A Intelectualidade Brasileira

A classe intelectual brasileira sofre de uma doença crônica, a covardia, que se manifesta nas duas formas etimológicas da palavra, ou seja, tanto no sentido de medo como o de deslealdade. A nossa intelectualidade que é representada quase que na totalidade pela classe média, a baixa burguesia, contaminou com esse estigma não só os agentes formadores de opinião como também todas as demais estruturas sociais e econômicas do nosso país. O conceito de classe média, pela sua abrangência, confunde-se com o conceito de classe intelectual, afinal de contas nós brasileiros somos (no sentido de identidade nacional) a resultante das forças que nela atuam, os nossos valores como nação são determinados basicamente pelo modo de compreensão de mundo da baixa e média burguesia que representa aproximadamente quase a metade da população. O Brasil, portanto é essencialmente a sua classe média, que dita à maior parte das tendências e possui maior peso no estabelecimento dos nossos valores culturais, atuando como um catalisador que absorve as mais variadas manifestações e as filtra segundo seus interesses, para depois novamente reintegrá-las, ainda que modificados. Ou, como diriam os neo-modernistas, que possuímos uma intelectualidade ruminante onde primeiro devora, depois mastiga, engole, regurgita e só após esse processo engole definitivamente, mas note que o que é absorvido é algo completamente diferente do que foi originalmente colocado na boca.

É essencial que a classe média brasileira dimensione a sua importância já que as elites não possuem qualquer identificação com o nosso país, fato comum a todas as classes dominantes do mundo que, na rara hipótese de possuir esses laços, são frágeis demais e rompem-se quando ameaçados diante da possibilidade de perda de capital. As classes dominantes são regidas por uma ética particular e universal, parece paradoxal, contudo não o é, afinal ela é comum a todos os poderosos, locais e do mundo. Um rico do Zaire possui interesses comuns aos de um milionário dos Estados Unidos. A identidade nacional existe, mas fica em segundo plano, ela só se manifesta quando os interesses são conflituosos e intransponíveis, ou será surpresa o fato de ricos nativos associarem-se a investidores estrangeiros para a exploração de seus compatriotas, a globalização não é nada além do que a expansão dessa verdade. O Capital age dessa forma, se o mercado interno automobilístico apresentar índices relevantes não será surpresa se montadoras norte-americanas mantiverem empregos no Brasil e demitirem em Detroit, o mesmo acontece com a Vale (1) que pode demitir em nosso país e investir na Bolívia, por exemplo. Essa falta de comprometimento social é o meu principal argumento quando defendo uma maior presença do estado em determinados setores, ou alguém duvida que se a Petrobras não fosse estatal, não estaria também regulando a sua política trabalhista baseada exclusivamente nas leis de mercado. Jovens perdem o seu tempo tentando entender a globalização nas aulas de história e geografia política, mas o seu conceito é bastante simples, o capital apenas compreendeu o seu sentido católico que está enraizado com as aspirações comuns dos poderosos espalhados em todo o globo. O que se define como globalização são apenas os mecanismos que facilitam o acúmulo de riquezas sem que barreiras estabelecidas pelos estados nacionais atrapalhem, o conselho que dou para os estudantes é que ao invés de estudarem o mercantilismo (2), estudem sim a abrangência da Igreja Romana na Idade Média para melhor compreenderem essa nova estratégia do capital.

Portanto, é na classe média que a identidade nacional é formada e se manifesta, e toda crítica que almeje ser fator de mudança deve ser a ela direcionada, afinal se a mudança não for por ela iniciada e mantida, simplesmente não ocorrerá. Nossos valores culturais estão atrelados e subordinados a sua maneira de compreensão de mundo e qualquer tipo de ruptura de padrão só ocorrerá com sua anuência, afinal controla todas as mídias que determinam o comportamento da nação, e esses valores culturais estão de tal forma incutidos que torna automaticamente passível de pesadas críticas qualquer argumento que exponha a verdade – o nosso país está nesta situação devido à postura adotada pela nossa burguesia que, como já exposto, é extremamente covarde. Agora, justiça seja feita, apesar de covarde, ela não se isentou (em tomar partido) de uma tomada de posição e (também) é consistentemente coerente em sua defesa, mas o seu posicionamento em favor das elites criou uma atmosfera propícia à perda de sua identidade nativa, fato que faz com que se torne incipiente culturalmente e, essa falta de conteúdo, crie um vazio coletivo manifestado em um consumismo sem sentido e desenfreado, como se a falta de engajamento pudesse ser suprida com compras de celulares e sapatos, esse desvio de caráter que é a covardia, no sentido de medo, talvez tenha tido origem na presunção de que se os intelectuais se posicionassem contrários às opiniões aceitas pelas grandes nações do norte, estariam sujeitos a questionamentos, então, para sempre posarem como donos da verdade e nunca serem contestados, omitem-se e escondem-se em textos onde prevaleça a subjetividade, assumem posturas proféticas e escrevem por parábolas, e nunca apresentam a sociedade soluções para os seus problemas; promovem congressos onde desfilam toda a sua altivez fidalga, exibindo em pesados tomos, escritos incompreensíveis e recheados de citações estrangeiras que na prática não possuem qualquer importância.

