Seguindo no Balanço: Poder, Ambiente, Território, Educação e Sustentabilidade


Cristiano Silva Cardoso

Bacharel em Museologia UFBA (ccardoso45@hotmail.com)

Rita de Cássia Oliveira Pedreira
Bacharel em Museologia UFBA (ritapedreira@ig.com.br)

Resumo

O texto versa sobre alguns processos sociais como o poder, ambiente, território e educação e sustentabilidade em conexão com fatos históricos que lhes dão conformação e o ritmo musical brasileiro, numa alusão descontraída a produção sociocultural brasileira, com destaque a realidade soteropolitana.

Palavras-chave: Ritmo, Território, poder e sustentabilidade

Poder: Você samba de que lado, de que lado você samba?

Brasil, terra do suingue e da contradição, já disse a multifacetada Fernanda Abreu em uma melodia. Um país de dimensões continentais, riquezas naturais com grande variedade de espécies, de biomas e  disposição de recursos hídricos. Sua diversidade populacional e cultural é responsável por embalar diferentes ritmos e manifestações, alimentando um imaginário social arraigado a musica e a dança, produções que entremeadas e articuladas a diferentes motes, correspondem sistematicamente às imagens do coletivo e seu espaço temporal. Neste mosaico de expressões, temos um símbolo dos estilos musicais brasileiros, esta cadência é o samba, exemplo básico, marca de uma imagem internacional deste país, retratando em suas categorias, alegrias, dores e o cotidiano da gente brasileira e seus estereótipos.

Nação que nos últimos anos tem despontado enquanto liderança na América Latina, isto, claro, ao ver de alguns líderes deste bloco. Congrega dois fatores cruciais ao entendimento da sua realidade definidos por Paugan como: a pobreza, que para muitos é fruto, também, de sua entrada na sociedade industrial, antes de conquistas sociais e regulações estatais; e a exclusão, resumida em crise estrutural de seus fundamentos. Do ponto de vista dos agentes, pobreza é geralmente hereditária e a exclusão é resultado do acúmulo de dificuldades concretas e de rupturas progressivas de laços sociais.

Portanto, no seio desta sociedade, estigmas como a violência, um dos muitos reflexos diretos destes 2 fatores, atinge a todas as camadas, tanto os que têm a sua disposição os avanços tecnológicos e a liberdade de mercado, acumulam informação, riquezas e circulam pela dita aldeia global (DUPAS, 1998); quanto aos que sobrevivem em sub-moradias, desempenham atividades informais para garantirem o sustento familiar e dependem dos precários serviços públicos essenciais como saúde, segurança e educação dando forma ao neologismo criado por Souza, (2005) de “Fobópole” -expressão oriunda da fusão das palavras gregas phobos que significa medo e polis que quer dizer cidade – para expressar um sentimento presente nas grandes e pequenas cidades.

O Estado Brasileiro que tem por finalidade precípua, organizar o poder político nacional promovendo o bem comum fundamentado na soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, no valor social do trabalho, da livre iniciativa, e na pluralidade política (KOAMA, 1996); tem muito que se aprimorar para transformar em prática o citado referencial principiológico. Na administração pública, a organização do poder é fundamentada na doutrina formulada por Montesquieu (1748), a mecânica político-administrativa oriunda da sua obra “Le Espirit des Lois” (JAPIASSU, 2006). Esferas que são equilibradas e independentes numa estrutura hierarquizada com graduação de autoridade, correspondendo às diversas categorias funcionais ordenada pelo poder executivo, de forma que distribua e escalone as funções de seus órgãos e agentes, estabelecendo relações de subordinação.

Para Cavalcante (2008) as múltiplas facetas das relações Sociedade X Estado, também podem traduzir-se na metáfora de um tenso jogo de xadrez, que envolve diferentes interesses, seja de instituições, grupos ou indivíduos, perfazendo nossa cultura organizacional histórica, tanto nas criações, reproduções, reações, quanto nas resistências que dos idos do século XVI até o nascente XXI, dão o tom de um ritmo, um compasso muitas vezes sub-reptício e idiossincrático caracterizado por ranços e avanços de um projeto de sociedade.

