Fragmento de uma Vida…

Com frio, fome e imensa tristeza, a mocinha anda pelas ruas e becos escuros, sem rumo. Com treze anos incompletos, já se encontra nessa situação digna de pena. Foi abandonada quando tinha cinco meses de nascida na porta de Dona Nazira, que apesar de já ter dois filhos tratou com carinho daquela pequerrucha largada em sua porta, registrou-a como sua filha e deu-lhe nome e sobrenome. Maisa da Silva Eugênio.

Fragmento de uma Vida...

Fragmento de uma Vida...

Nome bonito, cheio de pompa, dizia a mulher e sempre complementava:
– Essa vai ter sorte na vida! – Nunca explicara o porquê dessa certeza a ninguém. Tudo começou a ruir quando seu Orlando, marido de Nazira, morreu abruptamente, o coração pregou-lhe a peça definitiva em plena avenida Paulista. Não houve como socorrer, o ataque foi fulminante. Parece uma vida, mas aconteceu há apenas dois anos. O aluguel deixou de ser pago, foram despejados.

A comida começou a minguar quando foram morar em um barraco na favela do Buraco Quente. O pior ainda viria, Nazira passou a beber diariamente, os filhos mais velhos, já casados. foram morar em outra cidade. As duas ficaram sós. Maisa passou a vender balas nos faróis e a mãe adotiva lavava roupas para fora, quando não estava totalmente embriagada. Foi quando apareceu o Mane Foguinho, um mulato com fala mansa que rapidamente passou a freqüentar a cama de Nazira. A menina passou a ficar cada vez mais afastada de casa, chegava noite alta, tomava seu banho e ia direto para a cama. Em um desses dias Mane a cercou na pequena cozinha, logo na saída do banheiro. Suas mãos começaram a correr pelo corpo de menina que apavorada pedia que ele parasse. A respiração pesada do homem em seu pescoço era cachaça pura.

Gritou pela mãe, mas esta não estava em casa. Sentiu a dor aguda da defloração e desistiu de lutar, não tinha forças contra aquele homem. Após o ato, Mane dormiu tranqüilamente enquanto Maisa limpava-se entre lágrimas abundantes.
Um barulho na porta fez com que levantasse os olhos, era Nazira. Com imensa dor e vergonha disse:

– Mãe, ele me atacou… – Não entendeu quando a mão desferiu-lhe um violento tapa.
– Vagabunda! – a mulher gritava descontrolada – Traindo quem te criou como uma filha, fora daqui!
Maisa saiu desnorteada e começou a perambular pela vida em busca da morte que viria em breve. Nunca encontrou a sorte que a mãe lhe previra.
Luiz Carlos Pereira