Esse medo é fruto da insegurança e da necessidade de afirmação, pois existe no nosso inconsciente coletivo a ideia de ascensão social aos intelectuais, então diante de suas limitações pecuniárias desistem da tentativa de pertencer às elites e contentam-se com o status de “sábios”, o importante é serem publicamente aceitos e, como conseqüência dessa busca, produzem construções bizarras que, confesso se não as tivesse constantemente presenciando, não acreditaria. Não são pertencentes das castas mais altas, pagam suas viagens ao exterior de forma parcelada, esforçam-se em aprender uma segunda língua e estão sempre envolvidos com questões relacionadas ao limites do seu orçamento, contudo, escrevem para as elites e tentam pensar da mesma forma. Envergonham-se de sua condição negando a si mesmos, porém, ao contrário, deveriam estar mais atentos a mobilidade da pirâmide social onde é fácil perceber que estão próximos dos miseráveis e infinitamente distantes dos mais ricos. Suscitam questões totalmente irrelevantes ao seu contexto, mas o importante é a forma faustosa de seus escritos que é completamente inalcançável aos comuns que, diante de tanta “erudição”, são levados por vindita a letargia. A miséria está próxima, mas seus pensamentos estão em Paris, Nova York e por esta razão negam-se a pensar em questões importantes para as pessoas comuns, e concentram suas energias em produzir subjetividades.

Nossos intelectuais são bons na retórica, em apontar objeções e projeções de erros nos trabalhos dos que, ousadamente cometem o que consideram o maior de todos os sacrilégios, pensar em algo genuinamente brasileiro e de emprego prático a maioria sem o respaldo de algum intelectual europeu ou norte-americano, nisso eles são os melhores do mundo, claro que existem raríssimas exceções, mas a maioria após algumas especializações na Europa e nos Estados Unidos torna-se douto-arauto do pessimismo, e com o respaldo dos veículos de comunicação que por total falta de opções não dispõem de recursos para combatê-los.

Essa nossa intelectualidade tacanha, com raríssimas exceções repito, raramente apresenta algo de concreto que contribua para o desenvolvimento do Brasil não fornecendo, portanto, subsídios para que caminhemos com passos firmes, mas tal qual abutre, está ávida em roer a carne dos que tentam romper a inércia e apresentar trabalhos, (onde) não a sugestão ou a projeção de princípios subjetivos defendidos nesses desertos de pensamentos que são esses congressos promovidos pelas universidades e financiados pelo governo, e sim os que apresentam soluções aos nossos problemas sem temer em revirar o lixo e trabalhar sentindo o odor putrefato das carniças. A intelectualidade brasileira, ou melhor, a classe média brasileira não consegue enxergar suas responsabilidades, não suscita discussões de temas realmente relevantes, tornou-se completamente insensível às questões de cunho social, o academicismo brasileiro está totalmente comprometido com as elites, ignora e menospreza os que tentam apresentar trabalhos que tenham como objetivo romper com os seus paradigmas e propor outras vias que obviamente possam ser questionadas é claro, desde que esses questionamentos sejam acompanhados de outras sugestões. Seria fácil questionar Santos Dumont dizendo – esse objeto é mais pesado do que o ar, essa sua idéia não tem sentido. Com certeza isso seria fácil, mas se junto com a crítica viesse acompanhada de um outro estudo baseado em argumentação científica onde apresentassem a Santos Dumont uma alternativa viável, aí sim estaríamos diante de uma crítica coerente, responsável e condizente com a excelência acadêmica que deve ser a única meta da classe intelectual. Essa mania que se espalhou no Brasil de criticar e denunciar sem o devido respaldo, teve origem nas universidades e que acabaram por contaminar toda a mídia, mas desse assunto vou retomar mais adiante, quero agora falar sobre a outra forma de covardia que é a deslealdade. A classe média brasileira mostrou-se desleal com a maioria da população, virando as costas sem a menor condescendência, deixando os menos favorecidos entregues a própria sorte, afinal somente ela possui o preparo necessário para a articulação e organização política, contudo negou-se a assumir suas responsabilidades, e optando em favor dos mais abastados empurrou para embaixo do tapete todo o lixo que agora de tão grande não consegue ser escondido da visão dos convidados. Nunca se preocupou em defender um sistema público de saúde com qualidade para a população, um sistema judiciário eficiente, segurança nas áreas carentes, uma rede digna de transporte público e principalmente uma rede de ensino de educação básica e pública de qualidade.