O período colonial foi de onde gestaram as instituições com as quais convivemos até hoje. Nele, deu-se o processo de mestiçagem biológico e cultural. Fincaram-se também, as características do nepotismo e do clientelismo das quais hoje queremos nos desfazer. Ali, o país adquiriu sua fisionomia geográfica, e que devido ao escravismo, também um rosto social que continuamos identificando com a pobreza e a exclusão (PRIOSTE, 2003).

Nas sociedades modernas, sobretudo a partir do século XVIII há uma reorientação relacionada ao exercício do poder que não é mais concebido como forma apenas repressiva. Desenvolvem-se mecanismos de dominação sutis e pouco conhecidos, inclusive pela história e pela filosofia política (REZENDE, 2005).  Subentende-se daí a vinculação deste elemento á produção do real, em domínio de objetos, rituais simbólicos e expressivos de verdade, de conhecimento e de ciência; um bailado que nunca esta acima ou separado, mas, sempre com o poder. Michel Focault, sobretudo a partir de sua obra Vigiar e Punir realiza uma genealogia do poder enfatizando que poder é produção do saber, do conhecimento. Por outro lado, saber, além disso, engendra poder, produz “efeitos do poder” um e outro se articulam, no que Pierre Bourdieau define enquanto poder simbólico, uma espécie de círculo cujo centro esta em toda parte e em parte alguma, é invisível sendo exercido com a cumplicidade daqueles que lhe estão sujeitos, ou mesmo o exerce (meu samba é assim!). Confirma a sentença a  ex-premier do Reino Unido da Inglaterra Margaret Thatcher “estar no poder é como ser uma dama. Se tiver que lembrar as pessoas que você é, você não é” ou seja “com que roupa que eu vou ao samba que você me convidou”.

Os tempos atuais são marcados pelo fenômeno do global, emerge ressignificada uma forma peculiar de influência, designada de poder local. Atentando-se que é pelo uso do território que se pode observá-lo enquanto objeto de análise social, portanto uma forma impura, um híbrido segundo Milton Santos (1993), que carece de constante revisão histórica, sendo nele permanente o fato de ser nosso “quadro de vida”. Um elemento fundamental, portanto para a sua leitura é a noção de alteridade, ou seja, a clara distinção do que é o outro. Neste sentido as diferentes formas de associação e organização como associações de moradores, terreiros de candomblé, ligas de esporte amador e inclusive, sistemas de atores articulados pelo cotidiano e hierarquizado pelo respeito que detém, ou por meio de mecanismos históricos de defesa denominados de “anteparos culturais” por Cornel West apud Soares (2008), são redes submersas no dia a dia que articulam interesses coletivos em oposição aos vetores operacionais da mundialização e da globalização.

Ambientes e Territórios: Essa onda que tu tira qual é? Periferia é Periferia

O ser humano é certamente o principal predador das reservas naturais do planeta. O chamado drama ambiental esta intimamente ligado às cidades, um espaço geográfico transformado pelo homem por meio de um conjunto de construções com caráter de continuidade e contigüidade. Espaço este que congrega atividades de residência, governo, indústria e comércio; pontuando umas das mais célebres e preocupantes questões: o binômio sociedade-natureza, relações que a todo o momento são colocadas em cheque, um drama ambiental folhetinesco com variadas facetas, seja pelo abastecimento de água, solos contaminados, resíduos, desconforto físico e psicológico, dentre tantos outros (SCARLATO, 1999).

O contexto social contemporâneo da terra brasilis representado, sobretudo pela urbanização, com suas frívolas e incessantes reconfigurações espaço-comportamentais, é uma expressão autêntica da globalização e do capitalismo, despontando enquanto um conjunto complexo de formas de desenraizamento em brutais migrações, aumento do consumo de massa, a concentração de renda e da mídia escrita, falada e televisiva, assim como a dogmatização das escolas e a externalização do egoísmo enquanto lei superior. Fatores entre muitos que são apontados por Santos (2002) em capítulo intitulado a elaboração do brasileiro não-cidadão. Indivíduo que para o autor, esgota seu papel de protagonista no momento do voto, sua dimensão é singular como é a do consumidor “esse imbecil feliz” de que fala Laborit (1986) (apud SANTOS, 2002) também chamado de usuário, em parcialidades e satisfação limitada a busca da ascensão social, em lugar da cidadania e do entendimento do ethos. Não obstante (DEMO, 1995) ao discorrer em seu livro sobre “a cidadania tutelada e a cidadania assistida” coloca como desafio maior da cidadania a eliminação da pobreza política, enraizada na ignorância acerca da condição de massa de manobra. Para ele não-cidadão é, mormente, quem por estar coibido de tomar consciência crítica da sua marginalização imposta, não atinge a oportunidade de conceber uma história alternativa e de organizar-se politicamente, para tanto entende injustiça como destino. Faz a riqueza do outro sem dela participar, luta para o processo dos outros acontecerem. São utilizados, normalmente pela  burguesia mascarada com o dom da solidariedade, muitas vezes tornam-se ferramentas humanas e por que não dizer voz ideológico-financeira do próximo, que por sinal esta bem distante.

