Ubatuba – São Paulo – Prainha do Felix – Morte

PRAINHA DO FELIX EM UBATUBA – SP.

“A MORTE DA PRAINHA”

Dr. Wagner Paulon

2010

Quando cheguei em Ubatuba há 35 anos atrás fiquei encantado com suas praias, me entusiasmei principalmente com a Praia do Felix, foi amor à primeira vista e imediatamente adquiri um lote de terra na Cachoeira do Sobrado (nome dado ao loteamento da Praia do Felix).

Aos poucos fui conhecendo suas arvores protetoras e majestosas, suas areias claras e limpas, suas pedras dispostas em seus extremos de uma maneira graciosa, seus recantos agradáveis, seu aroma tão puro e adocicado, sua claridade solene, famílias sentadas à beira d’água do mar; era pura ternura, aconchego e liberdade, sua cachoeira era idílica e mágica e suas águas eram límpidas, transparentes, saudáveis e incrivelmente macias e relaxantes.

O sol muitas vezes era intenso, mas não machucante, as arvores da Praia do Felix nos protegia como uma mãe devota, e  a brisa marinha compunha uma atmosfera extremamente agradável, nos proporcionando calma, tranqüilidade e relaxamento, estimulando-nos a dormir ali mesmo nas limpas e alvas areias sob os (Chapéus de Sol) da Praia do Felix.

As ruas do Felix  não passavam de “picadas”, chegávamos à praia na maioria das vezes a pé por entre as “picadas”, havia nesta época muitos insetos voadores: borrachudos, mutucas, pólvoras, mas não nos atrapalhava e muito menos nos feriam gravemente; faziam parte do meio ambiente, isto é, ecologicamente naturais e suportáveis.

Nos períodos das tardes na praia encontrávamos quase todos os moradores sem falar na presença marcante e saudosa do Cão de nome Encrenca, cujos pêlos eram encaracolados e de cor marrom avermelhado e seu objetivo constante era procurar caranguejos telescópicos, cavando nas areias da praia.

Os pescadores nativos e suas “pirogas” eram figuras constantes na praia, saiam em seus barcos para o mar por volta de 4,30horas da manhã e só regressavam à tarde por volta de 12,00horas, com peixes de variadas espécies e os comercializavam ali mesmo nas alvas areias da praia.

Algumas noites dos meses de inverno, por volta das 20,00horas os pescadores nativos passavam o arrastão, ou seja, rede grande (muitas braças) para abater Tainha e contavam com a ajuda dos proprietários das casas de praia, para puxar a rede a qual tornava-se muito pesada em decorrência de peixes e mares.

Pois bem, tudo isto acabou, a Praia do Felix tornou-se um lixo a céu aberto, suas areias estão sujas de dejetos que ambulantes e turistas ali jogam: garrafas de plásticos, latas de cerveja, modes usados, fraldas usadas, cascas de cocos, embalagens de salgadinhos, papeis higiênicos usados, garrafas de vidro vazias, cascas de espigas de milho, em suas areias são despejados baldes de óleo de cozinha usados nas frituras, os turistas e ambulantes fazem suas necessidades fisiológicas ao longo da cachoeira que outrora era lindíssima, limpissima e saudável.

Já não existe mais as arvores que eram tão magníficas e protetoras, foram mortas para que barracas e carros de ambulantes se instalassem.

O odor da Praia do Felix tornou-se acido, irritante, com substancias alergenas, odores fétidos de dejetos humanos misturados com odores de bolinhos de camarão.

Os ambulantes e turistas se refestelam com as bebidas alcoólicas (uns vendendo e outros consumindo), dando origens para muitos conflitos violentos que ali nas “antigas areias belas” se instalam.

A Praia do Felix tornou-se depositaria de milhares de casca de côcos usadas, insalubres, pois proliferam e procriam-se as moscas varejeiras (moscas grandes e de cor verde que transmitem a berne), e os protagonistas causadores dessa situação são os ambulantes donos das barracas de alimentação que ali depositam seu lixo.

Há muito tempo que diminuiu a qualidade e a quantidade de peixes que se pescava na “nossa praia”, pois a quantidade de lixo e esgoto não permite tal façanha. Já não se vêem pescadores nativos pescando com suas pirogas ou puxando seus arrastões.

Hoje vemos filas de carros, congestionamentos, acidentes de transito, zona azul, guardadores de carros nas ruas da Praia do Felix, destruindo tudo e a todos, turista alcoolizados, violentos e com profunda raiva de nós moradores, que a 35 anos atrás estávamos imbuídos no mais profundo AMOR por UBATUBA, indiscutivelmente, assim como, insubstituivelmente pela PRAINHA DO FELIX.

PRAINHA DO FELIX,

VOCÊ E EU

ETERNAMENTE JUNTOS

NA VIDA E NA MORTE,

POIS,

QUERO MORRER EM SEUS BRAÇOS

EM SUA PROFUNDA

E INEVITÁVEL

MORTE.