Não havia motivos para defender os pobres ao contrário, a classe média preferiu arcar com as despesas dos planos de saúde, bons advogados, condomínios fechados, carros financiados e boas escolas particulares, só que agora esse erro estratégico gerou um ônus cuja fatura está sendo cobrada, o endividamento acarretado por essas despesas estão se tornando insuportável. A violência restrita à periferia agora bate em seus condomínios, não está mais segura dentro dos seus carros e a baixa escolaridade da população já comprometeu pelos próximos trinta anos o crescimento do Brasil, que de um país extremamente viável passou para a categoria de duvidoso, mas temos tempo ainda para reverter esse quadro, mas somente com o engajamento da intelectualidade brasileira e com o seu comprometimento na busca de soluções é que será possível alcançarmos níveis aceitáveis de convivência social, ou as universidades direcionam o seu foco nesse objetivo ou nada poderá ser feito. Aquilo o que semear colherá. O que semeamos na década de sessenta frutificou-se portentosamente ou será que alguém duvida da anuência da classe média brasileira no golpe de 1964 (3). Esse movimento só teve êxito pela sua omissão e, depois, por seu engajamento, ao contrário dos que os historiadores tentam passar para a coletividade não ocorreram, pelo menos de modo sistemático e proporcional à gravidade da situação, grandes manifestações e todas as resistências foram pífias e pontuais. A elite brasileira, em conluio com a classe média, financiou o golpe; ambas possuíam um inimigo comum – um governo de orientação socialista. O temor de um governo que taxasse os latifúndios e promovesse a reforma agrária, alterasse a lei de remessas de lucros e programasse de uma vez por todas as reformas de base foi o que respaldou os militares que, naquele momento, desempenharam o seu papel que era o de defender os interesses da população, o que se viu após isso foi o reflexo de uma opção mal feita. Com a tomada de posição em favor dos interesses dos poderosos, com o êxtase provocado pelo milagre econômico e com a copa de 70, a classe média respaldou o regime de exceção, inclusive o seu endurecimento representado pelo AI 5 (4), agora quando sofre vitima de abusos de autoridades onde a truculência e despreparo de policiais já não se restringem aos favelados e sim aos seus filhos a choradeira é geral, quando assiste indignada a escândalos de corrupção e não dispõe de instituições para frear a roubalheira de nossos políticos, afinal o golpe causou o seu desfalecimento, novamente chora. Até as universidades, que tanto gostam de lembrar o seu passado de “luta” pela democracia, sabem que quando confrontadas com uma análise histórica mais detalhada, são expostas todas as suas culpas onde as resistências ao cerceamento da liberdade foram, repito, insignificantes.