Desta feita, parece-nos que para avançarmos nas discussões acerca de fenômenos como globalização e suas implicações no espaço vivido nacional, temos que tomar como símbolo e interprete o território usado de Santos (1993) enquanto sinônimo de espaço ambiental, geográfico e de suas relações; diga-se, relações que são a priori de poder, em um dos seus mais caros instrumentos: a questão em torno da territorialidade.

No ambiente das cidades os problemas de uma sociedade tecnológica combinam-se as carências e a Nós Górdios, como a fome e a desnutrição, narcotráfico, refletindo as aviltantes disparidades sociais como as luxuosas disputas imobiliárias (Downtown, Lê Parc, Mandarin e etc) em face de crescente favelização e da moradia de rua, o favorecimento de alguns em detrimento a justiça coletiva; alimentam a conhecida fragmentação do tecido sócio-político-espacial (SOUZA, 1993), um fenômeno tão velho quanto à própria cidade, evidenciando um contraponto a globalização econômico-financeira, defendida como a instauração da suposta aldeia global.

Souza (2005), entretanto, lembra que por muitos, o mesmo termo “fragmentação” é utilizado desprovidamente do sentido de pejoração ou negatividade, para simbolizar a diversidade de culturas. Reforça o autor a possibilidade deste termo nem sempre ser  lamentado, podendo inclusive em situações especificas, ser celebrado. É justamente da perspectiva de variações lingüísticas culturais no espaço citadino, sobretudo nos denominados “aglomerados de exclusão” (OLIVEIRA, 2006) um aspecto da expansão desordenada da periferia, em que sua população, base operacional da mão de obra; por encontrar dificuldades a circulação e interação com outros nichos urbanos, intenciona uma produção cultural criando espaços e linguagem específica, muitas vezes, apropriadas pela cultura de massa.

Um exemplo marcante é o fortalecimento da cena Hip Hop tupiniquim, que em meio à pobreza e a necessidade de lazer alternativo nos guetos alinha o acesso, mesmo limitado, as diversas poéticas tecnológicas musicais e informacionais para questionar o modelo social vigente, numa chamada contra-cultura frente à alienação,  bom ratificar que neste momento nos referimos aos “pornôs music” representados na programação televisiva, sobretudo, dominical e das Fms usuais que “concreta” na periferia baluartes como os arremedos dos calipsos, pagodes e axés da vida.

O estilo que promulga a insatisfação com o quadro, vem assumindo o papel de agentes de mobilização e afirmação identitária, um amalgama que versa sobre as questões urbanas,   composto basicamente por quatro elementos: RAP, breaking, grafite e o D.J. e envolve a um só tempo música, dança, artes plásticas e discotecagem. O que se vê é mais do que o meneio dos ombros presentes no samba ou dos exagerados requebro dos quadris do que, indignamente, “costumaram” chamar de seus “derivados”. Esta manifestação tem ascendido às barreiras do simples entretenimento pela adoção de posicionamentos críticos e reinvidicativos, tanto no ritmo marcado, quanto na força impressa a palavra cantada em crônicas do cotidiano, amores, mazelas sociais e uma constante mensagem de denuncia a violência, marginalização e a favor da paz. Segundo Miranda (2006) a cultura e o movimento  congregam um grande  potencial de mobilização, uma forte herança deixada pelos griôs africanos (velhos contadores de estórias) e a influencia do movimento dos Black Panthers (panteras negras) partido político que lutou sobre enorme repressão pelos direitos civis do povo negro norte americano.  Elemento assimilado por Bambaataa e outros artistas que fundaram em 1973 a organização Zulu Nation, definindo princípios universais para o movimento (MIRANDA, 2006).

