Porque Contar e Ouvir Histórias

Era uma vez…
É a fórmula mágica de se iniciar um “causo”, como diziam as pessoas simples do interior, há algumas décadas, quando o único instrumento de contato com o mundo, era o radio, uma peça enorme que como a TV hoje, tinha um pedestal na sala de visitas do qual se podiam ouvir as notícias e as músicas do momento e até novelas. As pessoas que não possuíam esse aparelho, faziam de tudo para passar o tempo até a hora de dormir. Era comum reunirem-se em volta de uma fogueira para a “contação de causo”, ou uma rodada de “cantoria”. Havia sempre uns dois ou três dos mais velhos, pessoas com pouca instrução, mas com muita capacidade criativa que se revezavam na tarefa  do entretenimento das crianças e também dos adultos.  Quanta riqueza de detalhes! Quanta emoção, e quanto ensinamento! Era o momento mágico para a criançada… As mais desinibidas, se arriscavam com algumas de suas criações.

Infelizmente, são cenas que ficam na lembrança só de quem viveu essa época, e ainda assim de quem teve a experiência dessa cultura frequente nas fazendas de café onde os trabalhadores moravam com suas famílias em casas próximas umas das outras formando uma colônia; ou então em vilarejos cujos moradores viviam de pequenos expedientes ou do  comércio local.

O prazer de ouvir essas histórias permite fazer ligações entre o real  e o imaginário, experimentar sentimentos e emoções, desafiar a aridez e o desconforto da vida. Era o único momento em que crianças e adultos se sentiam como gente, uns  ensinando e outros aprendendo. Quase sempre, esta era a única “escola”. Quem viveu em sua infância  momentos  como esses, jamais os esquecerá e tem a certeza de que eles são os mais marcantes em sua vida. O narrador com sua voz entonante, sua emoção, sua expressão, naquele instante, é a figura central daquele teatro ao ar livre. Essa vivência proporciona marcas indeléveis na memória do pequeno ouvinte que por força de sua inexperiência, deixa-se sedimentar as imagens construídas pelo narrador criando como que um álbum de lembranças. Quando adulto, vez por outra se misturam com sua própria vivencia provocando doces e saudosas recordações.

Hoje, a imaginação criadora está ameaçada  pelo turbilhão de imagens que nos são impostas através dos veículos de comunicação e das histórias em quadrinhos. A imagem já vem pronta, não precisa criá-la. O mundo da imagem e do ‘tudo pronto’ afasta as pessoas de atividades que envolvem o ouvir, o pensar, a criatividade, a fantasia.  Desse modo, a criança não forma o hábito de compor as imagens e criar a sua história no seu próprio imaginário. Isto é muito importante como sustentação das composições literárias. Jovens e adultos que não gostam de ler, sua leitura é superficial não tem resposta receptiva, faltam-lhes imaginação, subjetividade. Se não gostam de ler, também não sabem escrever ou descrever, ou narrar ou contar histórias. É uma interdependência entre  gostar de ler e narrar escrevendo ou contando histórias.