Convém agora que explique esse meu rompante crítico diante da omissão das universidades, pois neste ensaio serei explicito e direto, e em face dos problemas não me esconderei em divagações subjetivas ao contrário, apresentarei as soluções mesmo que sujeitas ao erro; não cometendo, portanto, o mesmo vício das elites intelectuais brasileiras, que por pura covardia e medo das reações críticas não expõem de forma clara, antes preferem monopolizar os meios de discussão e promover o culto à subjetividade. Questionam, questionam tudo, mas de concreto nada. Onde estão os trabalhos das universidades humanísticas desse país? Onde estão os estudos realizados com o intuito de melhorar as condições da sociedade, das faculdades de sociologia, antropologia, pedagogia ou de filosofia? Quando ocorreram manifestações, greves ou passeatas em prol de algo que dissesse respeito a toda coletividade e não reclamações pontuais e salariais? Sinceramente às vezes acredito que se o objetivo burguês é esculhambar com tudo, seria uma economia relevante se fechassem essas instituições públicas, ficando a cargo das instituições privadas exploração desse segmento de conhecimento. As faculdades públicas desse país, principalmente as áreas humanas, não produziram nada de relevante, somente professores, agora antes que critiquem essa afirmação em relação à palavra somente devo fazer um adentro – claro que sabemos da importância fundamental na formação de professores, mas o nível dos profissionais produzidos pelas universidades federais não é compatível com os recursos alocados, as universidades não buscam a excelência acadêmica, então se é para formar mão de obra docente deixemos que fique a cargo de instituições privadas que possuem melhor gestão para esse objetivo. É extremamente doloroso dizer essas palavras, mas temos duas opções antagônicas, ou a intelectualidade de uma vez por todas decide abraçar uma alternativa que contemple a todos os segmentos sociais ou desiste, resignadamente e de uma vez por todas, da hipótese de construção de uma grande nação. Essa opção vacilante é a forma mais cruel de opressão existente, vou dar dois (ótimos) exemplos pontuais, a África do Sul e os Estados Unidos, as classes dominantes sul africanas durante o regime de apartheid explicitamente promoveram um regime de segregação racial onde o negro sabia exatamente onde era o seu lugar, pois bem foi a partir dessa política racista que se formaram movimentos de resistência, heróis e mártires como Mandela, por exemplo, que possibilitou a ascensão política e econômica dos negros sul africanos. O mesmo acontece com os negros nortes americanos dos quais nunca foi escondido de que viviam em um país de maioria racista, e quando você enfrenta um inimigo no campo de batalha é natural que a coesão exista para que seja possível a vitória, os negros nortes americanos são os mais bem sucedidos do mundo por serem também os mais unidos do mundo, sempre reivindicaram espaços em todas as áreas, da política as voltadas ao entretenimento, conseguiram formar uma influente classe média que culminou com a eleição de um presidente afro descendente (5). No Brasil onde, infelizmente, não há campos de batalhas oriundos de questões raciais, e sim uma guerra de guerrilha onde o inimigo astuto e covarde, dissimula e acena sempre com um armistício quando na verdade está sempre em tocaia nos becos escuros pronto para ferir quando estiver desarmado, um jovem negro brasileiro cresce sem saber que existe racismo, desarma-se, mas quando atingir a idade de entrar no mercado de trabalho será atingido e não terá armas para reagir, aí depois de debilitado tentará lutar novamente, o coitado cresce vendo um padrão de beleza que difere e muito do seu, aí na adolescência quando der uma “cantada” em uma loirinha vai ser, na maioria das vezes, ferido novamente. Excluído em todos os sentidos, econômico e emotivo, o que poderá ser feito para que se rompa com essa estrutura segregacionista? A mudança só pode ocorrer tendo a educação como a sua principal força motriz, os outros valores que apesar de imprescindíveis como a democracia e a justiça, só poderão ocorrer quando a educação vier capitaneando as mudanças. Nas universidades federais possuímos mestres, doutores com especialização fora do país que simplesmente não estão comprometidos com a realidade brasileira, ao invés de buscarem esse comprometimento procuram meios de tornar público os seus distanciamentos, por vaidade ou medo, escondem-se em divagações e negam o que se apresenta diante de seus olhos que é esse abismo social que compromete nossa unidade como nação e, ao invés de focarem seus esforços na busca de soluções, preferem exercer outras atividades, publicam artigos, livros e ensaios e lixam-se para seus alunos, afinal formar mestres não dá status, prêmios jabutis (6), entrevistas na rede de televisão educativa e por aí vai. Para não ser injusto saliento novamente que existem ilhas de excelência acadêmica, temos como exemplo a UFRJ e seu departamento de tecnologia que em poucos anos desenvolveu tecnologias de prospecção de petróleo em águas profundas fator estratégico de nossa soberania, bastando apenas que recursos da PETROBRAS fossem alocados, ou a Universidade de São Carlos, a USP e a UNICAMP que desenvolvem, há vários anos e de forma totalmente abnegada, trabalhos relevantes de pesquisa em prol da melhoria da saúde pública, poderia citar vários projetos como os desenvolvidos pelas UFRGS, UFF, UFCE, Universidade de Viçosa-MG entre outras, mas com certeza nenhum relevante na área de humanas. Mais a frente, quando discorrerei sobre educação, retomarei esse tema enfatizando o assunto, no momento esse meu rompante crítico foi necessário para estabelecer logo de início qual é a característica desse ensaio, a objetividade.

Questões fundamentais sobre o nosso país são discutidas nos meios acadêmicos, teses apresentadas, projeções, teorias… As variantes mais diversas são propostas, mas todos esses trabalhos evidenciam particularidades comuns – são recheados de citações de pensadores estrangeiros, algo idiossincrático (é completamente ignorado). É de praxe professores incentivarem seus alunos a valerem-se de citações para que seus trabalhos tenham alguma legitimidade, criou-se a república do segundo, melhor dizendo, a ditadura do segundo – explico, qualquer trabalho para ser bem avaliado tem que possuir esse lugar comum: Segundo Dr. Fulano Phd por Harvard, em seu livro As Bases da Economia Norte Americana, somente as taxas de juros altas possibilitam frear o processo inflacionário; segundo Dr. Sicrano da Universidade de Oxford, somente o modo de vida e a visão de mundo dos paises ocidentais desenvolvidos são condizentes com o conceito de civilização humana as demais formas devem ser submetidas ao padrão norte-americano e europeu. Segundo, segundo, segundo… Essa citação dá um peso a qualquer trabalho universitário, mas será que as experiências das grandes nações do norte podem ser importadas e adaptadas ao nosso contexto? Evidente que não! Quando assimilamos conceitos produzidos fora de nossa realidade estamos fadados sempre a nos tornarmos uma cópia mal feita, tal qual um indivíduo que vai morar depois de adulto em outro país, por mais que domine os padrões da língua ele nunca falará e nem será como um nativo, claro que é importante estudar experiências vivenciadas por outros povos, não questiono isso absolutamente, o que quero dizer é que as soluções dos nossos problemas só podem ser encontradas por nós.

