Um parto incerto

Ana Lúcia era uma jovem casada há poucos anos, mas que já sonhava em ter filhos. Seu marido compartilhava do mesmo sonho e juntos se preparavam para receber a grande notícia. Eram muito cuidados com a saúde, mas não abriram mão de procurar seus médicos. Após todos os exames realizados, viram que estava tudo bem com ambos e que estava tudo pronto para uma linda gestação.

O pai não se fez de rogado: se informou sobre os hospitais próximos e ensaiou a rota de casa até cada um deles, inclusive em horários de pico. Anotava os tempos que fazia em uma caderneta e apontava os principais complicadores (horário de pico, acidentes de trânsito, mau tempo, etc.). A mãe se informou sobre a melhor alimentação, encheu a despensa de pré e probióticos, procurou as academias que ofereciam pilates para gestantes e foi conhecer cada uma delas, se informou sobre preços médios de móveis para o quartinho do bebê, brinquedinhos, pediatras, roupinhas, tipos de parto… Ufa! Agora só falta o bebê!

Pois é… só falta o bebê…

Ana Lucia fez um estoque de testes de gravidez no armário do banheiro. Ela e o marido queriam saber exatamente a semana em que a gestação ocorreria. Aliás, uma característica muito marcante desses dois – e você já deve ter percebido isso – é que gostavam de ter tudo sob controle o tempo todo. Data- local-hora do início, data- local-hora do término. Como estava o tempo no momento? Quem estava por perto? Havia alguma ocasião especial acontecendo? Alguém estava com algum problema de saúde, financeiro ou familiar? Por que aquilo aconteceu? Vai acontecer periodicamente?

Pais-sistemáticos-com-o-processo-de-gestação.Sim, o casal era praticamente um banco de dados, quase um Google. Informações como essas acima nós normalmente guardamos mas em caráter mais volátil, acidental, mas eles queriam ARMAZENAR as informações, torná-las oficiais, torná-las parte importante do ocorrido. Não era necessário, mas era coisa deles. Mas isso, como você deve imaginar, também gerava um stress desnecessário. Afinal, se faltasse uma única informação “importante” dessas, eles ficavam inquietos a ponto de ligar para os amigos até obtê-las.

Stress, ansiedade… nada disso ajuda uma estação a acontecer e, de fato, Ana Lucia estava demorando a engravidar. Os médicos haviam dito que deveriam levar cerca de cinco meses para conseguir – e quando esse prazo expirou e o bebê não veio, o casal ficou preocupado. Ana Lucia, que passava todos os dias em frente à academia que escolheu e via todas aquelas mamães barrigudinhas fazendo pilates para gestantes, começou a ficar angustiada. “E eu?”

Um controle que descontrolou tudo

Os exames não mostravam anormalidades mas a conclusão dos médicos de que era simplesmente uma questão de tempo deixava Ana Lucia e seu marido frustrados. O acaso para eles não era exato, não era controlável, não era aceitável. E aquilo começou a afetar a vida do casal, que namorava cada vez menos – e com isso, diminuíam ainda mais a possibilidade de uma gravidez.

A-ideia-do-chale-melhor-do-que-o-esperado.Por fim, o chefe de Ana Lucia, que era amigo em comum do casal (inclusive foi padrinho do casamento), percebendo aquilo tudo, resolveu dar uma forcinha. Entrou em contato com o chefe do marido dela (que ficou amigo do casal após o casamento) e ambos concordaram em dar uma folga ao casal, mas uma folga muito especial. Dariam a eles uma semana em um hotel fazenda afastado da cidade, numa região montanhosa cercada por matas, cachoeiras, canteiros de flores, trilhas… e nada de internet. Eles ficariam em um chalé de madeira com lareira e uma pequena cozinha para que pudessem preparar refeições a dois se quisessem. Janelas com cortinas rendadas, tapete bem felpudo e um lindo lustre cor de ouro velho, com lâmpadas de luz enevoada (para atrapalhar qualquer tentativa de leitura). Sim, a intenção era estimulá-los a namorar, namorar muito! E não ter nada para controlar, nem para anotar, nem para padronizar. Era uma nova lua de mel.

A princípio o casal ficou um pouco receoso. “Como assim? Sem internet? Não é pra levar o laptop?” Mas por fim, aceitaram o presente. Afinal o casamento ficou meio estremecido e um passeio desse tipo pode acabar ajudando a situação a se normalizar um pouco, já que gravidez, mesmo, necas. E lá foram.

E chegando lá, confirmaram que o local era paradisíaco! Maravilhoso demais para que se quisesse manter controle sobre qualquer coisa. Nada de trânsito, barulho de carros, de máquinas, de gente apressada no trabalho, de briga de vizinhos, de festa de crianças no salão do prédio… Só mesmo aquele cenário deslumbrante… e um chalé onde tudo traz uma vontade louca de namorar. E lá se foi uma semana.

O casal voltou mais unido do que nunca, relaxados e com muito menos angústia por controlar as coisas. E não foi que, no mês seguinte, Ana Lúcia engravidou?