Saber e Compaixão

            O vento forte, que levantava a areia em chicotadas nos corpos queimados pelo Sol, e as ondas estrondosas, que se elevavam assustadoramente, tinham afastado as pessoas da praia, agora quase deserta.

            O Rodrigo olhava, fascinado, para aquela poderosa força da Natureza, enquanto, lá atrás, a Sara se aninhava nos braços da mãe; o pai tinha ido dar um passeio à beira-mar e ainda não tinha regressado.

Quando o Sol começou a aproximar-se do mar, a ventania abrandou de repente, transformando-se numa leve brisa, e as ondas começaram também a suavizar-se e a rebentar docemente aos pés do Rodrigo. Entretanto, a Sara adormecera ao colo da mãe, enrolada na toalha cor-de-rosa, enfeitada com balões de várias cores, a sua favorita.

Rodrigo viu o pai aproximar-se, mas não vinha sozinho. Acompanhava-o uma senhora de cabelos cinzentos, que ele nunca tinha visto. Quando se acercaram do menino, a senhora sorriu – um sorriso inteiro, com a boca e os olhos -, e o pai apresentou-lha:

– É uma colega do pai, a Ofélia. Dá-lhe um beijinho!

Rodrigo beijou a senhora e adorou o seu perfume de flores e a sua voz carinhosa, que o tocou como se fosse uma carícia:

-Que menino lindo!

Depois, o pai foi com a Ofélia para junto da mãe e da Sara, e o Rodrigo ficou a olhar o Sol grande e vermelho, cada vez mais perto do mar. Quando se preparava para se juntar à família, viu uma jovem aproximar-se, sentar-se de pernas cruzadas e começar a falar sozinha. Era uma rapariga muito bonita, com longos cabelos escuros e uma saia branca, que lhe chegava aos pés. Rodrigo não conseguia entender o que ela dizia – devia ser estrangeira -, mas soava-lhe como uma oração, que ela ia repetindo com os olhos postos no infinito. Ficou parado, a observar a jovem e a sua bela saia espalhada sobre a areia e a pensar que talvez fosse inglesa. Como já tinha aprendido algumas frases em Inglês (era mesmo o melhor aluno da sua turma), aproximou-se dela e perguntou-lhe:

– Excuse me. Are you English?

– No, I’m Portuguese.

– Então, porque é que estás a rezar numa língua estrangeira?

– A expressão que me ouviste repetir em sânscrito é um mantra e significa:

Sabedoria e compaixão. Repeti-la muitas vezes não só me acalma como me ajuda a pôr em prática o que digo. Esclarecido?

– Mais ou menos – respondeu ele. – Agora, tenho de ir. Adeus!

Quando chegou junto da família, a Ofélia já tinha partido e o pai estava a afagar um cãozinho, que ali aparecera com uma pata ferida. Então, com alguma surpresa, os pais ouviram o Rodrigo a repetir:

Saber e compaixão

Saber e compaixão

Saber e compaixão.

Questionaram-no com o olhar, e ele afirmou, cheio de convicção:

– Vamos levar o cãozinho! E acabei de descobrir o que quero ser quando for grande: veterinário. Já tenho a compaixão, mas preciso do saber, para poder curar todos os animais feridos que me aparecerem.