Aversão a barulho

Nos dias atuais, é difícil andarmos pelas ruas sem encontrarmos alguém com o volume do fone de ouvido tão alto, mas tão alto que conseguimos escutar a música que ele emite a dois metros de distância. Mas num mundo em que disputamos espaço com o ruído constante dos escapamentos das motos, dos carros e dos caminhões (que quando estão normais já fazem bastante barulho, imagine quando estão modificados de propósito!), além de tantas pessoas que gostam de falar alto… como ouvir nossa música em volume baixo, não é?

Muitas pessoas não ligam para os constantes avisos dos médicos sobre os danos que essa barulheira toda provoca aos ouvidos. Acabam chegando aos trinta anos com a capacidade auditiva de alguém de 60 anos ou mais. Mas também existem aquelas pessoas que têm verdadeira aversão a barulhos altos. Às vezes, devido a alguma condição orgânica em seus ouvidos (ou mesmo na forma como seus cérebros interpretam os sons), eles acabam sendo muito mais sensíveis aos ruídos do que uma pessoa normal. Mas pode ser também por questões pessoais, por exemplo, alguém que cresceu em uma casa onde o silêncio e as vozes baixas eram sempre valorizadas. Esse era o caso de Carol.

Uma casa projetada para o silêncio

Carol é de uma família que aprecia as músicas em volume mais baixo, suficiente apenas para a pessoa interessada ouvir. Em sua casa, as conversas eram sempre em voz moderada, os passos eram mansos (e naturalmente silenciosos) e mesmo em festas com muitas pessoas conversando animadamente, da calçada ouviam-se apenas vozes misturadas mas em volume que não incomodaria o sono nem do vizinho do lado. A preocupação em evitar sons muito altos era tanta que as portas da casa eram todas portas-balcão, as dos quartos em madeira e as da cozinha e da área de serviço em alumínio. Apenas a porta de entrada da casa era basculante normal, de madeira e, quando aberta, ficava sempre escorada por um peso, para que o vento não a batesse.

Com isso tudo, Carol tinha verdadeiro horror à barulheira desse mundo onde o comum é exatamente o barulho alto, as músicas altas, a conversa em voz alta, os carros de som, etc.. Isso a deixava desconcertada e irritada constantemente, já que é uma condição muito maior do que ela poderia combater. Afinal, como enfrentar um mundo inteiro?? Ela sabia que era minoria e, por isso, fez a única coisa que podia quando se formou e arrumou um emprego: se mudou para um bairro calmo (era a característica prioritária na busca pelo imóvel).

Lugares-calmos-e-o-vento-louco-para-bater-as-portas.Como todo bairro calmo, lá haviam poucos prédios, o que permitia que o vento corresse livremente – e batesse as portas o dia todo. Por mais que os pesos de porta resolvessem o problema, eram um tormento a mais para Carol porque, pela falta de hábito em usá-los, frequentemente se esquecia de posicioná-los na frente da porta. E BAM! Ela batia. Por fim, acabou fazendo o mesmo que seus pais fizeram na casa em que viveu a vida toda: trocou quase todas as portas basculantes por portas-balcão. Assim, ficou livre da necessidade dos pesos de porta.

Ativista de bairro?

Mas claro que nem todos os moradores do bairro tinham o mesmo modo de viver de Carol e de vez em quando um morador mais afoito colocava o som alto. Os adolescentes, principalmente, faziam muito isso! É próprio da fase querer exagerar e aparecer, mas Carol não aceitava isso como justificativa. E lá ia ela até a casa, pedir que o volume fosse baixado; mas pedia com educação e cortesia. Cortesia essa que ela não mantinha quando era confrontada – e essa era a única hora em que Carol levantava a voz. Aconteceu poucas vezes, mas foram suficientes para que ela convocasse uma reunião da associação de moradores para reclamar – e lá descobriu que mais pessoas também ficavam incomodadas. E percebeu que naquele bairro moravam muitas pessoas como ela, avulsas ao barulho. É, aquele bairro era tranquilo não era à toa!

Na-reunião-ficou-fácil-identificar-que-haviam-mais-pessoas-incomodadas-com-os-barulhos.E então, a reunião se tornou um local de troca de experiências e dicas (inclusive ela falou da troca das portas e os outros gostaram bastante da ideia). Sobre a música alta dos adolescentes, um dos moradores, que era médico, propôs fazer um teste de audição com os jovens que quisessem, para verificar se seus ouvidos já estavam sofrendo danos – de fato, alguns tinham a audição de um idoso.

Claro, os problemas com barulho naquele bairro não parariam assim tão rapidamente. Mudanças em posturas que são aceitas socialmente por puro comodismo são as mais difíceis de se mudar e Carol ainda teve muitos momentos de irritação com barulho alto em seu bairro. Mas a perseverança é que conquista vitórias importantes, e Carol continuou persistindo, como deve ser.