Crença ou Fé?

Fé é aderir ao espírito que se considera verdadeiro, dar crédito a uma interpretação sabendo que ela é intraduzível para os outros, vale apenas para nós. Se o nosso exemplo e os resultados que ela provoca na nossa vida faz com que outros sejam nossos companheiros nessa confiança dá-se a expansão pelo testemunho. Crença é sinônimo de fé, é a forma particular de convicção de cada um, o núcleo no qual se apóia.

Mesmo o ateu, de certa forma acredita em Deus, uma vez que para negar algo precisamos do seu oposto e se estamos nos opondo a uma existência de ser superior, é porque admitimos a possibilidade do outro ter razão. É preciso um pouco de humildade para admitir que pelo fato de não se ter conhecimento ou compreensão sobre o assunto não significa que isto não exista. “È, mas não há prova que alguém tenha voltado do outro lado para acreditarmos que exista outra vida ou um arquiteto regendo tudo isto com uma batuta inexorável e uma barba branca  de avô oitentão”.  Personificar Deus pode ser o nosso reflexo de amparo e proteção e as figuras mais próximas disso no nosso inconsciente são a de nossos pais, o que a própria oração do Pai Nosso revela.

 Admitir o Divino com uma forma, uma trindade ou até não ter imagem alguma, como acontece com os budistas para os quais  não há uma imagem de Deus e todo o Universo, inclusive nós é feito da mesma natureza brilhante e amorosa, são formas particulares da crença de cada um.  Tanto o ateu quanto o crente fanático são igualmente extremistas. Um por não compreender e exigir provas e o outro por achar que conhece o suficiente.

A figura intermediária é o agnóstico, que significa aquele que não tem conhecimento. Não quer dizer que ele não creia, mas apenas que reconhece sua condição humana e que foge à sua compreensão decifrar os inúmeros fenômenos do universo. Não podemos afirmar que tudo o que os nossos cinco sentidos nos mostram interpretam adequadamente o mistério do universo, o que Shakespeare já afirmava: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor a nossa vã filosofia”. Assim sendo, o agnóstico pode ser considerado um crente. Ele não nega, apenas é humilde e espera que o tempo se encarregue de sedimentar valores que vão lhe acalmando o espírito e lhe permitindo trazer para si uma porção da “Verdade”.

Vale a pena observarmos, no parâmetro das certezas, aquilo que permanece desde que a humanidade se entende como tal. Família? Certamente. Crença num ser superior, num arquiteto para o universo? Por que não? Existe desde os primórdios da humanidade. Ademais, acreditar em Deus não tem efeito colateral, se quisermos ser simplistas. Se a teoria científica prevalecer e não houver nada do outro lado, não vamos ficar sabendo. Nossa consciência terá se perdido, virado pó e se misturado aos elementos da natureza, no máximo seremos adubo ou componente de outra vida cuja forma ou reino não sabemos. Mas se houver uma outra vida, uma alma, consciência que permaneça, ou qualquer outro nome que queiramos atribuir, aí sim, vamos estar na frente de goleada em relação a quem optou por não crer. Simples, assim, não temos nada a perder.    A crença sadia que não exclui as demais e principalmente não parte para a violência para defender-se, situa-se no saudável limiar da dúvida e nos permite viver em paz com o próximo até quando este planeta nos agüentar ou nossa consciência for habitar outras dimensões existenciais.