Vidas Paralelas

A cantora Cássia Eller dizia gostar de blues. Mas achava que sabia fazer melhor era rock-and-roll, que preferia mais batida, mais suingue.

Meu filho diz que blues é o ritmo dos caminhoneiros com saudade de casa. Não sei de onde ele tirou esta idéia, mas até que faz sentido. O choro do Blues tem tudo a ver com pessoas que levam a vida em caminhos paralelos, sem semáforo ou retorno, apenas sabendo que deve seguir em frente, sem saber quando parar. Música é empatia. E o que transmite para uns, não necessariamente é percebido por outros. O compositor Zeca Baleiro, alternativo como ele só, diz num dos blues que interpreta, que “nada é mais chato que um cantor de blues”. Como ele vive fazendo trocadilhos em suas letras, podemos interpretar a brincadeira pelo estilo meio depressivo do blues, para baixo, tipo caminho sem volta. É o gênero preferido entre os músicos afro-descendentes americanos, embora nomes como Bob Dylan e Eric Clapton também se dedicassem a ele.

Pobre dos meteoros. Elis Regina. Jimi Hendrix, Janis Joplin, Michael Jackson. Ter domínio da voz não é o bastante. Compartilhar o íntimo é uma tortura que tem que passar rápido. Fazem de conta que entendem para que a incomodação vá embora antes que o meio resolva doutriná-los. Uma concessão ao universo que corre paralelo a quem escolheu rumos em que o gosto principal é por si próprio. Nem que para isso tenham que auto-flagelar-se. O blues não é a música do inferno astral, mas a lendária Janis Joplin parecia se imolar em praça pública a cada show com seu canto lancinante.

Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller… Eles passam por nós como um rastilho de pólvora, deixando marcas indeléveis que o público não esquece. As drogas, ponto em comum entre alguns deles, são o canteiro no meio da estrada, numa tentativa vã de dar meia volta e deixar de viver vidas paralelas. Se a vida pessoal e a forma como  dilaceram-se não deva ser exemplo para ninguém, por outro lado não cabe ao público, o direito de julgá-los já que recebemos deles a melhor parte. E se nos choca tanto, quando se perde um deles, nos sentimos um pouquinho culpados por ter sido em nosso nome que eles exerceram a arte em estado puro, sem concessões, visceral. Ao mesmo tempo em que criada para o público, a arte é egoísta porque é feita principalmente para si, o artista. E não há outra forma musical, no nosso entender, que traduza tão bem esta entrega, senão um blues.