Vai Uma Culturazinha Aí?

O pessoal fica incentivando que os pais leiam para os filhos, mas não sabem o que isso pode gerar lá na frente. No meu caso – e minha mãe brada isso a todos os ventos – gerou a criatura mais curiosa do mundo! Pense em todos os contos de fada que você conhece; Pensou? Ela me contou todos. E não parou em “Patinho Feio” da vida, não: ela me contava sobre lendas celtas, africanas, indus, japonesa, tupis… Lia de tudo! Ela fala que meus olhos brilhavam quando ela narrava as cenas e que, no dia seguinte, eu estava desenhando um monte das coisas que havia imaginado na noite anterior. Mundos fantásticos que só eu decifrava no meio daqueles rabiscos – mas que eu tinha “visto” e visitado.

E nessa, vai entender, eu cresci tratando os livros de história da escola – mas história MESMO, a matéria – como se fossem contos de fada. Sabia que eram fatos reais (ok, alguns a gente realmente põe dúvida), e não narrativa fantástica. Mas eu adorava imaginar os cenários, os personagens históricos, as cores, os tecidos, como deviam ser as construções, as ruas, as cidades de cada uma daquelas épocas que a gente estudava. E podia ser História de qualquer país: eu adorava todas elas! E para minha sorte, minha escola – que era uma rede de colégios – criou uma oportunidade de intercâmbio cultural entre suas unidades. Eu estudava numa unidade de São Paulo, e se fosse selecionada, poderia passar uma semana inteira em outra unidade; podia ser uma das unidades de Minas Gerais (uma no norte e a outra no sul), a de Salvador, de Belém ou de Manaus. Escolhi Manaus por causa da proximidade com a Amazônia, as tribos indígenas e a quantidade de histórias que eu poderia aprender lá! Peguei o panfleto e levei para minha mãe, que deu o maior chilique.

Estudando no Canadá

“Mas nem se juntasse as torcidas do São Paulo com a do Botafogo”

Foi a primeira coisa que ela berrou quando entreguei o panfleto para ela, na cozinha. Detesto quando ela fala isso, porque sou palmeirense e ela nunca bota minha torcida nessa conta (meu pai reclama a falta do Coringão). Mas enfim. Fiquei parada perto da porta da cozinha, seca de susto, mas já tramando os dois passos para trás se precisasse fugir daquele bicho que rugia em frente ao fogão.

– Mas mãe, qual é o problema? Vai gente da escola junto, eu não vou sozinha!

– NEM PENSAR!! LÁ TÁ CHEIO DE ÍNDIO, DE ONÇA, DE SUCURI!! NUNCA QUE FILHA MINHA VAI PARAR NAQUELE LUGAR PERIGOSO!!

– Mãe, Manaus não é uma tribo, é uma cidade, tem rua, tem prédio, tem mercado, tem farmácia… tem civilizaçaaaão… né? Eu não vou ficar no meio do mato!

– SEM CHANCE!! VAI LAVAR AS MÃOS E VEM ALMOÇAR!

Vixe, quando mamãe encrespa, sai de perto… Já vi que meu intercâmbio não vai rolar.

Papai topa tudo

Está mais para “papai resolve tudo”, porque não conheço ninguém mais paciente do que ele! Ele ouviu a conversa e puxou o assunto na mesa. E antes que mamãe abrisse os turbo jatos dos pulmões de novo, ele já pediu:

– Neuza, minha flor, só deixa ela explicar direitinho o que é esse intercâmbio que a escola dela tá propondo, depois a gente conversa a respeito. Tá bom?

Com a voz mais mansa do mundo. Nem dona Neuza resiste. Ela deixou. E comecei a explicar.

Nesse intercâmbio, um aluno da unidade de Manaus vem para passar uma semana na unidade de São Paulo, em que estudo, e eu iria para a unidade dele. Nenhum dos dois teria aulas, mas sim, seria acompanhado por um professor da escola anfitriã que o levaria para conhecer pontos turísticos históricos, apresentaria a história da cidade de da região (e do estado, se fosse pertinente), lendas de todo tipo, gírias, culinária, hábitos… A viagem seria paga pelos alunos, mas a estadia e alimentação ficariam por conta das escolas envolvidas. Haveria um seguro de vida temporário, assistência à saúde, tudo direitinho. E se eu fosse, só precisaria tomar algumas vacinas.

– E vai uma professora daqui com você, filha?

– Vai sim, pai, inclusive nos passeios, no hotel… vai ficar colada comigo o tempo todo.

– Hmm…

Aquela noite eu fui dormir meio tarde porquê meus pais ficaram na sala conversando a respeito e eu não conseguia pregar os olhos. Por fim, minha mãe cedeu e foram os dois ao colégio comigo, bem cedinho, conversar com a coordenadora pedagógica sobre o intercâmbio. Na verdade, só mais um aluno teve permissão dos pais (tem muita dona Neuza por aí, pelo visto) mas ele queria ir pra Salvador, então não tinha problema.

A viagem é daqui a três semanas ainda, mas já tô com quatro páginas e meia de perguntas pra fazer lá em Manaus! E sonhando acordada o dia todo…