No Brasil o espaço desta expressão artística vem se ampliando com a profissionalização do gênero e a propagação de artistas, tanto no cenário nacional, a exemplo de Marcelo D2, Negra Li, Helião, Sabotagem, MV Bil, o grupo Racionais Mcs (…); quanto no contexto regional, formando diversificadas redes de interação e fortalecimento não só da cultura, mas inclusive da sua feição de movimento social intervencionista que atua nas diversificadas comunidades populares em ações socio-educativas (meio ambiente, relações raciais, cidadania, direitos humanos e etc). Um exemplo é a nordestina Rede Aye Hip Hop, composta por uma infinidade de grupos tanto da capital quanto do interior da Bahia.

A conquista do espaço na mídia se dá em função da identificação do jovem a linguagem codificada e a atitude impressa, dando visibilidade a temas e atores sociais nunca antes enfatizados, rompendo inclusive, com o estigma de “musica de preto favelado”, já que também possui como apreciadores jovens das classes mais abastadas, configurando, portanto, a partir do espaço vivido (ambiente e território) uma oposição veemente a capitalização das atmosferas e das suas relações sociais em processos que, infelizmente sabemos, continuam excluzórios da Periferia. Nicho que se enxerga valorizado e que ao menos às vezes o é, muitas vezes se não por um pequeno período por uma determinada “casta”. Contudo,… Periferia que jamais, jamais, deixará de ser ela mesma, a franja. Uma fronteira… Todavia, agora “ex(r)ótica”.

Educação, sempre uma Nova Bossa, que já nasce velha

O desafio de educar em tempos tão turbulentos exige mais do que o acúmulo de informações. É necessário o florescer e o despertar para múltiplos valores, a prática de educar no Brasil sempre se deu numa espécie de arena, um terreno fértil para os usos e abusos do “nosso” poder social: simbólico; oligarca; hoje oficiosamente não mais laico e que nos versos do poetinha de “beleza que não é só minha e que passa sozinha”.

De bom alvitre é, reconhecer que como fio condutor, a experiência social ou o vivido histórico desde a gênese do nosso país, não deixa dúvidas quanto à importância que as metodologias educativas tiveram em nossa sociedade, principalmente se além consideramos a educação no sistema formal e corrente, contabilizarmos as diferentes sinergias da informação, da  comunicação, e da formação de mentalidades em diferenciados contextos que não só o da sala de aula. Presenciamos atualmente uma modificação da função do educador que deixa apenas de transmitir conteúdos, para tornar-se um sujeito formador e formativo. A trilha das diferentes “pegadas educacionais” do nosso processo histórico, identifica pistas importantes para a arquitetura desta realidade social em que utopicamente comparamos a educação que temos com a que queremos.

Ao investigar o germinar e o amadurecer ideológico entorno do ensino formal em nosso país, é fundamental remeter-se a alguns marcos referenciais, como a conhecida pedagogia tradicional, visão trazida com os Jesuítas, onde as missões religiosas nas aldeias indígenas ocuparam-se de uma atividade catequética fora dos interesses e dos propósitos das comunidades indígenas envolvidas, buscando acultura-los ao estabelecer de forma impositiva uma nova cultura. Por outro lado, entre as décadas de 20 e 30 tivemos êxitosas experiências da pedagogia da Escola Nova qual o maior representante fora o educador Anísio Teixeira, seguindo a linha do “aprender a aprender”. Já no período de 60 incorporou-se o ideal de “aprender a fazer” com a pedagogia Tecnicista. Concomitante, surge à pedagogia Histórica Crítica, indo até a década de 70, um dos seus baluartes foi o laureado Paulo Freire. A idéia de “aprender a questionar”, debruçando-se inclusive sobre qual a função social da escola deixou marcas significativas, ao versar sobre as relações e estruturas de poder. Já o período de 90 é marcado pela pedagogia sócio-interacionista de Piaget, levando em conta o cognitivo, a percepção e o valor afetivo, bem como pela pedagogia da complexidade, versando sobre o “aprender a conviver e se relacionar”.

