O Tabaco e a Morte

Lá pelos idos de 1978, meu pai passava por mim na sala de casa, já pronto para ir de volta ao trabalho, pois todos os dias ele vinha para almoçar conosco, e ao se despedir me disse: “Ei, caboclinho, eu que fumei por mais de quarenta anos deixei o cigarro faz uma semana, e você aí, que não consegue largar de seu vício!”. Coincidentemente, naquele momento eu lia um livro que ele mesmo me havia dado, o qual falava de um tipo cruel de morte, talvez o mais cruel de todos, que é aquele que tem a nossa participação direta em nossa própria destruição. Lenta e persistente, a morte caminha de encontro àquele que fuma. Naquele dia, graças a Deus, após meditar nas palavras de meu pai, e além de influenciado pela leitura do livro, joguei tanto o cigarro quanto o isqueiro que eu usava para acendê-lo, no lixo.

Daquele dia em diante, nunca mais fumei. Não da mesma maneira, até que, realmente, abandonei definitivamente o vício maldito. Algum tempo depois, não me lembro se meses ou anos, com o falecimento de minha mãe meu pai voltou a fumar, agora com muito mais intensidade. Certa vez, ele foi encontrado pela empregada caído em seu quarto, em pleno processo de asfixia, lutando para conseguir um grama que fosse de ar para seus pulmões. Levado imediatamente para o hospital, e após os exames necessários, ficou internado mediante a identificação de um quadro clínico de enfisema pulmonar.

O médico, reunindo nossos irmãos, mostrou-nos as radiografias dos pulmões de nosso pai, onde nos explicou o que estava se passando. Os pulmões humanos, quando submetidos a doses constantes de nicotina, têm seus alvéolos – a grosso modo, equipamentos para recepção do oxigênio do ar e lançamento na corrente sanguínea – necrosados, e estes não voltam mais a funcionar. E isto vai acontecendo lentamente, mediante o depósito da nicotina sobre aqueles equipamentos dos pulmões, até que a reserva se acaba e o paciente morre por asfixia. Meu pai, antes de ser socorrido, quase faleceu por exaustão muscular, devido à extrema força que ele fazia para respirar.

O estado do pulmão de um fumante é desesperador, vejam a fotografia ao lado. Meu pai, ainda que avisado pelos médicos, não abandonou o seu vício, ao contrário, aumentou o consumo do veneno mortal. Pouco tempo depois, assistindo a um jogo de futebol na sala de sua casa, à noite, foi acometido da pior de todas as suas crises, e saiu em desespero para a janela de seu quarto, onde, desesperadamente, buscava o ar para respirar. Não resistiu, e morreu ali, expelindo uma gosma roxa pelo nariz e pela boca. A morte o levou por aquele instrumento.

  • rosi

    Acredito que você entenda minha dor. Acabo de passar por esta mesma situação . Perdi minha Mãe numa forma muito parecida, é muito doloroso.

    • Rosi, de fato, é muito doloroso. Mas, devemos compreender que a nossa influência sobre eles deve ser como uma brisa suave e refrescante, nunca como uma tempestade! Eu também fui viciado em fumo e sei muito bem a dificuldade que eles encontram para se livrar da escravidão sozinhos. É praticamente impossível. Força de vontade, disposição, e o desejo pessoal são ingredientes do processo de abandono do vício, mas, fundamentalmente, ainda estão restritos ao homem. Sem Deus, ninguém consegue um livramento perfeito e que não deixe nenhuma marca em sua memória, que, eventualmente, venha a lhe trazer uma recaída. Felizmente, ainda temos a Ele para recorrer: “Vinde a mim, vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” Que promessa maravilhosa! Curta isto. Grande abraço.