O modelo econômico das grandes potências possui vícios que, sinceramente, surpreende o fato de nunca virem à tona, e se o objetivo é alcançarmos o mesmo nível de desenvolvimento desses países passando pelos mesmos caminhos, t(r)emo de pavor sobre o que teremos que fazer. Todas as nações do norte se desenvolveram tendo como bandeiras comuns a exploração de seus semelhantes, a guerra e a degradação desenfreada dos recursos naturais. Os Estados Unidos, que nesse início de século despontam como o campeão dos direitos individuais, os defensores da natureza e o guardião solitário dos valores mais sublimes da humanidade, é novamente um ótimo exemplo para essa reflexão, afinal os nortes americanos dizimaram completamente os seus índios e os poucos que restaram do genocídio estão completamente aculturados não possuindo qualquer resquício de sua identidade enquanto povo; destruíram quase que completamente suas florestas e emitem metade dos gases que destroem a camada de ozônio. Os defensores mundiais dos direitos civis, diante da ameaça de perder mercados para os comunistas, financiaram toda a sorte de governos totalitários na América do Sul, onde nas prisões por motivação política, torturas e mortes eram encaradas como práticas normais. Tudo isso para garantir que seus interesses econômicos fossem preservados, o modo de vida norte americano está acima de qualquer coisa, as guerras impetradas são um capitulo a parte, testaram sem a menor necessidade artefatos nucleares no Japão, alguns acreditam que talvez o ataque a Hiroshima fosse necessário, mas o que dizer de Nagasaki que não passou de um recado ao Império Soviético. O recado foi entendido, as milhares de vitimas civis japonesas não passam de um detalhe, os coreanos e os vietnamitas também sentiram o peso de se opor aos defensores mundiais das liberdades individuais, vitimados por armas químicas e biológicas como o famoso agente laranja, da mesma maneira que os afegãos estão sendo massacrados e governados por um fantoche que se submete aos interesses estratégicos americanos na região. Os iraquianos foram subtraídos de sua soberania por inúmeras razões, a maioria inclusive era falsa, mas o fator crucial mesmo foi a incalculável reserva de petróleo do Iraque, na lógica americana o importante é a garantia de abastecimento de sua frota veicular, os mortos na guerra são pormenores. Todo aquele que ousar ameaçar os interesses americanos, a nação mais poderosa e belicosa do mundo, estará sujeito a dois tipos de abordagens: (a primeira é) sofrer todo o peso de sua impressionante estrutura militar, ou, a que considero a mais poderosa, ser alvo de campanha de informação que distorcerá os motivos do conflito, onde os EUA passarão a imagem de defensores de ideais nobres, que com o tempo, quando a fumaça das bombas se esvaírem e os mortos forem enterrados, todos acreditarão na verdade americana.

