Sua Majestade, o Álcool

O assunto a tratarmos aqui, talvez nunca tenha sido visto sob a mesma ótica até mesmo por especialistas na área. Digo isto, devido à maneira como as ações de contenção, quando existem, são conduzidas. Eu ainda me lembro bem, quando aos nove anos de idade, acompanhando ao meu falecido pai a um mercado, para onde ele gostava de me levar para fazer compras, experimentei pela primeira vez a ingestão de álcool, tomando uma tulipa de chope, a convite dele mesmo. Aos treze, freqüentando as matinês de danceterias, fiz uso de bebidas misturadas, desta feita seguindo exemplos de companheiros de rua e de escola. Mais tarde, veio a maconha, companheira das bebidas alcoólicas, do uísque e, posteriormente, da cocaína.

Bebida Alcoólica

Bebida Alcoólica

Não parei mais, até os meus quarenta e cinco anos. Várias vezes, e alucinado pela ingestão do álcool, me envolvi em brigas homéricas, destruindo bares e balcões, quase dormindo em cadeias. Quase, porque Deus me livrava de muita coisa, e com certeza dei a Ele muito trabalho. O avô de uma vizinha de rua faleceu de cirrose hepática, pois consumia engradados inteiros de cachaça às escondidas. O “seu” Osvaldo Resende, caçador e pescador, com quem aprendi muitas coisas boas, padeceu horrores em função do álcool. Teve a família destruída, dividida, e a esposa na intenção de preservar o que ainda restava de integridade, escondia dele as suas garrafas de pinga.

Nervoso, e com aquele monte de espingardas cartucheiras e revólveres dentro de casa, não encontrando a sua bebida preferida, servia para si mesmo uma xícara de café misturado com álcool absoluto, de noventa graus, e ai de quem tentasse impedi-lo. Este conseguiu, com a ajuda de Deus, abandonar o vício a tempo, falecendo muito mais tarde e por outra razão. De minha parte, posso dizer que o indivíduo alcoólatra, definitivamente, não percebe que o vício vai tomando conta de todo o seu ser, envolvendo várias pessoas e comunidades diferentes, ou seja, na sua própria família, nos familiares de seus familiares, na sua vizinhança, no seu trabalho, no clube que freqüenta, enfim em todos os lugares onde ele põe a planta de seus pés. E a famigerada indústria do álcool, vai produzindo em uma escala cada vez mais avassaladora, bilhões e bilhões de litros por ano, a cada ano, não existindo nem um centímetro sequer, neste planeta, que não o conheça, ou tenha experimentado.

É a pior de todas as drogas, e o pior de tudo, é legal. E ainda existem os “especialistas” que afirmam em suas experiências que ele não faz mal nenhum, e até faz muito bem para algumas pessoas. Desde que, obviamente, usado de forma consciente e para um fim específico como, por exemplo, para melhorar a saúde de alguns. E o pior é que eles têm sua porção de razão. Quando fiz um curso no Rio de Janeiro, uma das matérias era voltada para a saúde do coração, dada por um cardiologista que nos demonstrou que, em alguns estudos científicos, realizados em corpos de indigentes moradores de rua, que faleciam pelos becos afora, verificava-se que suas artérias eram tão limpas quanto um tubo de PVC, sem um grama sequer de gordura, mas que seus fígados eram completamente deteriorados e, na maioria das vezes, morriam de cirrose. As filhas de Ló, sobrinho de Abraão, embebedaram seu pai, mantiveram relações sexuais com ele e dele tiveram dois filhos, dos quais se originaram dois povos. Os dois pereceram.

Não existe nenhuma possibilidade de considerarmos que uma pequena dose diária em uma colher, ou um pequeno cálice, não venha a se tornar em uma verdadeira enchente de álcool no futuro, salvo algumas raras e honrosas exceções. O corpo pede, implora e se humilha para receber a sua porção diária, e como ele é como uma esponja, quer se encher cada vez mais. Até que chega o fim, que pode ser muito doloroso, para todos os envolvidos. O álcool é uma droga que mata muito, extremamente perigosa. E silenciosa, às vezes. Muito ainda ouviremos falar dela e de suas consequências. Mantenha distância, para sua própria segurança, porque o homem é escravo daquilo que o domina.