A Construção de Um Estado

Um estado moderno, imparcial que com justiça e firmeza zele por todos os seus, naturalmente irá se transformar em um agente promovedor da paz e do desenvolvimento. Esse estado deverá ser construído tendo a ordem como pedra fundamental e sob ela se apoiarão as demais pedras angulares: a democracia e a justiça.

Entretanto para alcançar esse objetivo faz-se necessário primeiro estabelecer uma diretriz que sirva de molde para uma postura filosófica singular, única onde à pluralidade ajustasse a um modelo consensual pré-concebido. Convenço-me cada vez mais de que os modelos econômicos, as formas de governos, as organizações políticas e tudo o que a mente humana foi capaz de criar com o intuito de organizar-se, esbarram em questões que ultrapassam o plano político-econômico transcendendo para o campo psíquico-filosófico. Somente nessa área podemos compreender melhor o homem no que tange suas aspirações, e em um primeiro momento em face da pluralidade do gênero humano presumimos que suas aspirações também sejam variadas, mas para o nosso espanto elas podem ser resumidas em duas, que na verdade são duas buscas. Em primeiro lugar buscamos a satisfação material, os prazeres físicos, para depois buscarmos o conhecimento. O homem só é feliz quando prospera materialmente e desenvolve-se intelectualmente, essa é a nossa natureza e compreender isso é compreender a humanidade. Claro que outras coisas propiciam-nos prazer, mas a nossa realização plena estão atreladas a essas questões, as demais com exceção as vinculadas a parentescos que são sentimentos inatos que nos acompanham desde os tempos primitivos são efêmeras.

Essas buscas são, portanto, os fatores determinantes do instinto natural, é o que nos diferenciou dos demais animais e nos possibilitou subjugar o meio ambiente e prevalecer sobre predadores mais fortes. Instinto que rege nossas vidas e nos empurra à competição com nossos semelhantes com o intuito de alcançarmos nossas metas que são, repito, a satisfação física e o acumulo de conhecimento. Quando nascemos somos programados a buscar estes fins e no transcorrer de nossas vidas passamos por várias fases, mas mesmo depois de inúmeros fracassos continuamos tentando. Um estado que cumpre com sua atividade fim que é proporcionar o bem estar de seus membros, deve estar atento a essas questões, analisando sem hipocrisia a natureza humana e ver que a competição, qualidade natural do gênero humano, faz com que se estabeleça uma desigualdade entre nós. Sem qualquer sofismo explico, se o homem tende a competir buscando sempre a diferenciação e se esse comportamento é padrão, concluímos que o ser humano não acredita na igualdade entre seus semelhantes, e para isso cria e se apóia em instituições que na verdade só tem um objetivo, a diferenciação.

As grandes famílias, os clãs, as tribos e as nações que no primeiro momento surgiram com o objetivo de se protegerem carregavam em sua formação também e de forma indelével os genes da diferenciação, que precisava transportar os limites da individualidade legitimando a catarse coletiva exteriorizada para os elementos de outros grupos – ”eu sou diferente de você, pertenço a outro grupo”.

Pode parecer uma incoerência afirmar que as metas almejadas pelos seres humanos sejam as mesmas diante de sua singularidade como indivíduo, mas uma observação mais atenta demonstra que esta generalização existe e é fator determinante na formação de nossas sociedades.

A humanidade é um conjunto como outro qualquer, onde elementos estão ligados intrinsecamente e consequentemente interagem-se constantemente, creio que não há discussão quanto ao fato do homem ter a necessidade da vida em grupo, mas, apesar de aceitarmos e realmente sermos um conjunto inexplicavelmente o nosso âmago carrega a idéia fixa de que não somos “simples” elementos, chegando ao absurdo semântico de ser considerado um pejorativo ser tratado como tal, essa conceituação é consensual e por ser um padrão humano torna-se uma verdade. Reconhecemos a máquina que é a sociedade, mas ojeriza – nos a idéia de sermos engrenagens. Outro dia estava conversando com um amigo e depois de algumas ponderações chegamos à conclusão que o fato do ser humano superestimar sua individualidade possibilita uma situação que é benéfica, mas por outro lado esse posicionamento pode desencadear atitudes extremamente nocivas para toda a coletividade uma vez que proporciona o distanciamento com o próximo, onde somente o que está ao meu redor tem importância. Se existe violência em outra cidade não me importo, se pessoas morrem de fome em outras regiões não me diz nada e por aí em diante. Esse posicionamento inato a respeito de nossa individualidade possibilita uma melhor assimilação da seguinte argumentação – não somos iguais, somos e queremos ser diferentes. Pode ser que ninguém seja melhor ou pior que o outro (particularmente acredito que existam pessoas medíocres), mas a igualdade não caminha lado a lado com a humanidade. Uma sociedade igualitária é inalcançável afinal é impossível impor normas de comportamento coletivo que se choca com os anseios naturais de cada indivíduo que é o de destacar-se em relação ao grupo. Defrontamos com o seguinte paradigma – necessitamos por uma questão vital de uma organização, mas somos humanos e por conseqüência, individualistas.
Diante da dificuldade de organizarmos um conjunto homogêneo formado por elementos heterogêneos, mas sendo a solução dessa equação fator determinante à nossa sobrevivência conclui-se então que tal qual a família, o estado possui toda legitimidade de existência como uma organização natural, que nos acompanha desde que descemos das árvores, sendo assim é legitimo que todos os meios sejam usados para a garantia e preservação do estado possibilitando, que sua atividade fim seja realizada de forma satisfatória onde os seus interesses prevaleçam sobre quaisquer outro.

O estado é uma instituição natural ainda que criado artificialmente, podemos defini-lo como a ampliação da família, a sociedade não subsiste a sua ausência, os indivíduos tendem naturalmente a colocar os seus interesses acima de qualquer coisa, mas isso não significa que sejamos maus apenas seguimos a nossa natureza e é essa mesma natureza que nos impele a obrigatoriamente organizarmos nossa vida em sociedade, criando mecanismos que possibilitem o harmônico convívio social, esses mecanismos funcionam como freios que tolhem nossos impulsos humanos, que são egoístas. Os costumes universalmente aceitos, os dogmas religiosos e principalmente as leis são os mecanismos que me refiro, são eles que estabelecem os nossos limites e possibilitam a nossa existência, é fundamental que enxerguemos a magnitude da importância do estado que deve ser preservado como se fosse um ser vivo, mesmo que concretamente não seja ele é o responsável para que a vida subsista, e que as sociedades se mantenham coesas e imbuídas no seu pétreo propósito, a preservação.

Preservar o estado parte do pressuposto que ele exista, nós brasileiros não o preservamos porque ele realmente não foi construído. Algumas questões demandam urgência na solução e sem que elas sejam respondidas corretamente nunca avançaremos. Delinearei ponto por ponto todos os aspectos que julgo imprescindíveis para a formação de um verdadeiro estado em nosso país, são esses os tópicos que abordarei neste ensaio:

1-A Justiça: Ponte sobre O Fosso Social;

2-Dívidas e Reparos Históricos;
3- A Reorganização Federativa;
4-A Defesa Nacional;
5-O Controle do Estado;
6-O Capital;
7-A Saúde Pública;
8-A Educação Pública;
9-O Controle do Total do Estado na Educação;
10-A Reforma do Ensino.
11- O Conflito