Convém ressaltar que citei os Estados Unidos por ser mais emblemático na atualidade, mas o mesmo padrão de avaliação de postura histórica aplica-se a todas as potências européias, sem exceção, que na defesa de seus interesses conduziram a humanidade para dois conflitos mundiais, geraram as três maiores deformidades de nosso espécime que são respectivamente o nazismo, o fascismo e o comunismo. Não posso deixar de registrar que as atrocidades cometidas contra o gênero humano não é uma exclusividade dos regimes capitalistas, o comunismo foi e continua sendo um agente promovedor de barbáries, os soviéticos, representados pelo ser bestial que era Stalin (7), condenaram milhões de pessoas à morte durante os seus expurgos, o mesmo aconteceu na China e para o espanto da opinião pública mundial continua acontecendo, em menor intensidade admito, mas ainda observamos a truculência de um regime autoritário no oriente, agora caso o leitor não queira ir longe tente se informar sobre o que acontece em Cuba onde apesar dos avanços em alguns aspectos sociais ainda persiste um governo que priva o individuo de liberdade.
Ainda é possível observar no continente Africano conflitos étnicos onde requintes de crueldade são exibidos como algo proveniente de povos ainda bárbaros, esse erro é comum às pessoas que não estudaram com um pouco mais de atenção a história das ocupações européias no continente negro, esses conflitos que muito nos chocam são produtos da política mercantilista do velho continente que, para sustentar e garantir os seus requintados padrões de civilização, retalhou a África e promoveu as disputas de grupos rivais para que sem unidade não emboçassem qualquer possibilidade de reação ao domínio estrangeiro, isso restringindo-se ao século XX sem mencionar, portanto, o tráfico e a escravidão negra que apesar de não terem sido criados pelos povos do norte foi por eles desenvolvido, mantido e ampliado. As atrocidades cometidas pelos belgas, na figura perversa de Leopoldo II (8) no Congo Belga (atual Zaire), constrangeriam os mais sádicos carrascos nazistas, amputar mãos de seres humanos, a maioria crianças, por não conseguirem alcançar a cota de extração de borracha foi o que fizeram os “requintados” belgas já nas portas do século XX. O refinamento, a elegância e a excelência acadêmica européia estão alicerçados sobre uma montanha de cadáveres dos povos explorados e florestas devastadas, toda a pujança da sociedade americana, tão declamada, está também fundamentada sobre esse mesmo alicerce. Agora, nossa intelectualidade esforça-se em trabalhar para que esses mesmos modelos sejam nossas metas, será que é esse o melhor caminho? Não haverá outra via? Será que a mediocridade de nossos intelectuais prevalecerá? A incapacidade de se pensar o novo propicia que busquemos em modelos já existentes nossa diretriz, contudo custa-me a crer que o nosso destino deva ser o de uma cópia mal feita das grandes nações do norte, por mais que nos esforcemos sempre seremos uma cópia, um amigo economista tentou em vão explicar-me a importância da avaliação de agências de investimentos para o Brasil, um escritório a milhares de quilômetros de distância onde um bando de engravatados que nunca puseram os pés no nosso país definem o nosso grau de confiabilidade, não perco o meu tempo com essas besteiras, mas a nossa classe intelectual perde e acredita nessas verdades e nos impõem “goela a baixo”, com todo o seu poder de influência.

Não podemos reproduzir padrões utilizados por outros povos, o plagio é condenável em qualquer esfera de comportamento humano, mas se tratando desse assunto, especificamente, é necessário que o nosso posicionamento seja guiado por uma revolucionária visão estratégica, reproduzir esses padrões transcende o fato de ter ou não autonomia e identidade nacional, há algo mais profundo que isso, é a sobrevivência do planeta que está em jogo, os costumes e valores das grandes potências são os principais causadores da aceleração da extinção humana. O grande Lima Barreto (9) já delineou a forma preconceituosa como as elites menosprezam o novo, mas não tenho medo de ser taxado como Policarpo Quaresma (10), pelo contrário orgulha-me essa comparação, o fato é que medidas concretas que parecem anacrônicas e arcaicas são na verdade fundamentais para a nossa sobrevivência, o mundo não comporta um outro Estados Unidos e se os prognósticos a respeito da China e Índia se confirmarem a aventura humana estará com os dias contados, os chineses e indianos quando pertencerem ao clube dos grandes consumidores estarão também fazendo parte de um outro clube, o dos grandes poluidores. A demanda de recursos naturais sofrerá um impacto significativo e o mercado não possui ética em relação às questões ambientais, a lei máxima que segue é a mesma há séculos, ou seja, se existe mercado haverá produção, questões ambientais sempre ficam em segundo plano. Estudiosos das questões ambientais já prevêem conflitos, ainda nesse século, por água potável. O aquecimento global ainda pode ser retardado desde que uma nova ordem mundial surja e se almejarmos os padrões norte americanos não teremos salvação e confesso que temo o mundo onde os meus netos viverão (11).
Não podemos consumir como os povos do norte e para que isso seja possível devemos incentivar que valores, nossos valores, que contribuam para a preservação ambiental, tenham destaque; essa é a razão de defendermos a nossa forma de vida e rejeitarmos a que nos é imposta. Como já mencionei, nossa constituição étnica, onde a influência indígena apesar de por muito tempo ter sido renegada, desponta agora como um fator diferencial positivo, nossos índios sempre viveram harmonicamente com a natureza e essa herança cultural ainda vive, milagrosamente vive, entre nós. Somos em nossa gênese um povo da floresta e essa condição deve ser motivo de orgulho.

Além da valorização do nosso modo de vida, concomitante devemos promover medidas concretas no sentido da preservação ambiental que no princípio parecerão idiotas, e irá no sentido contrário aos padrões universalmente aceitos. A diminuição do consumo em certas áreas se faz necessária e dentro dessa proposta a agropecuária ocupa um papel central.

