Rádio Nowhere

No ar em tudo o que é sitio, ouvem-se constantemente as mesmas canções. Não passam de dez, ou pouco mais que isso, repetidas incessantemente pelas horas do dia afora. Com isso uns sofrem as agruras, da poluição sonora, outros há que gostam e há os que não se importam, deixando simplesmente de “ouvir” as músicas, transformadas entretanto em sons mudos, tal como o barulho incessante das obras, mas em pior. Porque as canções podem-se entranhar a contragosto e voltar nos momentos de silêncio. Mas isso é outra história, cura-se com boa música. Porque gostos discutem-se, pois claro que se discutem. Ontem, hoje e sempre. Agora mais ainda, onde a mediocridade instalada perde muitas vezes o pudor. Isto tudo para dizer o seguinte: 99 por cento das rádios são puro lixo. Melhoram um bocadinho à noite, mas melhoram cada vez menos. Ao mesmo tempo que pioram cada vez mais. E de que maneira.

Sei razoavelmente do que falo, já o vi com os meus próprios olhos nos inícios dos anos 90, tempos em que a rádio era bastante melhor que no presente. Resumindo, as listas de canções a tocar chegavam em CD’ s impessoais em formato de colectânea. Era aquilo que se devia ouvir. Caso alguém quebrasse a regra entraria o director pela sala adentro, a dizer algo do género “que é esta merda. Quem é que vos deu autorização…”?. Claro que um director com as suas contas a pagar fazia depender o seu lugar da vassalagem ás majors e aos interesses financeiros da sua empresa. Por estas e por outras e como o povo é que manda, as poucas rádios que hoje ainda sobrevivem com um mínimo de bom gosto, qualidade, de senso e de dignidade contam-se pelos dedos de meia mão.

E se pensam que com a obrigação de haver uma quota de música portuguesa, ao menos se poderiam pôr no ar músicos nacionais de jeito, pois tirem vocês o cavalinho da chuva. Agora mais do que nunca temos em doses cavalares EZ Especial, Fingertips, João Pedro Pais, Pedro Kimba… Todos juntos em uníssono, a massacrar-nos a toda a hora numa rádio perto de si. Nos cafés, nos cabeleireiros, nas agência de viagens, nos escritórios, nas paragens de Metro. Como alguém já escreveu na blogosfera – o “ruído insuportável do entretenimento”.

É pouco dizer que em relação à televisão, a rádio conseguiu o feito de transformar-se de alternativa saudável a produto inofensivo. Com o cabo a televisão reformulou-se. Quem quer tem consoante o seu gosto noticias, história, ciência, filmes, comédia ou futebol. A rádio em vez de se reiventar perdeu relevo, dimensões, perdeu gente, perdeu personagens e só se diversificou na internet. Não traz nada e não acrescenta nada.

Reparem que não cito os programas de informação, as entrevistas e os debates. É a música que aqui me interessa. Sei que existem óptimas pessoas e excelentes profissionais de rádio em Portugal. Alguns que gosto bastante. Uns lá conseguem alguma autonomia nos seu trabalho, criando algo que é seu. Outros simplesmente não merecem os chefes que têm. Têm sonhos e são bons naquilo que fazem. Gostavam de poder escolher algumas músicas para tocar, de dar o seu gosto a quem o ouve, mas em vez disso, têm de colocar no ar as playlists. Puta que pariu para as playlists. Peço desculpa, mas a rádio em Portugal bateu no fundo. Tornou-se para mim e para muitos simplesmente insuportável. O problema não é só nosso. Em baixo Bruce Springsteen queixa-se do mesmo: is there anybody alive out there?