Sonho de Mãe

Logo que entrei para a universidade, conheci uma turma muito boa de serviço com a qual tratei de me unir rapidinho. Eram amigos que moravam próximos uns dos outros, e eram todos daquela cidade mesmo. Eu é que estava chegando de fora, mas me receberam muito bem. Era uma galera que estudava muito quando era preciso, mas também gostava de se divertir, e faziam essa divisão de tempo para cada coisa com muita facilidade. Levavam a sério os trabalhos em grupo – e a coisa fluía tão bem que às vezes parecia até encenação! Custei muitas semanas a acreditar que eles realmente eram daquele jeito. Coisas da criação em casa. Aquelas mães haviam acertado na mosca.

E tinha a mãe do Fabinho, a maior sonhadora do mundo. Ela parecia personagem de novela, quando fica sonhando alto no lugar dos filhos, imaginando que eles farão muitas viagens internacionais, até trabalharão no exterior, serão profissionais de renome… esse tipo de coisa. Era muito engraçado ouvi-la falando essas coisas todas! E teve um dia que, numa reunião de estudos do nosso grupo, Fabinho chegou falando que agora a mãe dele queria de todo jeito que ele fizesse um intercâmbio. Perguntei:

– Pra onde?

– Pra qualquer lugar, desde que eu faça.

– E ela sabe quanto custa um intercâmbio?

– Não faz nem ideia.

– Ela vai desistir assim que souber.

Eta coisinha cara!

Os valores culturais de estudar fora

Os valores culturais de estudar fora

O que o pessoal não sabia é que eu já tinha feito um intercâmbio, há uns anos. A escola, onde estudei tinha um programa de intercâmbio e, por causa das minhas notas, fui selecionado para participar de um. Só que na universidade, alguns órgãos de fomento à pesquisa costumam patrocinar parte ou na íntegra uma viagem desse tipo, e na minha escola não havia esse tipo de possibilidade, claro. Eu consegui foi um programa de descontos para participar, mas, mesmo assim, meus pais não podiam pagar. Quem bancou foi minha madrinha, que trabalhava num banco e me ofereceu o valor. Fui parar em Cancún, o que me motivou a escolher o curso de Turismo que fazia agora com o pessoal.

– Cancún, cara?? Que louco!! E quanto custa um intercâmbio pra lá, você lembra?

E eu lembrava. Tinha sido em 2013 e com certeza os valores não eram mais os mesmos, mas no total, envolvendo viagem de ida e volta, hospedagem, alimentação e os cursos que fiz, saiu em mais ou menos R$15.000,00. Fabinho ficou branco. Nos dias de hoje, devia passar dos vinte mil. Os outros caíram na risada e disseram que a mãe dele desistiria da ideia assim que soubesse dessa cifra!

Opções

Mas na verdade, essa ida a Cancún foi uma oportunidade diferente das que costumam aparecer para alunos de universidade, e era provável que houvessem opções com valor mais baixo e com possibilidade de patrocínio por parte de uma instituição de fomento à pesquisa, como eu havia falado antes. E como o pessoal ficou curioso, paramos o trabalho por uns instantes e entramos no site da universidade pra ver se havias alguma coisa.

E havia. Uma janela para intercâmbio direcionado para os alunos de Turismo se abriria em alguns meses, para a Argentina, mais precisamente a Patagônia, pela Universidade de Buenos Aires. Como é um país vizinho e a moeda de lá está desvalorizada, o valor total do intercâmbio ficou relativamente baixo (cerca de R$8.000,00) e era pago quase na íntegra por uma instituição de fomento; o aluno teria que pagar apenas pela alimentação. Aí Fabinho animou e disse que comentaria com a mãe dele quanto custa um intercâmbio pra lá. Na verdade, todo mundo ficou animado e as vagas eram limitadas (apenas duas). Foi uma correria.

Nenhum de nós foi selecionado; uma colega nossa, que falava espanhol, conseguiu a vaga; a outra vaga eu não sei quem ocupou. Mas foi bom, que conhecemos os processos todos e pudemos usar esse conhecimento ao longo do curso, em novas tentativas.

E antes de formar… o Fabinho viajou, como a mãe dele queria.