O Valor do Perdão

Reportando-nos a um caso muito antigo, ocorrido nos tempos do rei Davi, em Jerusalém – fato, não estória e nem ficção – quando ele, evitando ir com seus exércitos a uma grande batalha contra um de seus inimigos mais ferrenhos, resolveu ficar em seu palácio, descansando e meditando no terraço, momento em que observa uma mulher se banhando nas proximidades. Encantado com a beleza dela ordenou que a trouxessem para si, constatando tratar-se da mulher de Uzias, um de seus valentes guerreiros. Possuindo-a, a engravida e, para evitar constrangimentos, manda que enviem a Uzias para a frente de batalha, onde mais o fogo se inflama, levando consigo uma carta do próprio rei ao comandante do exército de Davi. Lá o valente morre.

Dois crimes o rei cometeu, o de adultério e o de assassinato, e, portanto, Deus o submeteu a terrível juízo, diante do qual houve o arrependimento de Davi e o perdão de Deus. Chegando agora em nossos dias, Abdias dos Santos Barra, um pintor de setenta e cinco anos de idade, condenado pelo assassinato de sua amante a catorze anos de prisão, obteve o benefício da prisão domiciliar, que foi analisada pelo juiz da vara de execuções penais, após ter uma perna amputada, e apresentar hipertensão e depressão, além de desnutrição e desidratação. Verificando um pouco da história de Abdias, que se assemelha e muito à do rei Davi, pude observar que seus filhos, os quais nasceram da sua relação com a amante, o haviam perdoado e ainda se dispuseram a intervir, como fosse possível, pela redução de sua pena, compadecendo-se dele. Durante vinte anos ele aguardou pela sua condenação e pelo perdão de sua família, além de sua mulher que faleceu há cerca de três anos.

Liberar o perdão, verdadeiramente, traz benefícios tanto a quem perdoa, quanto a quem é perdoado. O benefício de Abdias foi concedido após ele ter cumprido apenas três dos catorze anos a que foi condenado.