No Brilho das Joias

Sempre tive o sonho de montar uma joalheria e trabalhar como ourives. Meu pai teve essa profissão a vida inteira e me lembro de muitas vezes ficar vendo sua arte em ação. Num pequeno estúdio nos fundos da joalheria em que trabalhava, no centro de São Paulo, ele esculpia as gemas (é como se chamam as pedras preciosas depois de tratadas); na verdade, ele não gostava de usar esse termo “esculpir”: ele dizia que simplesmente olhava lá pra dentro dela e conseguia enxergar a joia que estava presa lá dentro, e a ajudava a sair.

Já o vi esculp… ops… ajudando a sair várias joias lindíssimas. Lapidava os caminhos de pedras ônix, esmeraldas, águas-marinhas, topázios e, vez por outra, diamantes. Eu não sou de usar joias, mas preciso dizer que, realmente, os diamantes brilham diferente. Não têm uma única opacidade, nem translucência. São absolutamente transparentes e separam a luz em tantas camadas coloridas que é impossível – mesmo – não olhar pra um. Realmente dá vontade de ter um, só pra ficar olhando. Quando ele terminava a joia, a levava para o gerente conferir o trabalho (e nunca vi ele reclamar de uma única peça) e depois a colocava em um expositor especial sobre um grande balcão de vidro logo na entrada da joalheria. Esse expositor era blindado, pois recebia as joias mais caras, e tinha uma iluminação especial com luzes dicroicas que faziam aquelas preciosidades parecerem coisa de outro mundo!

Trinta anos de preparo

Meu pai fazia aquilo desde muito novo, influenciado pelo gosto artístico da minha avó, que não tinha joias (eram muito pobres) mas adorava desenhar aquelas que adoraria ter. Ela acabou falecendo sem ter uma única daquelas, mas meu pai prometeu que faria muitas em homenagem a ela. Guardava todos os desenhos que ela fazia e passou a vida reproduzindo-os em suas próprias joias. Quando terminava, fechava-as em suas mãos, fechava os olhos, agradecia à minha avó e então as levava para o gerente, depois ao tal expositor do balcão de vidro.

Eu vi aquilo a infância toda então escolhi a ourivesaria como carreira. Mas hoje em dia, num mundo competitivo como o nosso, eu não poderia cometer o atrevimento de entrar numa joalheria sem um background forte. Precisava estudar e me especializar. Fiz várias excursões com a escola a museus (inclusive o de mineralogia de Ouro Preto, que foi determinante pra minha decisão), cursei Belas-Artes na universidade e fiz muitos, muitos cursos de ourivesaria. Assisti a muitos filmes, li muitos livros, colecionei fotos, cartões postais e pedia livros-arte como presente de natal e aniversário. Aquilo tudo me deu um tremendo arsenal de imagens, temas e histórias gravados na mente, o que me guiaria pelo mundo das joias.

Foram trinta anos no total, desde minhas experiências assistindo meu pai trabalhar até o dia em que levei meus primeiros croquis à joalheria onde meu trai trabalhou a vida inteira até se aposentar.

De galho em galho

Já conheciam o trabalho do meu pai e gostaram das minhas ideias. Fui contratada e fiquei lá por dois anos. Durante esse tempo, me especializei nos trabalhos com prata e ligas metálicas com prata, conseguindo fazer joias cada vez mais inovadoras. Fui convidada por outra joalheria, com uma proposta difícil de recusar; aceitei e fiquei outros dois anos lá. Em seis meses, surgiu um curso na Itália de design de joias com múltiplos metais e fui fazê-lo. Ainda por lá, fiz um curso de vitrinismo de luxo, onde aprendi que expor joias em madeira pode ser muito mais interessante do que nos típicos balcões de vidro aos quais já somos tão acostumados! Voltei para o Brasil com esses dois cursos na mochila (é, mochila é uma coisa que não consigo deixar de usar).

E chegando aqui, pensei… “e se eu abrir a MINHA joalheria?”. Montei um estúdio em casa, “contratei” meu pai e acabamos montando foi uma grife! Eu não montava mais croquis para levar às lojas, agora eu levava fotos das peças prontas, exclusivas (fazia no máximo duas de cada). Minha mãe administrava as finanças, já que eu sou péssima nisso – meu pai, pior ainda. Tem dado certo! Cada um se diverte fazendo o que gosta e ninguém reclama de cansaço no final do dia.