No Brasil predominam os seguintes biomas: o Amazônico, o Pantanal, o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica. É fácil perceber que todos são agredidos, independente de sua localização, (e também) não podemos esquecer que a produção de alimentos é uma necessidade não só para nós, mas para toda a humanidade; contudo, a preservação é uma questão vital e nós possuímos subsídios para atender toda a demanda sem agredir muito o meio ambiente além de possuirmos a possibilidade de recuperarmos o que já foi devastado. O bioma Amazônico simplesmente deve ser preservado, isso é uma questão indiscutível. Qualquer empreitada em sentido contrário deve ser desestimulada pelo governo federal, acredito inclusive que a demarcação de terras indígenas constitua um fator de garantia a preservação [das mesmas?]. O argumento que está muito em voga em nossos dias é de que a não preservação amazônica comprometeria a nossa soberania, fato que não possui qualquer embasamento, afinal todos nós sabemos da necessidade da ocupação militar desse bioma. O Pantanal segue o mesmo raciocínio aplicado ao bioma Amazônico, deve ser preservado a qualquer custo. A Mata Atlântica devido à ocupação histórica das regiões litorâneas brasileiras deve seguir o critério técnico, sem que a paixão predomine o debate, é claro que é impossível à recuperação de 20% de sua cobertura original, isso é fato, como também o de que podemos concentrar esforços na preservação das matas ciliares que garantem o abastecimento de água aos grandes centros, o nosso esforço deve ser direcionado nesse sentido, combatendo a ocupação das margens dos rios e as reflorestando. O enfoque dado a Caatinga deve ser outro, durante séculos sempre foi vista como um problema, agora necessitamos de que seja reavaliada e pensada como a solução da ampliação de nossas fronteiras agropecuárias. A Caatinga, ou semi-árido, representa a nossa última fronteira agrícola, espaço onde devemos depositar todas as esperanças na preservação do nosso ecossistema. Para tal, contamos com as novas tecnologias de irrigação, que já são bastante conhecidas, e a constante presença de luz solar que possibilitam o florescimento das mais variadas culturas sem que a transposição do Rio São Francisco seja encarada como a única medida de fornecimento de água. A preservação dos mananciais aquíferos deve ser priorizada e o Velho Chico fartamente nutrido com medidas que promovam o reflorestamento de suas margens. Como já deve ter reparado não mencionei o Cerrado, que atualmente concentra boa parte de nossas áreas cultivadas e usadas na criação de gado, mas isso não deveria continuar o Cerrado é importantíssimo para o equilíbrio dos demais biomas e sua preservação é um pré-requisito para que uma política ambiental eficiente seja implantada, as nossas áreas cultiváveis são vastas, mas devem ser restringidas as regiões sudeste, sul e nordeste, é claro que estou referindo ao agro negócio e não a agricultura ou pecuária de subsistência familiar. O MST (12) poderia exercer um papel importante nesse sentido, funcionando como um regulador da ocupação das terras pelo agro negócio, onde os assentamentos ganhariam uma nova função que não se restringiriam somente as questões sociais, mas as ambientais.

Pode parecer uma insanidade, mas a nossa agropecuária tem que diminuir, o consumo de carne bovina tem que ser desestimulado, cada boi a mais no pasto significa um metro quadrado a menos de floresta; tudo isso deve ser feito acompanhado de medidas que incentivem uma mudança cultural e de comportamento. Quanto à questão do mercado externo e o impacto econômico e social que isso acarretará devem ser compensados com estímulos de atividades que possa harmonizar-se com a questão ambiental, temos possibilidades exponenciais para isso, e certas culturas agrícolas (13) são completamente ajustáveis com as necessidades futuras da humanidade, o consumo de carne bovina continuará é claro só que reduzido, a área plantada não necessariamente diminuirá o que defendo é que o agro negócio não atue em certas regiões, que são a Região Amazônica e o Centro-Oeste. O desmatamento de nossas florestas necessita de um combate efetivo e contundente, se não conseguimos fiscalizar os madeireiros que agem nas matas, taxemos então as exportações de madeiras com altíssimas alíquotas, e fiscalizemos os portos que exportam madeira, assim como as indústrias nacionais que dela utilizam. O Brasil precisa estar na vanguarda da construção dos novos valores da humanidade, liderar as nações nesse processo com medidas concretas, são várias e entre elas está a conscientização de que a indústria automobilística, da forma como atualmente se apresenta, é nociva ao planeta comprometendo nossa existência, o transporte público deve ser o foco dos governantes, toda essa cultura do “descartável” que simboliza uma evolução humana deve ser combatida, a cultura do durável e reutilizável precisa ser estimulada, as garrafas de refrigerantes, as sacolas plásticas, os isopores… Tudo isso necessita de revisão. A indústria de celulose comete crimes gravíssimos ao meio ambiente, e justificam-se com o argumento de que promovem políticas de reflorestamento, pode até ser, mas na prática o que vemos é a ampliação desses desertos verdes que são as plantações de eucaliptos onde nenhum bicho se encontra e sugam os lençóis freáticos para produzir papel higiênico.