Seguramente, a práxis sobre a chamada educação dos movimentos populares, atuantes desde a década de 50, passando inclusive pelo período do regime militar, muito foi influenciada pelo contexto formal. O diferencial está na consolidação de conceitos e práticas, por muitos “vista” como subversiva, porém, salutares a emancipação política como a conexão direta do indíviduo ao seu meio e o seu saber, introjetando pressupostos originários do Marxismo sobre a transformação social. Os antagonismos se configuram, por exemplo, nos métodos oficiais utilizados em projetos de simplificação da realidade e subserviência a noções de sucesso doutrinário como o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) caracteristicamente desideologizado; frente a iniciativas de educação crítica, referenciada em pensamentos oriundos de personalidades como FREIRE e YOUNG (Brasil); ARTHUSEN, BERESTEIN, ILICH,  BOURDIEAU e ORTEGA Y GASSET (Europa); BOWLWES, MACLAREM e APPIC (Estados Unidos). Colocando a educação popular para além do universo escolar.

Contemporaneamente fala-se em muitos pontos de vista para os processos de instrução. Destes, dois chamam atenção, o primeiro é a noção de “espaços do conhecimento” (DOWBOR, 1993 et al) um esforço para repensar dinamicamente novos enfoques para o conhecimento, exemplos afloram como a educação corporativa; o espaços midiáticos: rádio, TV, vídeo, internet; cursos técnicos; o espaço cientifico, domiciliar e comunitário. A idéia é que não há mais um único eixo formativo, integrar e interrelaciona-los são o que se espera de uma sociedade dita do conhecimento.

O segundo circunda sobre a noção de “educação holística” (YUS, 2003) Dede a clássica contenda filosófica grega entre atomistas e holistas; passando pelo reconhecimento de Descartes às teses atomistas; o pensamento cartesiano-analítico e o reforço por Newton nas teses mecanicistas newtonianas; a visão da realidade enquanto fragmento tomou status de paradigma nas culturas ocidentais, influenciando na vida destas como um todo. Em Ximenes (2000) holismo é uma doutrina que prega a interconexão e influencia mútua de todos os elementos do universo. Ao longo do século XX as teses holísticas obtiveram reconhecimento, inclusive da própria pesquisa cientifica, um exemplo é a Física Quântica. Oposta a primeira, apresenta uma visão mais complexa da realidade, mantendo integrações produtoras de propriedades e efeitos entre as partes, diferente do pensamento analítico que se empenha em separá-las. Para Rafael Yus (2002) a influencia do holismo na educação se expressa em muitas inovações educacionais e embora de forma retórica em discursos, normas, leis e currículos, (no que ele chama de tentativas débeis como os Temas Transversais) preconiza uma educação integrada do individuo concebendo o ser como um todo.

A similitude de suas abordagens aproxima estes dois enfoques propedêuticos, inicialmente da visão de comunidades de aprendizagem e conseqüentemente à educação ambiental, oferecendo “insigths” aos interessados no tema. Evidenciando uma maleabilidade necessária à construção de procedimentos contínuos e permanentes em todas as fases do ensino a caminho da interdisciplinaridade, versando sobre questões locais, regionais e nacionais, no sentido de que, segundo Dias (1999) sobre os mais diversos e dramáticos apelos, seja em documentos e encontros às nações, governos e povos, possamos reagir e buscar uma forma de vida menos cretina, que nos tire imediatamente do hipócrita Woodstock que se instalou nos nossos quintais intelectuais e nos “vê” – indivíduos – com poucas distinções de forma cega e vazia. Igualmente, Brandão (2005) discorre sobre a necessidade de sair de si mesmo em direção ao outro para estabelecermos o que seria o âmago da vocação da vida humana: o diálogo. Termo que nas salas de aula continua a ser tolhido nas ações de identidade que deixam de perpassar os conteúdos programáticos de instituições e seus mestres. Assim, no executar de uma dada atividade de educação ambiental, cujo objetivo seja oferecer conhecimento, esse conhecimento possa, realmente, levar a uma dada habilidade, tal habilidade pode levá-lo a alguma iniciativa, enfim, tudo leva a tudo (DIAS, 1999). Escancarando o comprometimento a uma nova ética traduzida em práticas e princípios reguladores do crescimento e de uma conservação e preservação dos recursos naturais e humanos, ensaiando anular omissões, complacências e até alianças em iniciativas exploratórias que privilegiam o econômico e as “comodidades”. Ao despir-se de uma ingenuidade romântica, tal visão reforça inclusive a necessidade de supressão de idéias e estigmas como a ligação direta do desemprego a baixa qualificação escolar e profissional, responsabilizando, para Borges (2005), o próprio trabalhador como “um inempregável”, camuflando questões mais profundas referentes à capacidade de geração de oportunidades pela economia brasileira.  Lembrando, aqui, as pautas políticas educacionais emergenciais, então postas “a toque de caixa”, vide a mercantilização do ensino superior no país. Conseqüência disso é a elevada taxa de desemprego dos mais escolarizados, onde credenciais prerrogativas a uma ocupação como o diploma, cada vez mais servem para engrossar as fileiras do ERT (Exército de Reserva dos Titulados), em todos os níveis, inclusive doutores, que são forçados a aceitar ocupações muito aquém da sua qualificação (BORGES, 2005), ou pior, o pós-Doc, em troca da bolsa de ajuda de custo.

