Prazer – Sou Estudante e Estou Grávida

Entrei cedo pra faculdade: aos 18 anos, já estava frequentando minhas primeiras aulas de Arquitetura e Urbanismo, o curso dos meus sonhos. A faculdade ficava numa outra cidade, a mais ou menos quatro horas de distância da minha. Achava perto, já que gostava de estudar, então sempre que era possível, ia visitar meus pais.

Jovem longe dos pais sente uma liberdade inédita, não é? A gente começa a frequentar festas com nossos novos amigos, e numa dessas acaba olhando diferente pra uma pessoa – e enlouquece quando percebe que ela também olhou diferente pra gente! Foi assim que conheci Lucas, meu namorado, no segundo período do curso, num churrasco da turma. Ele era Engenharia de Produção, mas sempre tem muita gente de outros cursos nas nossas festas. Enfim: começamos a sair e logo o namoro engrenou, tornando-se mais sério, e… nos tornamos íntimos. Mesmo. Até que no terceiro período, depois de uma festa onde os dois abusaram da cerveja, nos entregamos sem cuidado nenhum. O resultado foi o óbvio.

Fiquei grávida

Estudante gravida

Estava então com 20 anos, na primeira metade do meu curso, não tinha nem um estágio pra me ajudar. Ou seja, não dava pra marcar consulta, nem fazer exames, nem comprar uma única roupa de grávida. Ainda não havia contado pros meus pais nem com o Lucas, estava no banheiro, segurando trêmula o exame que comprei na farmácia. Entrei em desespero. “Como vou fazer isso? Como vou falar com o Lucas? Como vou explicar pros meus pais? E minha família, como vai reagir? E meu curso, meu Deus?” Comecei a chorar de soluçar.

Detalhe: estava na casa do Lucas, no banheiro dele. Quando me ouviu chorando, ficou doido do lado de fora, implorando pra eu abrir a porta – e eu nem isso conseguia fazer, tamanho o desespero! De tanto ele perguntar o que estava acontecendo, passei a embalagem do teste de gravidez por debaixo da porta (teria passado o exame, se desse). Ele ficou mudo mas por fim perguntou: “deu positivo?”. Aí é que comecei a chorar alto, de verdade mesmo, aos berros. E ele, ora, começou a rir! Gargalhava! Fiquei tão espantada que parei de chorar, achando aquilo uma ofensa! Abri a porta num arranque, mortalmente irritada, a cara inchada de tanto chorar e trovejei: “COMO É QUE VOCÊ RI DE MIM NUMA HORA DESSAS???”. Ele, sem conseguir parar de rir, veio e me deu o abraço mais carinhoso do mundo. Fiquei sem reação. Disse baixinho: “sua boba… eu já sabia que ia dar nisso, depois daquela noite maluca… e você acha mesmo que vou te deixar sozinha agora? é meu filho também”. Comecei a chorar tuuuudo de novo.

Fomos juntos à casa dos meus pais no fim de semana seguinte – e pela cara que estávamos, eles já estavam desconfiando. Tivemos uma conversa longa, séria, até um pouco dura num certo momento. Mas quando terminou, meu pai ficou em pé e chamou o Lucas pra uma cerveja lá na cozinha. Minha mãe? Começou a chorar, me abraçou e disse: “pegue sua bolsa, vamos comprar umas roupas de grávida pra você”!

“Estou sonhando??”

Foi só o que pensei. “Nenhuma tempestade? Nenhum trovão? Não vou ser expulsa de casa? Meu pai levou Lucas pra tomar cerveja e minha mãe vai comprar roupa pra mim? Será que puxei um beque e não notei??” Passei o resto do dia esperando alguém revelar a “pegadinha”, mas a noite chegou e ninguém revelou nada. Acordamos (Lucas dormiu lá) e a coisa continuou como antes. Chamei meu pai pra conversar e perguntei que reação tinha sido aquela dele e da minha mãe. Foi quando ele me contou: mamãe estava muito doente. Ela havia descoberto um problema no sangue que não deixaria que ela vivesse por mais que alguns anos e o sonho dela era ter um neto. A ficha caiu co tanta força que comecei a chorar, mas ele me pediu que não revelasse a ela que eu sabia do problema – tinha sido um pedido dela que o problema não fosse revelado. Respeitei, claro.

Voltando à universidade, conversei com os coordenadores do curso, que me orientaram a procurar o centro de assistência estudantil. Lá, me encaminharam ao departamento de saúde, onde poderia fazer todas as consultas e exames gratuitamente. Consegui uma bolsa num projeto de pesquisa, pequena, mas ajudaria a comprar suplementos, medicações, etc. Lucas morava com mais um colega, mas ele se formou – e entrei no lugar dele. Agora morávamos juntos. Foi bom, ele me ajudou bastante nos enjoos! Ele conseguiu um emprego de meio período. Ralou como nunca, coitado…

O dia vinha se aproximando

Chá de bebêMinhas colegas fizeram um chá de bebê! Ganhei roupas pra mim, além das roupas pro bebê, fardos e mais fardos de fraldas mamadeiras, bicos, paninhos… Meus pais nos deram o berço (desses que têm uma cômoda junto) e o enxoval de berço. Tudo muito simples, mas muito carinhoso – e era só o que me importava.

Entrei em trabalho de parto no meio de uma prova cabeludíssima de Cálculo. Como as primeiras contrações estavam leves e sem dor, segui fazendo a prova, mas estava difícil concentrar por causa da ansiedade. Mas fiz o que deu pra fazer. Na terceira página de prova, comecei a sentir dor – aí não dava mais pra fazer conta, não é? Chamei a professora e escrevi num canto da folha, na intenção de não alertar mais ninguém: “estou em trabalho de parto”. Ela deu pulo, botou as mãos na cabeça e gritou: “MEU DEUS DO CÉU, VAI NASCER AGORA??” Ok, agora o Flamengo inteiro já estava informado. Mas grita de novo porque a galera do Cruzeiro não entendeu a última parte, por favor.

Ela pediu pra uma aluna recolher as provas todas naquele momento, porque ela ima me levar pro hospital. Algum colega que não vi quem era ligou pro Lucas: “cara, seu filho vai nascer! Tamo levando ela pro hospital agora!”. Àquela altura eu vi que a mobilização já estava monstra e pensei: “quer saber: Agora deixa. Bora parir esse garoto”. Comecei as respirações e andar ficou bem complicado. Mas conseguimos chegar ao carro da professora – uma sortuda porque assim que desci dele, a bolsa estourou. Nossa, se aquele tanto de água fosse pro banco dela… aiaiai…

Depois de quatro horas, Amélia nasceu. Sim, era menina! O cara do ultrassom viu errado. Lucas concordou e demos o nome da minha mãe – e minha mãe entendeu o motivo, mesmo sem trocarmos uma única palavra. Chorou mais do que eu quando descobri a gravidez.

Isso tem 20 anos. Com muita ajuda e sacrifício, Lucas e eu conseguimos nos formar e criar nossa Amelinha. Estamos juntos até hoje! Minha mãe também, mas num outro plano. Meu pai continua chamando Lucas pra uma cerveja quando vamos visitá-lo.