Respeito e Compreensão: Cada um na sua em prol da liberdade

Essencial é uma afronta, que o digam as propagandas. Querer só o “basicão”, o que todo mundo tem já não satisfaz. Só vale se for top de linha, senão você está out. Somos adeptos da filosofia do simples, mas para chegar a esse singelo, há toda uma careza por trás. O jeans detonado custa uma fortuna. E a geração anterior não consegue imaginar onde está o belo na coisa rasgada, com etiqueta da hora pendurada e um rombo no cartão de crédito para ficarmos com a cara do casual Day.

Transformaram a calça Saint Tropez em calça da Gang, mas estão copiando Brigitte Bardot. Perdão meninas, mas é tudo uma questão de época. A calça que vocês chamam pejorativamente de centropeito,  quando passar o furor da calça baixa,  o mesmo mundinho fashion a revisitou numa versão moderna daquilo que a etérea Audrey Hepburn usou no filme Bonequinha de luxo, e vocês nem perceberam. Argh! Quanta velharia, dirão. Mas é preciso, pois como tudo na vida passa os verdes anos também vão embora. Para marcar esta época tão bonita da vida é preciso não deixar a gurizada enjoar e haja imaginação para alimentar o modismo. A indústria da moda pereceria, milhões de emprego deixariam de existir se não fosse turbinado o mundo do supérfluo. Se não gira na produção, no luxo, o dinheiro vai para o mercado financeiro, que não é lugar seguro para mais ninguém, além de não produzir riqueza palpável, aquela que resulta da distribuição de renda e eleva o padrão de vida da população. O supérfluo e o básico podem conviver, mas um não pode se julgar tão autosuficiente para prescindir do outro.

A competência adquirida pela informação, pela instrução formal é conhecimento desperdiçado se não se reproduzir no meio em que vivemos. O consertador de fogões que pede um “barde” para o nerd da família a fim de que ele possa desentupir as bocas do fogão desativadas há tempos  recebe do seu interlocutor outra indagação, só que irônica. “Barde, que barde”? Barde, piá, de por roupa de molho, tu não sabe o que é “barde”? É preciso que o outro lado mostre as unhas para que o sarcasmo seja colocado no seu devido lugar. Na prática, o prestador de serviço está dizendo: “Não preciso dizer balde para consertar fogão. Você com toda sua sabedoria não repara  um fogão, mas eu sim”.

Certas aptidões são exigidas em algumas atividades e dispensáveis em outras. À primeira vista o bônus parece bem vindo, mas pode estar fora do contexto e descaracterizar o restante tão coeso. A vida realiza-se no necessário. Apenas o necessário. O extraordinário é demais, por isto é que esta vida eu vivo em paz, dizia o urso Balu no desenho animado Mogli, o menino lobo. Mas quem disse que queremos sossego embora o apregoemos aos quatro ventos?.

Claro para uns e ininteligível para outros, básico ou supérfluo, a dica é não perder o foco do que somos sem abrir mão do espaço que nos cabe e permitir ao outro o exercício de suas aptidões com liberdade. Se a pessoa é eficiente e eficaz, cabe-nos respeitar o trabalho alheio. E se quem está num nível de compreensão supostamente menor não entender, quem se acha melhor é que tem que descer. O outro não subirá e precisamos uns dos outros.

Novo ou velho, na moda ou não,  para transitar com os componentes do cotidiano vale um olhar compreensivo e achar uma razão nos motivos alheios. É apenas um longo processo de reciclagem onde o conhecimento vai e vem, como uma onda, com nuances para se adaptar a cada época, mas permanece o mesmo.  Respeito e compreensão bastam para sermos livres, cada um na sua.