Destarte, cabe aos atuantes nas áreas sócio-ambientais, discutir, sugerir e experimentar idéias no espectro da militância, capazes de viabilizar a auto-formação (o individuo), a étero-formação (o outro) e a eco-formação (o meio) esferas diretamente ligadas a plataformas coletivas tencionadas por lutas pela qualidade de vida através do acesso ao desenvolvimento e a sociedades sustentáveis (CAVALCANTE, 2008).

Sustentabilidade: Um bolero em descompasso

Contemplar as necessidades, tanto atuais, quanto futuras seja nas escalas locais, regionais como também nas nacionais e internacionais. Esses seriam os princípios básicos da noção de sustentabilidade, um processo de mudança no qual a exploração de recursos, dinâmicas de investimentos e orientações das inovações tecnológicas e institucionais, seja feita de maneira consistente para o bem da coletividade. (Svendi, 1987 in Sachs, 1997). No entanto, reconhecido o grau de complexidade que envolve o tema, não há um acordo consensual entre países e setores da sociedade, a Agenda 21 é o instrumento que chega próximo a um consenso implementar do processo em voga. Ferraro (2002) enfatiza a sustentabilidade enquanto um conceito relacional diretamente ligado às esferas da cultura, ambiente e tecnologia. Para o docente há uma indissociabilidade entre os mesmos, caso contrário corre-se o risco deste elemento ser utilizado de maneira esvaziada do seu sentido, visto que o termo é portador de uma polissemia referente tanto a internalização de aspectos ecológicos que sustentam o processo econômico, quanto à permanência deste mesmo processo econômico (LEFF 2000 apud FERRARO, 2002). Em muitas circunstancias esta noção tem sido apropriada para os mais diversificados aplicativos e interesses, consubstanciando narrativas a mercê de questionamentos, divulgadas com sensacionalismo no propósito deliberado de gerar impacto diante da opinião pública, influenciando-a. Conseqüentemente, não raro são os casos em que materializa o termo em questão, um “factóide” expressão cunhada pelo escritor americano Norman Mailer, biógrafo de ninguém menos que Marilyn Monroe. “Em resumo, é um enunciado que designa uma noticia amplamente difundida, mas sem ancora na vida real, prática muito antiga que vem ganhando novos contornos na mídia contemporânea” (STAROBINAS, 2007).

Que dados da realidade, nosso olhar deve privilegiar e que leitura o impacto dessa transformação causa? Na cidade, por exemplo, há pouca ênfase em seu planejamento para uma de suas características básicas, se trata de um sistema heterotrófico, ou seja, um sistema incompleto que depende de áreas externas para a obtenção de energia, alimentos, água e etc. (SCARLATO, 1999). Do ponto de vista de seus agentes, no ano de 2008 a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 60 anos, consolidada inclusive na constituição de 1988, abandonando velhos conceitos e consagrando a dignidade da pessoa humana como núcleo formador da interpretação de todo o ordenamento jurídico, já que a dignidade é inerente a toda e qualquer pessoa vedada a discriminação. Mas, o que sabemos, é que na prática o que se vê nos indicadores sociais é uma realidade muito distante disso, na rua temos um elemento revelador da experiência, da rotina, dos conflitos das dissonâncias, bem como o desvendar da dimensão do urbano, das estratégias de subsistências, marca da simultaneidade do cheio e do vazio de direitos (CARLOS, 2000). A tão sonhada sustentabilidade é transmitida em ondas que se propaga num bolero com passos lentos e descompassados e ainda se revela utilizando música que se assemelha a um tango para os mais incautos.

