Plano Infalível

Plano Infalível

Plano Infalível

Samara estava inteiramente descontrolada. Desde que tivera aquela conversa com o marido no inicio da tarde, o dia para ela acabou. Pegou uma garrafa de vodka que ela nem lembrava mais que tinha e começou a beber. No inicio fora difícil, sem o costume de beber, o primeiro gole bateu como um soco em seu estômago, após o terceiro estava achando até gostoso. Como aquilo fora acontecer com eles? Ela com vinte e sete anos e já separada e o pior, sem filhos. Aquele infeliz nem para isso servira.

– Todos vão pensar que a culpa é minha. É o que sempre pensam
Entre um gole e outro, repassou a cena que acontecera há apenas três horas, mas já parecia longínqua. Arnaldo chegara mais cedo e pedira para falar com ela.
– Quero ser direto e franco com você.

– O que foi? Aconteceu alguma coisa séria?
– O nosso casamento acabou Samara. Não agüento mais ter de voltar para casa todo dia.
– Mas o que eu fiz? – as lágrimas dançavam em seus olhos
– Eu disse que você fez alguma coisa? Sou eu mesmo. Não estou mais agüentando esta vida, esta rotina, tudo me irrita e acho que você não merece isso. Prefiro então que acabe enquanto ainda estamos nos falando…

– É outra? – tinha muito medo da resposta, mas tinha que perguntar.
– Não! Estou passando por um momento em que não quero ninguém em minha vida. Vou viajar e esfriar a cabeça. Mas tenho que estar sozinho neste momento.
Enquanto ela chorava na sala, Arnaldo arrumava suas coisas. Ela ouvia portas e gavetas sendo abertas e fechadas.

E foi assim que tudo se passara e ela até o momento não conseguira entender. Já chorara todas as lágrimas que tinha. Bebeu mais um gole… Sua cabeça começou a rodar e ela achou que ia desmaiar. Foi quando a grande idéia iluminou sua mente – Vou me matar! – Em questão de segundos imaginou como seria. Ele voltaria desesperado e cairia chorando rios de lágrimas sobre seu corpo frio. E ela… Espera aí, ela estaria morta, o que adiantaria ele voltar? Faria melhor – mais um gole – iria fingir que morreu. Mas tinha que ser muito bem feito. Correu para o banheiro trombando nos móveis, olhou para o armário – Que droga! Ela tinha comprado um depilador elétrico, precisava de uma lâmina. – vasculhou tudo e nada, não havia nada cortante.

Ao abrir a última porta seu cotovelo esbarrou em um grande vidro de perfume que com grande estrondo caiu no chão e se partiu em vários pedaços. É sorte – pensou ela escolhendo um bom pedaço do vidro espalhado no piso. Voltou à sala bebeu mais vodka resistindo à vontade de levar a garrafa para o banheiro – Vão pensar que foi bebedeira, melhor deixar aqui. Sentou-se no vaso sanitário. Tinha a intenção de cair delicadamente para a direita com o braço estendido, isso daria um ótimo efeito, o sangue escorrendo pela brancura do piso. Sua visão estava bem embaçada, segurou o caco com a mão esquerda e passou a vasculhar o pulso direito a procura de uma veia pequena. O plano era esse, cortaria uma veia pequena, iria até a sala ligaria para a policia e voltaria para o banheiro onde cairia no chão até que chegassem. Nessa altura pediria entre lágrimas que ligassem para o celular de seu marido, ele arrependido, iria ao hospital e a perdoaria. Enfiou de leve o vidro no pulso tentando acertar uma pequenina veia, praticamente não doeu, mas ela errou a menor, Não tinha problema, em vez de uma cortara duas. O sangue começou a escorrer – Isso sangue corra! É você que me trará meu Arnaldo de volta! – Opa! Alguma coisa estava errada, o sangue estava correndo depressa demais, o chão estava ficando vermelho muito rapidamente – será que peguei uma veia muito grossa? É hora de ligar para a policia – Levantou-se e o mundo girou, segurou o pulso ferido e arrastou-se até a sala conseguiu discar e pedir socorro, suas roupas, porém já estavam ensopadas de sangue.

– Meu Deus – pensou antes do desmaio – estou morrendo!
O velório dois dias depois ocorreu normalmente, mas o espírito de Samara até agora procura uma luz ou alguém que a escute enquanto vaga pelos negros caminhos do cemitério onde seu corpo repousa.
Quantos pretensos suicidas já devem ter passado por isso?

Luiz Carlos Pereira