Gravatas Viajantes – O Sufoco Executivo

Quem olha de fora, pensa que é fácil. A imagem de um homem bem vestido, de terno e gravata, sapatos engraxados, pasta executiva em uma mão, mochila ou mala pequena na outra, atravessando o aeroporto com olhar decidido até os guichês. Faz o check-in, despacha a pouca bagagem e se senta na sala de espera, smartphone ou tablet nas mãos para verificar cotações, e-mails, atas, informes gerais. Na passagem: SSP-NYC (São Paulo – New York City). “Uaaaaau… Nova Iorque… nunca passeei lá!”.

Provavelmente nem nosso homem de negócios. É quase certo que ele só conheça alguns escritórios executivos e quartos de hotel na “Big Apple” americana, nada mais. Bom… talvez uma loja da Starbucks. Mas o fato é que essa pessoa bem vestida, bem apessoada que aparenta ter uma excelente situação econômica (e talvez tenha, mesmo) passa muito mais tempo alternando serviços de voos comerciais, aluguel de vans e hotéis executivos do que passeando, se divertindo.

Com os cotovelos colados no corpo

Homem sentando no saguão do aeroporto com o note no colo

Um executivo não tem a vida mais fácil do mundo, por mais romântica que pareça a vida nos ares. Estão sempre alternando de locação: uma hora estão no Brasil, na mesma hora do dia seguinte, estão desembarcando em algum outro país – e sempre metidos no uniforme mais utilizado por aí: terno e gravata. De tão acostumados que estão em fazer as principais refeições no espaço apertado de um assento de avião, mesmo em terra eles fazem suas refeições com os cotovelos bem juntos ao corpo. Verdade que alguns conseguem ficar numa postura mais à vontade, espaçosa, mas se for observar a maioria…

“Pra que tanta viagem? Não dá pra resolver por e-mail?” A modernidade atingida pelos meios de comunicação permite que muitos assuntos sejam tratados à distância, sem dúvida, mas alguns exigem a presença física de um representante da empresa. Por exemplo, as reuniões que antecedem o fechamento de um grande negócio nem sempre podem ser feitas à distância, nem mesmo por videoconferência – especialmente quando essa reunião trata de assuntos confidenciais (há sempre o medo do sinal ser hackeado por grupos de interesse naquelas informações). O fechamento dos grandes negócios também pedem a presença dos representantes, não só por causa das assinaturas dos documentos mas, também, por questões de formalidade. Sim, nos tempos do virtual, o físico e alguns costumes tidos como “antigos” ainda têm seu valor.

Pouca bagagem, muitos serviços

Homem andando com uma mala de rodinha

Um homem de negócios normalmente leva pouca bagagem porque sua permanência no local de destino será curta; mas mesmo que haja algum imprevisto e ele precise ficar mais tempo, ele procura sempre pelos hotéis com serviços de lavanderia para não passar aperto. Quando o hotel não tem, há sempre uma prestadora de serviços desse tipo por perto, à qual ele pode recorrer. Porém, o mais comum (e mais prático também) é que o próprio hotel ofereça esse serviço. Além disso, um par de sapatos extra e itens de higiene e barbearia não podem faltar. Sua apresentação precisa estar impecável o tempo inteiro, pois está ali representando sua empresa.

A movimentação de executivos costuma ser feita por taxis; porém quando um grupo desses profissionais é deslocado, o mais comum é que um serviço de aluguel de vans seja contratado para que todos se desloquem ao mesmo tempo podendo, com isso, manter as conversações e evitar desencontros de informação. Esse serviço pode ser acionado tanto na ida ao aeroporto quanto no país de destino. O importante é manter o grupo unido e munido das mesmas informações e resultados de discussões.

Saúde? Já já te respondo

Com tantas viagens, o relógio biológico do executivo tem duas alternativas: se adaptar muito rapidamente ou pifar. Não é profissão para qualquer um. Pessoas assim saltam de um fuso horário para outro com poucos dias de diferença e quase nunca podem se dar o luxo de descansar no dia seguinte para colocar tudo em ordem. “Isso fica para as férias, os negócios não podem esperar”. Ou seja, o corpo vai ter que dar um jeito de conseguir dormir BEM durante o voo e durante as poucas horas deitado na cama do hotel ou na cama de casa. “Estranhar” o colchão não é permitido.

Num primeiro momento, por causa da euforia de novo cargo, um homem de negócios dá conta disso tranquilamente. Mas com o passar do tempo o organismo pede arrego; a imunidade cai, gripes comuns atacam, alergias nervosas podem aparecer, além das noites de insônia e de problemas com o apetite. É uma fase duríssima de adaptação em que fica bem difícil prosseguir – até porque a própria família vai começar a cobrar mudanças, a pressionar. Quando se consegue passar por isso, a rotina fica mais fácil. O cansaço ataca menos, o apetite volta ao normal, a imunidade se restabelece e as costas se acostumam em poucos minutos ao novo colchão. Mas o cansaço… bom, esse continua lá, ainda que aparecendo menos no rosto. O jeito é aprender a lidar com ele, sem que atrapalhe a raciocinar, analisar dados, planejar reuniões…

Definitivamente: não é pra qualquer um.