Posso escrever sobre mim?

Vamos admitir: estamos no tempo da vaidade. As redes sociais realçaram, acenderam, iluminaram e eletrificaram nosso lado mais narcisista e se tem uma coisa que a maioria das pessoas nessas redes ADORA é falar sobre si mesmo. Quantos amigos da sua timeline (a mulheres, principalmente) buscam frases de efeito na internet só para colocarem junto com mais uma das intermináveis fotos fazendo carão em frente ao espelho, numa tentativa de parecer incidental? Talvez até você mesmo(a) já tenha feito isso!

Mas nosso foco aqui é a vaidade desvelada de outra forma: na forma de um TCC. A possibilidade de falar sobre si em um texto científico é uma nova forma de autovalorização intrigante, desconhecida e aparentemente fascinante e inédita! Por exemplo, a graduanda de Pedagogia que resolve falar sobre gravidez na graduação e relata sua própria experiência; ou um graduando de Educação Física que escolhe como tema de TCC falar sobre escalada em rocha e se usa como laboratório e amostra.

Devagar com o andor

escolha-de-um-tema-de-tcc“Mas é possível fazer um tcc usando meus relatos pessoais como base?”. Não é que seja proibido, mesmo porque não é – e há, sim, uma modalidade chamada “relato de experiência” onde esse tipo de trabalho se encaixa. Entretanto, há riscos nessa tática.

Quando nos baseamos em nossas próprias experiências, corremos o risco de sermos narcisistas. Afinal, quem falaria em DESfavor próprio quando o relato trata de uma atitude errada tomada por nós mesmos? A nossa tendência natural é para abafar (parcial ou totalmente) as partes ruins e que “queimam nosso filme” e valorizar os aspectos positivos de nossas experiências. Por exemplo, a estudante que engravidou ao longo da graduação pode não querer admitir que aconteceu porque ela estava bêbada e tinha usado uma droguinha e acabou nem percebendo que fez sexo sem proteção; provavelmente falará que “foi por descuido”, o que mascara informações muito importantes (álcool x drogas x juventude). Já o estudante de Educação Física pode falar sobre o desenvolvimento muscular que notou durante os X meses de prática do esporte, mas pode não mencionar os suplementos alimentares que também ministrava, numa tentativa de parecer “impressionantemente mais preparado fisicamente” do que outros praticantes.

Ainda que um tcc não seja um trabalho de altíssimo rigor científico como artigos publicados em periódicos com classificação Qualis A, ele É um trabalho científico e não deixa espaço para relatos cujo foco seja a vaidade pessoal do autor. Por isso é tão difícil fazer um relato de experiência sem afetações: porque temos (todos nós) uma tendência natural a dourar a pílula a nosso favor, mascarando detalhes que ‘preferimos’ não revelar.

De fora vê-se melhor

desenvolvimento-da-se-muito-mais-facilQuando o tcc, ou qualquer outro trabalho científico, é feito sobre um assunto visto de fora, conseguimos ser juízes mais imparciais (ainda que isso não seja uma regra infalível). Isso porque, se um dos indivíduos da amostra cometer algum erro durante a pesquisa, será mais fácil “julgar” esse erro e demonstrá-lo mais friamente, já que não se trata de um erro NOSSO.

Ainda que se corra o risco de fazer pesquisas tendenciosas que comprovem nosso ponto de vista de maneira até um pouco duvidosa, existe a presença do orientador, que manterá o estudante no prumo. Quando o assunto é neutro, é mais fácil para ele acompanhar o trabalho que está sendo feito.

Apesar de tudo, um trabalho baseado em experiências pessoais pode ser muito rico – inclusive para o próprio estudante! Entretanto é preciso frieza para conseguir se manter alheio aos sentimentos pessoais em relação aos relatos para evitar que o relato se torne um diário pessoal.