Transformações ou (Política, com todo o respeito, não custa tentar)

O que leva cada um a escolher entre este ou aquele candidato são motivos muito particulares ou até a ausência deles. Podemos votar em pessoas, em projetos, em idéias, em partidos, enfim. Se na nossa concepção o voto personalista cria ídolos que se esgotam quando eles se vão deixando um vácuo que faz com que o seu próprio legado se dissolva com o decorrer do tempo, das duas uma: ou estamos subestimando o poder das idéias que o nosso “guru” transmitia ou ele não soube convencer, ir além, demonstrar com atos o que pensava, fazendo com que cravasse no inconsciente pessoal e na sua ausência o conhecimento tivesse continuidade e aperfeiçoamento.

É possível ter carisma e ser despojado a ponto de não se apropriar das idéias e do espaço para quem comunga conosco, tão necessário à boa prática política. Pode-se votar em projetos ligados a uma ou mais personalidades que por evoluir na partilha se torna bem comum, fugindo ao subjetivismo e permitindo aos adeptos levar adiante uma causa, mesmo sabendo que sua consolidação se dá passo a passo. Idéias, partidos, pessoas, seja qual for a nossa razão, todas são válidas, desde que tenhamos uma justificativa íntima para a nossa preferência. Quem representa alguém traduz o universo daqueles que falarão por sua voz, com suas singularidades que se juntarão a outras e o melhor de cada um confere legitimidade ao Executivo, ao Parlamento.

Vale até a desilusão manifestada quando não temos argumento para defender aqueles que selecionamos dentre tantos. Acontece quando pegamos a propaganda eleitoral que nos caiu na mão e ela se torna a cola do que vamos depositar na maquininha contadora da democracia, a urna eletrônica. Fazer da opção pessoal moeda de troca é indignidade com o processo democrático, não existindo anjos de nenhum dos lados. Tampouco se justifica o voto em branco, símbolo máximo da indiferença. Quando queremos ofender alguém, não há arma pior que a indiferença. Àquilo que ignoramos deliberadamente é porque para nós não significa nada.

Momentos de mudanças profundas são pródigos em adjetivos: angustiantes, instigantes, inseguros e tantos outros. Depende da forma que nos afetam. Adjetivo qualifica ou determina, diz o Aurélio. Neste sentido, nosso momento político atual talvez fosse ao mesmo tempo de transição e transformação. Na transição, embora constatemos uma mudança que está em curso, não temos a sensação do povo por não haver renovação das idéias. O fio condutor das atitudes permanece o mesmo e as alterações no dia a dia de cada um de nós não conseguem tomar forma na nossa cabeça.

Espécies naturais ao longo da evolução podem permanecer membros das mesmas categorias após transformações mudando seus aspectos característicos mais marcantes. Isto tem validade para o comportamento humano? Ao mudarmos as propriedades perceptivas mais salientes, somos capazes de transformá-las em outras espécies, referentes à mesma categoria? Não se extirpa as diferenças, extrai-se o melhor delas. Aqueles que elegemos são o retrato de todos nós.

Por isso, independente se a sensação que temos com a corrida eleitoral seja contraditória, passional ou qualquer outra motivação particular, ela é acima de tudo o resultado do nosso grau de comprometimento, do espaço que ocupamos ou que deliberadamente abrimos mão. E a concretização dos nossos ideais, a transformação da sociedade que almejamos se dá na velocidade que somos capazes de avançar. É assim que caminhamos e construímos do nosso jeito a democracia. Escrevendo a história. Aprendendo sempre, mas loucos de vontade de chegar lá.