A demanda de energia nos obriga que realizemos estudos mais aprofundados sobre o tema, que necessita de reavaliação onde com o racionamento imposto nos últimos anos demonstrou claramente que a melhor maneira de aumentarmos a nossa oferta energética é evitando o desperdício, fica claro que não possui o menor sentido investimento de milhões de dólares em novos matizes energéticos que assoreando os rios e desmatando a floresta para a construção de hidrelétricas são apresentados como a melhor opção, quando com medidas simples que incentivassem o uso responsável de energia possibilitaria que tivéssemos um ganho energético equivalente a uma Itaipu (14). Não podemos deteriorar o meio ambiente com a justificativa de ser a mais viável forma de garantir o nosso desenvolvimento, os recursos naturais são infinitamente mais estratégicos do que alguns milhões de kilowats, as futuras gerações pagarão caro pelo uso sem critério dos recursos naturais que não são exclusivamente propriedade de nossa geração. Nossos governos cometem um erro gravíssimo quando não alocam recursos financeiros na pesquisa e implantação de fontes energéticas renováveis e não agressivas ao ecossistema, os recursos investidos nas usinas nucleares (15), por exemplo, seriam bem melhores aproveitados se direcionados nos programas de geração de energia eólica ou solar. Acredito que não exista lugar melhor no mundo para a implantação desses sistemas do que no semi-árido Nordestino, recursos para a sua implantação existem, tecnologia também, mas o temor de parecermos anacrônicos faz com que percamos tempo e declinemos da posição de vanguarda no mundo no campo da preservação ambiental. É crucial que assumamos essa posição que significaria a consolidação de nosso posicionamento no palco geopolítico mundial. Mas para que isso ocorra necessitamos que nossos dirigentes tenham coragem para ousar e enfrentar diretamente os desafios que surgem diante de nós, onde os impactos econômicos e sociais gerados em decorrência de uma política estratégica voltada para questões ambientais devam ser absorvidos mesmo que o custo inicial para sua implantação seja elevado. Questões polemicas não podem ser evitadas e o controle de natalidade é uma delas, as pessoas pensam que Malthus (16) errou em seus prognósticos em relação ao aumento excessivo da população humana, o seu erro foi não prever que os avanços tecnológicos na produção de alimentos garantiriam um aumento exponencial na sua oferta, mas o grande mal que surge nos tempos atuais não se refere a fome, que sabemos existe, mas decorre de uma injusta distribuição de recursos, os gêneros alimentícios produzidos pela humanidade são mais que suficientes para todos, então qual o motivo de ter citado Malthus? A resposta é simples, o aumento da populacional impôs proporcionalmente o aumento do gasto de energia para a produção de alimentos, onde somadas medidas como o desmatamento para a abertura de pastagens e as modificações genéticas dos grãos para assegurar uma maior produtividade são entre tantas necessárias para garantir a subsistência da população, fica evidente que a população mundial necessita ser controlada quanto ao seu tamanho sob a ameaça de provocarmos um esgotamento de nossos recursos naturais, a China está aí para servir de base de estudo sobre os impactos de uma gigantesca população no meio ambiente, e acrescento que se não fosse o seu rigoroso controle de natalidade o colapso não só restringiria no plano econômico-social, e sim no ambiental.
Posso estar errado, mas confesso não conseguir enxergar algo mais importante que a preservação do gênero humano ou não foi esse sentimento de preservação que possibilitou todo o nosso desenvolvimento. Acredito que deva ser pelo mesmo motivo que devemos estabelecer limites ao desenvolvimento não sustentável.
O jogo de xadrez ensina que para ganhar é necessário às vezes ceder, esperar ou até mesmo abrir mão de uma posição vantajosa, mas momentânea, para em alguns lances na frente alcançarmos o xeque mate (17). O xeque mate é a nossa sobrevivência e acredito que a história humana, apesar de todos os seus percalços deva ser preservada e o “retrocesso” da marcha do desenvolvimento é um preço que considero razoável a ser pago pela vitória, a nossa sobrevivência.
A classe intelectual brasileira necessita o quanto antes se livrar das amarras da covardia, e corajosamente convocar todos os demais a embarcar e zarpar para mares nunca antes navegados. Se continuarmos na dependência que outros povos nos mostrem o caminho até navegaremos, mas o destino será previsível e a conjuntura atual demonstra que a aventura humana rumará ao abismo que há na borda do mundo. Os valores que nos são inatos onde celebramos a comunhão do homem com o planeta representam a nossa única esperança.

  • sam

    Que Texto Sensacional !!! Bravo !! Bravo Bravíssimo !!!