Medo de dentista? EU?? Lógico!!

Quem é que não sente um certo medo de dentista, nem que seja uma pontinha de receio? Se for humano, normal, mortal e com sensibilidade à dor preservada, provavelmente tem medo, sim. Mesmo aquele medo mais tranquilo de controlar, aquele receiozinho à toa – mas que está lá, marcando presença.

Tá rindo de quê? Ter medo de dentista não é coisa de gente fraca, não! Em quantos consultórios você também precisa receber anestesia de vez em quando para um tratamento que não seja no ambiente de um hospital? Quase nenhum.

Um caso à parte…

Lembro da primeira vez em que fui a um consultório odontológico. E é engraçado como a gente nunca foi a um na vida e já tem um certo medo de ir, não é? Deve ser de tanto ouvir os outros falando sobre isso. “Ah, odeio dentista.” “Nossa, morro de medo!” “Ih, vai ao dentista?? Boa sorte…” e por aí vai. Eu nunca havia pisado num consultório e já tinha medo dele. Por mim, não ia nunca! Mas precisava começar um dia, não é? Então fui. Tinha 14 anos.

Sim, comecei a ir tarde! Mas naquela época não se levava crianças muito novas ao dentista a menos que precisasse – uma queixa de dor, um dente de leite que não caía ou dentição torta, etc. Só por essas é que se ia. Mas caso não houvesse nenhum sinal visível (ou “sentível”) na criança, “não tinha necessidade”.

O consultório era de odontopediatra, então tinha um monte de brinquedinhos na sala de espera. Lembro de ter visto também umas revistinhas e livrinhos com aquelas páginas que não rasgam. “Que cara esperto, colocar essas coisas pra distrair as crianças e evitar o berreiro no consultório… só criança cai nessa”… e em cinco minutos eu já estava reparando nos cavalinhos, casinhas e folheando um gibi (cof).

Quando a consulta do paciente antes de mim acabou, ele saiu com a mãe. Era uma criança bem mais nova, coisa de 5, 6 anos. Não saiu de lá com cara boa, não! Os olhos meio assustados e passando a língua na boca sem parar. Só entendi o motivo quando a mãe viu que eu estranhei, começou a rir e me disse: “é por causa da anestesia, ela não tá sentindo a boca e fica passando a língua”. A-sensação-quando-se-espera-não-é-a-melhor.Minha cara queimou; eu nem desconfiava que tinha dado na cara tanto assim! Mas enfim: dei um sorrisinho amarelo como quem diz “tudo bem, já vi isso antes, não tem problema”. A mulher elegantemente fingiu que acreditou, se despediu e foi embora com a criança que ainda estava lambendo o lábio de baixo. Cheguei a pensar: “por que não dão um pirulito pra essa criatura, coitada??”. E aí entendi: que dentista vai encher a boca duma criança de açúcar??? Nonsense…

Chegou minha vez…

E lá fui eu, fingindo naturalidade. O doutor me recebeu de pé, com um sorriso (perfeito e branquíssimo, cheguei a cegar) e a mão estendida num cumprimento intenso. Pensei: “eita, que mão forte…” e me sentei na cadeira próxima à mesa para uma espécie de “entrevista” pré-consulta. Falei que era minha primeira consulta e que queria só fazer um checkup pra ver se estava tudo bem. O doutor me perguntou algumas informações de saúde e de família e me pediu pra sentar naquela cadeira apavorante de dentista. Quando me dirigi a ela, reparei uma bandeja plástica lotada de instrumentos prateados muito brilhantes e com cara de coisa que corta, fura e arranca. Senti o coração dar uma disparada e comecei a escutá-lo batendo nos ouvidos. Enquanto eu me sentava lembro que o dentista foi até a porta perguntar à secretária se o “consultório gnatus” já tinha chegado. Pensei: “que chique! Um consultório pré-fabricado!” sem saber exatamente como é que isso funcionava. Mas aproveitei a inspiração pra distrair daquela cena horripilante da bandeja e entrei na onda.

Enquanto eu viajava na imaginação do que seria um consultório pré-fabricado, o doutor se sentou de máscara colocada, luvas e o escambau. Pensei: “Tá tudo ferrado, ele vai me operar, com essa força na mão ele vai arrancar minha cara inteira, vai me encher de anestesia, eu vou ter um troço e morrer aqui, e eu tinha falado pra minha mãe que eu ia lavar minha louça quando voltasse da consulta, ai meu deus…”. E tenho certeza que me entreguei de novo, porque o doutor começou a rir e falou que eu podia me acalmar, que era ele e que ele só tinha se paramentado pra poder olhar direito e sem me oferecer riscos. Minha cara queimou de novo. “Duas vezes em menos de dez minutos, ok”.

Típico-medo-de-dentista.De vez em quando ele mexia naquela bandeja e eu ouvia o barulho de coisas metálicas batendo umas contra as outras. LÓGICO que me batia uma tensão quando escutava isso, mas ele tinha me garantido que não ia fazer nada naquele dia, então tentava me acalmar. Entre uma verificação da minha bocarra aberta e cheia de dentes esperando a faca chegar (já dizia Raul), perguntei como era essa coisa de consultório pré-fabricado. Ele me olhou e perguntou “como assim?”. E eu, na minha terrível inocência confirmei: “é, esse tal de consultório gnatus que você disse que tá pra chegar…”

Aí ele parou o que estava fazendo e caiu na risada. Eu fechei os olhos, franzi a boca e tive a certeza: tinha acabado de falar mais uma besteira. Três em vinte minutos! Um recorde!! Aí é que fiquei sabendo que era o nome daquela cadeira estofada onde eu estava sentado. Chama-se consultório porque não é só uma cadeira: ela tem o refletor, o suporte, a bandeja, a pia acoplada… e Gnatus era a marca dela. Ele havia encomendado uma nova e queria saber da secretária se ela já havia sido entregue.

Fim de jogo: 3 a 1 pro consultório

Finalmente a primeira consulta da minha vida havia terminado. Eu já não aguentava mais ver o dentista pairando sobre mim com os olhos brilhando com lágrimas de quem está segurando o riso. Que vergonha! Mas no fim ele foi bacana, me explicou o que ele tinha visto de errado em meus dentes, o que seria necessário fazer, exames, etc. E no final, disse: “olha, desculpa a minha risada aquela hora, mas você não sabe o bem que me fez! Tive um dia ruim e tudo o que precisava era dar uma boa risada pra espantar aquela nuvem preta de cima da minha cabeça!” Me pediu pra marcar a consulta seguinte já de uma vez e disse que fazia questão de me ver de novo. Até onde era gentileza e até onde era gratidão eu nunca vou saber, mas uma coisa eu digo: Isso já tem 20 anos e vou lá até hoje!