Sobe!

Sempre acreditei na capacidade de adaptação das pessoas, na habilidade de bolar saídas mirabolantes (algumas mais estrambólicas do que mirabolantes, aliás) quando uma situação acontece de forma inesperada. Acho muito curioso como um indivíduo é capaz de se tornar um inventor ‘on demand’ ali, em cima da hora, sem tempo para testar a idéia nem ligar para os pais para perguntar se pode dar certo ou se eles têm uma outra idéia. “Não, a hora é agora, ou faço isso dar certo ou terei que dar outro jeito”.

E assim nascem as grandes invenções, as grandes adaptações e as famosas “cartas na manga”. Sempre conhecemos alguém que têm uma coleção delas, não é? Diante de um acontecimento inusitado que requer ação imediata de leigos, essa pessoa aparece e dá a solução, simples assim, com a cara mais lavada desse mundo. Idéia maluca mas de uso aparentemente muito prático; usa-se; dá certo; e aparece o sorrisinho maroto com cara de “eu não disse?”.

Saída pela tangente

E foi assim que correu a história do Anderson, amigo meu de longa data. Pense num camarada matreiro, desses empreendedores mentais que enxergam a solução de tudo em milésimos de segundo. Se o carro dava problema, ele pegava um ônibus; se perdesse o ônibus, ligava pra um táxi; se não conseguisse, ligava pra um conhecido que provavelmente iria para o mesmo lugar (ele sabia a rotina de quase todos os amigos e isso era particularmente útil nessas horas). Se faltasse farinha, ele adaptava a receita para outra que pudesse ser feita com farinha de mandioca. Se faltasse fósforo, ele usava uma pedra de carbureto que guardava para momentos assim. E por aí vai. Como ele mesmo costuma dizer: “comigo não agarra, não”.

Anderson-agilizou-as-caixas-e-deixou-alguns-móveis-com-a-empresa-de-mudanças.E aconteceu que um dia ele precisou se mudar da cidade. Havia participado de um concurso público numa cidade a três horas dali e, resolvido como era, aceitou a convocação e foi empossado. Porém teria apenas um mês antes de assumir o cargo e nesse mês deveria apresentar uma série de exames médicos e ainda se mudar. Nossa cidade é pequena e as empresas de mudanças não são mais que um caminhoneiro com amigos bem dispostos e alguns caminhões, mas a cidade para onde Anderson se mudaria já era maiorzinha e uma das empresas tinha um guarda móveis. Como ele não conseguiria providenciar tudo aquilo em apenas um mês, optou por contratar essa empresa, guardar seus móveis num dos galpões disponíveis e deixá-los lá até encontrar uma residência adequada.

E assim foi. Passou o mês inteiro juntando documentos e indo a consultórios, fazendo vários exames e tudo o mais. Quando tinha tempo, pesquisava na internet sobre os bairros da nova cidade, comércios, imobiliárias, alguns imóveis que pareciam ser interessantes… assim, quando chegou o dia da mudança, ele já tinha uma idéia de onde concentrar sua procura. Duas semanas depois, achou um apartamento bacana e fechou contrato. “Pronto! Chega de morar em pensão!”. Sim, durante estas duas semanas, ele pernoitou em uma pensão próxima à instituição onde passou a trabalhar e próxima também a várias imobiliárias.

Saída pelo alto

Anderson me ligou no dia que fechou contrato com a imobiliária, feliz da vida porque finalmente teria seu cantinho! Ele é um sujeito muito versátil, mas a idéia de morar em pensão não o agradava de forma nenhuma; sentia falta de seus pertences – e achava o papel de parede da dona da pensão uma coisa horrorosa (dizia que tinha vontade de sair correndo dali, de tão feio que era o tal papel). Como eu estava de férias, me ofereci para ajudá-lo na mudança e ele aceitou. Cheguei lá no dia seguinte e ele já estava me esperando na rodoviária, com um táxi engatilhado, porque o pessoal da mudança já estava carregando o caminhão.

Eu, que nunca tinha visto um guarda móveis, fiquei admirando aquela ideia. De fato é uma coisa muito prática! Um local para guardar os móveis temporariamente caso haja um imprevisto – ou, como no caso do Anderson, um “previsto”. Mas tive pouco tempo para admirar pois logo a equipe carregou o caminhão e partimos em direção ao apartamento. Ficava num prédio em fase de final de acabamento, de 8 andares. O do Anderson ficava no sétimo andar e ele seria o primeiro morador, obviamente.

Mas aí houve um imprevisto: o elevador de carga quebrou e o síndico não autorizou a equipe de mudanças a usar o elevador social. E não houve reza nem joelho no chão que o demovesse da idéia: “o elevador social não vai ser usado para a mudança e ponto final”. A previsão de reparo era de sete dias a partir da data da ocorrência do problema. “E que dia o elevador quebrou?”, “Ontem.”

A equipe se desestabilizou. Uns suspiraram desanimados prevendo um dia de sobe-e-desce de escadas com carga no lombo (sete andares, meu Deus…), outros já falavam sobre voltar com a carga e fazer a mudança num outro dia, com o elevador funcionando. Mas Anderson queria a mudança naquele dia. Nem eu consegui convencê-lo. Ele bufava de raiva e o convenci a ir lá fora tomar um ar. Ele foi, mas voltou correndo em menos de 15 de segundos.

Surgiu-a-ideia-de-subir-as-coisas-pelo-lado-de-fora.Passou feito um raio e subiu pelo bendito elevador social até o terraço, onde ficou por uns cinco minutos. Eu não entendia nada, o pessoal da mudança menos ainda; o síndico e o porteiro já estavam achando que ele ia se jogar lá de cima. Foi então que ele surgiu pelo elevador, junto com o encarregado de obras e um sorriso de rasgar o rosto. Chamou o síndico para conversarem a três – e quando vi que o síndico começou a gargalhar, já imaginei que meu amigo tinha tido uma de suas famosas idéias.

“Vamos subir minha mudança pelo guindaste da obra, que ainda está instalado lá em cima! A gente pega tudo pela sacada da sala, que é maior, e pronto!”. Imediatamente o motorista da empresa de mudanças arregalou os olhos sem acreditar no que ouvia, mas o restante da equipe começou a rir e a balançar a cabeça positivamente, achando aquela idéia absurda mas possível. Eu já fui tirando o celular do bolso porque essa TINHA que ser registrada!

Deu tudo certo no fim das contas – mas sabe-se lá o motivo, a prefeitura proibiu que apartamentos de prédios novos fossem alugados antes do fim completo das obras. Vai saber…