Em conclusão…

Há um antigo provérbio chinês que diz “se você não muda a direção, terminará exatamente onde partiu” Será este o destino da humanidade? O tracejar desta breve reflexão a luz de pensamentos mais diversificados desemboca na constatação de que para se avançar nas questões entorno do bailado do conhecimento é sim necessário agir com razão e criticismo, porém aliando-os a uma disposição afetiva relacionada às coisas de ordem moral e intelectual. Sentença confirmada por POPPER ao reconhecer que a razão crítica é melhor que a paixão, especialmente em assuntos referentes à lógica. Mas ele dispõe-se inteiramente a admitir que nada jamais se realize sem uma dose de paixão.  Brandão (2005) vai além ao colocar que não há conceito porventura mais cientifico do que o amor, emoção humana fundadora do ser e da vida em todos os seus planos e domínios.  James Hunter (2004) cita o depoimento do empresário Vince Lombardi, para ilustrar de qual amor nos referimos:  “Não  tenho necessariamente que gostar de meus jogadores e sócios, mas como líder, devo amá-los”. O amor em questão é lealdade, trabalho de equipe, respeito à dignidade e a individualidade, força de qualquer organização. O amor a Gaia (mãe terra) define-se então enquanto liderança, que direcione a racionalidade ecológica, traçando um complemento de ordem emocional, afetivo, de matriz poética, estético ontológica (FERRARO, 2002).

Platão abre seu livro Republica VII com uma alegoria denominada “o mito da caverna”, dissertando sobre a evolução do processo de conhecimento, uma das mais famosas historia da filosofia. Por meio de metáforas ele desenvolve um raciocínio de rápida apreensão e compreensão. Na historia, alguns homens vivem numa caverna desde crianças, desprovidas de qualquer contato com a vida exterior, pois, são acorrentados vendo somente resquícios da realidade por meio das sombras refletidas na caverna. Para eles a verdade não é mais do que a imagem artificial sob efeito da luz. Porém um deles se liberta e com muita dificuldade consegue se levantar e andar, o primeiro impacto é o da luz que lhe causa dor, deslumbramento e sentimento de incapacidade para distinguir os objetos que vira somente às sombras. O olhar diretamente a luz é ofuscante, mas aos poucos o homem foi se acostumando e apropriando-se da realidade recém descoberta, chega a contemplar o sol e o mundo envolta. Lembra-se então, da antiga morada e de seus companheiros e lá retorna para lhes trazer as novas (CHAUÍ, 2003; COTRIM, 2002; NICOLA, 2005).

Transpor essa digressão para nossa linha de raciocínio é imaginar que a caverna seja o contexto capitalista global em que vivemos. As sombras seriam as parcialidades introjetadas em nossa realidade como as necessidades consumistas do “ter”, os grilhões e as correntes seriam os pré-conceitos e as opiniões manipuladas sagazmente pelos detentores do poder para fazer-nos pensar em consonância a interesses alheios e maquiados. O prisioneiro que se liberta seria o cidadão que adquire posicionamento crítico. O sol representa a possibilidade de haver outras verdades e o instrumento que liberta o prisioneiro seria a emancipação política que traz a tona o senso de coletividade construtivo e alternativo por meio da arquitetura de redes de sustentabilidade local, via Educação Ambiental, um instrumento que esta além do processo cognitivo vertical e hierárquico de transmissão do conhecimento e supervalorização de atitudes comportamentalistas, passando, portanto por uma sofisticada discussão na busca pela compreensão das relações de poder na sociedade (CAVALCANTE, 2007). Um grande e honorável baile, onde todos os conhecimentos, estilos e ritmos são contemplados e apreciados, nas suas proporções de competências e atribuições.

Referências

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