O Novo Mundo de Terrence Mallick

“The New World” é uma história de amor e o apanhado de um tempo absolutamente decisivo na nossa história. É um filme do “concreto” a todo o preço. Com um realismo de imagética que é apenas abstração nas suas metáforas, “filme verdade” sobre uma visão de pureza, que ficou a pairar no tempo. Com o génio de Terrence Mallick, mais alto que o mundo onde vive, cheio dos maneirismos da sua condição “fora do mundo”, que se revelam tão naturais como a sua própria respiração. Onde tudo é trabalhado e polido para daí nascer uma forma sólida como uma pedra, com suas leis e vida próprias.

Destaca-se aqui a actriz Q’Orianka Kilcher de uma beleza selvagem estonteante, transpondo o filme para outra dimensão, tornando-se a voz do realizador, como a havia sido Jim Caviezel em “Thin Red Line” … Também Christian Balle com o personagem de John Rolfe, com um caracter muito forte e uma bondade sólida como uma rocha, conseguindo ao mesmo tempo colar a sua expressão a um fresco de época. Balle, este actor espantoso que foi o radical oposto em “American Psycho”, assassinando gente ao som de Phil Collins.

“The New World”a uma primeira visão pede mais tempo para respirar aqui e ali. Para o personagem de John Smith, para o casamento de Pocahontas com John Rolfe, para os episódios secundários que trabalhariam para um melhor retrato de época. Mais tempo para assentar alguma poeira e gerar novos aprofundamentos.

Uma segunda visão tira grande parte dessa pretensão. O filme completa-se mais, coze melhor as suas linhas. E a imagem de retrato com que se fica do filme acaba por satisfazer. Isto numa obra de extremo rigor a trabalhar o momento, que ás vezes pesa como chumbo, que é austera. Que pede trabalho e esforço mental. Que muitas vezes não tem o ritmo que desejamos ou a que não estamos habituados, que tem a sua forma própria forma de carburar: completamente nas tintas para as nossas cogitações. E no fim vamos dali com a imagem da bela Pocahontas e daquela época distante e ingénua, com um novo mundo a rasgar-se a céu aberto e a expor as feridas e marcas de um mundo medíeval que é deixado para trás. Malick não nos dá respostas. Prefere deixarmo-nos um pouco olhar para ali, para depois nos projectarmos em direcção ao mistério.

Fala-se num Director’s Cut, num outro filme entretanto esquartejado na sala de montagem. É possivel. Talvez até seja possivel que existam dois filmes dentro de um. Who Knows? Eu por mim preferia um filme de quatro horas e tal… Mesmo que me perdesse nos seus meandros, nos seus momentos…