O Povo e as Ervilhas – Uma Lição de Comodismo

Hans Christian Andersen

Hans Christian Andersen

Dentre os vários contos de Hans Christian Andersen, um me chama atenção por se enquadrar nos critérios modernos de educação. É a fábula “As 5 ervilhas na vagem”.

O conto narra o destino de 5 ervilhas que nasceram e cresceram juntas numa mesma vagem

Um dia foram colhidas pelo agricultor e foram parar nas mãos de um menino que, com uma zarabatana, atirou-as em todas as direções. Dentre elas apenas uma se dá bem, a quinta e última. Era a mais silenciosa, pouco participativa, que não exprimia sua opinião, que não impunha suas ideias e que não sonhava. Que aceitava seu destino como algo invariável, imutável. A ervilha que baixava a cabeça e se submetia.

Subentende-se que as outras 4 se deram mal por serem egoístas, vaidosas, dadas a sonhos mirabolantes como viajar até o sol, por se considerarem muito importantes e especiais. Ou seja, por não se reconhecem mais como simples ervilhas!

Da mesma forma somos treinados desde cedo a: não se ocupar do que está além do próprio horizonte, não formar opinião, não desenvolver o senso crítico, não indignar-se, não sonhar além dos limites das próprias mãos, não perseguir seus ideais.

Somos induzidos a ocupar-nos apenas de crescer, ter uma profissão, ajustar as viseiras de burro, assistir TV, pôr filhos no mundo para o bem do Estado e ir às urnas como eleitores amestrados para o bem dos nossos políticos profissionais.

O objetivo do autor, quero crer, era apenas de ensinar a virtude da humildade. Porém sua mensagem, querendo ou não, vai muito além disso e indica aos nossos filhos o caminho fácil da aceitação, do comodismo, da alienação como o bem maior. E diz a todos nós que o melhor mesmo é ser igual, ser apenas mais um, desaparecer em meio ao senso comum. Sem bandeiras, senão a que eles nos impõem!

Esse é o ensinamento que constantemente o Estado e as Religiões incutem em nossas mentes, pois sempre foi e será o objetivo maior dos dominantes de turno, pouco importando se à direita ou à esquerda das ideologias políticas: manter a população numa espécie de torpor, numa realidade alternativa composta por futebol, músicas vazias e tolas, telenovelas, BBB’s, fazendas, fazendinhas, fazendolas, religiões que pregam não o autoconhecimento e um

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despertar para a espiritualidade, mas um mergulho profundo em dogmas, crenças, ritos, tabus e dízimos copiosos.

Pois um povo ignorante de sua própria condição e incapaz de reconhecer ou identificar a força imanente que todo povo tem, é o sonho de políticos, grandes empresários e empreendedores religiosos.

Se amanhã ou depois alguém repetir a façanha do Guga (nada contra, muito pelo contrário!) e se tornar o número um do mundo, é capaz de desfilar em carro aberto do Corpo de Bombeiros e virar herói nacional. Se ao invés disso ganhar um prêmio Nobel, terá apenas algumas linhas tímidas na mídia e uns afagos discretos dos mandatários do país – jamais será um herói, jamais a fina flor da raça!

Cidadãos conhecedores de seus deveres e cientes de seus direitos, que cobram dos políticos a lisura de seus mandatos, é um conceito perigoso e inconveniente e que não interessa aos dominantes da vez.Por isso desensina-se nas escolas, nas ruas, nas TVs, nos jornais, nos depoimentos, nos blogs de partidos, nos sites de coisa nenhuma, nos programas partidários obrigatórios, nas famigeradas e odiosas propagandas eleitorais gratuitas.

Por isso em vez de aulas de Moral e Cívica, capoeira; em vez de sociologia, levantamento de copos; em vez de filosofia, futebol; em vez de arte, desastre!

Em vez de cidadãos, ELEITORES!!