eu! Depois que todos chegaram e embarcaram, foi bem estranho ver 15 pessoas de preto e cabelo na cara pelo retrovisor, além do líder sentado ao meu lado. Tinham um linguajar esquisito, mas eram ordeiros e muito educados. Que aprendizado!

O dia das princesas

Em meu terceiro mês, me contrataram para levar um grupo de crianças a uma festa infantil. Quando a gente recebe um chamado desses, já fica meio ressabiado porque muita criança junta, sabe como é, costuma ser sinal de barulho e confusão. Minha esperança é que a responsável tivesse autoridade suficiente para manter a ordem na van enquanto fazíamos o traslado…

Princesas

O ponto de encontro era uma escola no mesmo bairro onde a empresa em que eu trabalhava era sediada; a festa era de uma coleguinha daquelas crianças, e foram os pais da aniversariante que providenciaram esse transporte. Achei interessante! A ideia! É uma tranquilidade a mais para os pais da meninada.

Cheguei à escola e procurei pela responsável pelas crianças que eu iria levar, e ela prontamente foi à sala de aula chamá-las; aproveitei para voltar à van e já deixar a porta aberta de uma vez. Quando me virei, o que vi foi no mínimo deslumbrante: a professora da turminha sendo seguida por uma fileira animada e comportada de princesas, príncipes e fadinhas a caráter vindo em minha direção. Era uma festa temática sobre um reino encantado!

Com todas as crianças embarcadas – a professora ao meu lado -, saímos em direção ao salão onde seria a festa. Quando eu olhava pelo retrovisor, tudo o que via eram coroas, chapéus de fadas, e anteninhas com glitter se mexendo animadamente; das crianças mais altas eu ainda conseguia ver os olhos também. Que interessante! E elas estavam tão comportadas que só vi a professora chama-lhes a atenção uma única vez, e isso em uma viagem de vinte minutos. Um grupo de crianças ficando comportado por vinte minutos?? Eu nunca tinha visto.

Chegamos ao local e elas desembarcaram, em ordem, conforme as orientações da professora. Só durou até a porta do salão porque, foi só ver a festa montada lá dentro que começaram a correr e gritar. Hehehe! Voltamos depois de 5 horas de festa e brincadeiras; todas as crianças dormiram, sem exceção, com suas fantasias amarrotadas, algumas sujas de doce, chapéus e coroas faltando.

Ainda tem muita história pra contar mas essas, pelo contraste, foram as mais marcantes em minha profissão até hoje. Às vezes passamos aperto mas, em outras, a gente se diverte!