Quem Mandou Mentir…

Vou te contar: ter irmão mais novo que a gente é um saco, às vezes. O meu é cinco anos mais novo que eu mas age como se tivesse nascido cinco anos ANTES de mim! Outro dia, chegou querendo montar meu telescópio veio de guerra, dizendo que eu não sabia montar direito. Ah, tá! Eu já o tenho há anos e sei montar de olhos fechados (tipo aqueles caras da infantaria, que sabem montar arma no escuro; acho legal demais)! É um mala. Ele tinha que ser igual minha irmã mais velha, que sabe muito mais até que meus pais, mas fica tão na dela que a gente até esquece que tá em casa.

O problema é que ele nunca montou nem Lego na vida, e vem querendo ensinar o padre aqui a rezar o terço?? Ah, qual é… É igual querer ir trabalhar na Alemanha sem saber falar alemão! Aliás, quem quase deu uma bola fora dessas fui eu. Apareceu uma oportunidade de intercâmbio na universidade, justamente pra Alemanha, pra uma fábrica de cerveja. Eu sou da área de Tecnologia de Alimentos e a chance era única pro meu currículo! Entrei feito um trator sem freio na sala do orientador, que era quem faria a seleção do estudante que iria fazer a viagem, dizendo que tinha que ser eu, que tinha que ser eu… Ele me perguntou: “ué, mas você fala alemão?”. E eu, mais que depressa: “claro que sei!”.

Intercâmbio na Alemanha

A hora do aperto

Sabia porcaria nenhuma. Meu alemão era o mesmo que o pessoal finge estar falando quando vai fazer zoeira com o idioma – e vira aquela raspação de garganta. Dei meu nome, minhas credenciais acadêmicas e quando saí da sala dele, pensei: “tô ferrado”. Inglês a gente escuta o dia todo, acaba acostumando, mas alemão?? Eu morreria de fome naquele país, porque não saberia pedir nem comida – quanto menos um endereço! E, supondo que eu conseguisse chegar à fábrica de cerveja de lá, como eu faria pra entender o que eles estariam dizendo?? Mas agora eu já tinha falado que sabia e, se eu voltasse atrás, além da bronca, ia criar uma situação complicada pro orientador junto à instituição.

Eu precisava dar um jeito de aprender alemão em tempo recorde pra poder ir pro intercâmbio, mas não sabia onde, nem por quanto. E conversando por alto sobre esse assunto, um amigo me disse que tinha um conhecido que era casado com uma alemã e que ela dava aulas em casa. “Ótimo!!”. Pedi os contatos e fui atendido por uma mulher muito simpática de português perfeito – e que era exatamente a professora. Juro: nenhum sotaque alemão. Ela falava português mais perfeito que minha professora de redação da quinta série! E se ela aprendeu o português, que é tão difícil… eu poderia aprender alemão também! Marquei as aulas com ela e fui. “Fui” mesmo. Fui laaaaá praquele lugar.

Tomando água de ponta cabeça

Era mais fácil conseguir tomar água de cabeça pra baixo sem derramar nada e nem engasgar do que falar “auf Wiedersehen” (‘adeus’, ‘até logo’). Saí arrasado da primeira aula, pronto pra desistir. Preferia encarar a vergonha de admitir a mentira e a bronca da faculdade e do orientador a continuar aquele massacre mental. Eu tinha três meses pra aprender pelo menos o mínimo do alemão, só a raspinha da sobrevivência, e não conseguia nem “dar tchau” naquela língua assustadora! Estava ferrado, e não era pouco.

Minha cara não estava nada boa quando cheguei em casa, e minha irmã, a que sabe demais, percebeu só pelo jeito que eu fechei a porta. “Quê que tá pegando, camaradinha? Tá chateado com alguma coisa?”. Aí saí falando tudo. E acho que nunca vi ela rindo tanto e me zoando tanto! “Você é doido, Aldo!! Essa é boa! Tava achando que alemão era fácil, é??”, e ria.

Sacanagem. Eu já tava chateado e ainda tinha que aguentar zoeira da Rosa. Mas depois que ela recuperou o fôlego, ela me deu uma sugestão. Uma vizinha, que morava na rua de trás, tinha uma filha que morou na Alemanha durante dois anos, por causa dum doutorado, e ela não era muito mais velha que eu. “Que tal a gente ir lá conversar com ela pra ela te ajudar com isso?” Eu não via como, seriam duas professoras fracassadas. Mas fui com ela, isso me daria tempo pra pensar em outra saída.

Chegando lá, falamos do intercâmbio – mas a Rosa nem mencionou minha mentira. Só disse que eu precisava aprender depressa. Angela sugeriu de nos encontramos em várias situações, e que ela só falaria em alemão comigo pra eu ir pegando as palavras e os contextos. Só traduziria o que eu não entendesse. Pensei: “que furada…”. Mas ajudou muito! Nas aulas eu pegava as regras gramaticais, e com Angela eu entendia os usos e aumentava o vocabulário. De repente, me vi falando um alemãozinho até interessante!

Mas a ida Pra Alemanha não deu certo. Quando me pediram os documentos, eu não tinha certificado de curso pra apresentar – até tentei explicar que sabia por estudos individuais, mas não colou. Perdi a chance. Mas agora que já estava aprendendo, resolvi continuar. Vai que aparece outra chance, né?