O Conflito

O conflito interno é necessário para que ocorra o caos, do caos surge à luz.

No principio era o conflito e o conflito estava com Deus, o conflito era Deus (24). Ele estava no princípio com Deus. E sem Ele nada do que foi feito se fez. Nele estava à vida, e a vida era a luz dos Homens.

Sob a luz da gramática percebemos que a definição de verbo possui correlações semânticas com a definição de conflito, essa correlação se estabelece no sentido de que a variação implica na ruptura de padrões estabelecidos e toda mudança provoca o confronto, melhor dizendo, o conflito. O consenso surge depois como a resultante do somatório de todas as vertentes.

Tendo feito minha defesa diante aos mais sensíveis quanto à modificação do texto bíblico, redireciono agora para o que proponho que é ilustrar com alguns poucos exemplos, mas significativos, a seguinte citação:

“O conflito é a luz dos Homens”

Como todo leitor compulsivo por biografias, busco inconscientemente no estudo da vida das grandes personalidades, alguma fórmula a qual pudesse nortear meus passos no sentido de acrescentar algum resquício de genialidade em minha existência, claro que essa fórmula não existe e minha pretensão é descabida, mas entre sonhar e não sonhar fico sempre com a primeira opção, pois será sempre infrutífero o intento de repetir as veredas trilhadas pelos homens, quanto mais dos gênios. Ninguém poderá reproduzir os caminhos que propiciaram o surgimento de um ser como Newton (25), ainda que lêssemos o que leu, vivêssemos com quem viveu, estudássemos o que estudou, jamais poderíamos sentir da mesma forma como sentiu.Newton, como todo ser humano, é único e a forma de enxergar a natureza sofre variação de acordo com a pessoa, o azul do céu que Newton tanto contemplava não existe em nenhum outro lugar, o que sua retina transmitia ao seu cérebro sofria influências e era modificado e decodificado com impressões pessoais, o que torna o azul do céu da Inglaterra como sendo o seu azul, do seu céu, da sua Inglaterra.

Newton tinha uma relação íntima com o espaço, gostava de passar horas observando os astros, imagino que o céu da Inglaterra no século XVII não fosse tão cinzento como hoje. Sua infância foi marcada pelo falecimento do pai, e tendo sua mãe contraído novas núpcias, foi naturalmente levado a ter um convívio maior com seus avós, talvez esse fato desenvolva no menino o costume de se isolar, gosta de trabalhos manuais e não demonstra muito interesse pela ciência. Foi a imposição de um tio, funcionário de Cambridge, que o levou para a universidade onde não se destacou como aluno, no entanto possuía uma característica peculiar: Newton necessitava de motivação para desenvolver o seu potencial. Como exemplo temos o famoso binômio, recurso matemático que é utilizado até hoje como facilitador do cálculo das potências da soma de dois termos. Como percebemos uma vez despertada a sua genialidade não havia limites. Elaborou conceitos e cálculos de vital importância nos mais diversos campos, da astronomia à óptica. Em Newton observamos o gênio e o seu conflito, é histórica sua suscetibilidade às criticas, sua forma despretensiosa de ver a vida e, somado a sua timidez, tais fatores pareciam ser um empecilho ao seu desenvolvimento. E foi, justamente, sua personalidade que propiciou o florescimento de sua genialidade ímpar.

Outro legado de Newton nos foi proporcionado em sua célebre frase – “se enxerguei mais do que os outros, foi porque me apoiei no ombro de gigantes”, onde sintetiza em uma frase todo o conhecimento que os educadores parecem ter esquecido, quando ficam discutindo bobagens e apresentando teorias sem o menor conteúdo, deveriam aprender com essa frase e entender de uma vez por todas que o gênio não floresce em qualquer terreno, ele só ocorre onde a terra anteriormente já fora cultivada, é por essa razão que uma educação formal e austera é importante para que nossos jovens tenham a possibilidade de escalar até os ombros dos gigantes. É importante que o estado promova o encontro dos nossos jovens com os grandes pensadores, com o conhecimento clássico, para que possam, munidos de informações, pensar o novo e não serem condenados a se tornarem mão de obra especializada e repetidores de teorias desenvolvidas por outros.

Outro gênio brinda a humanidade com a sua existência. Einstein (26) era tão quieto e solitário que esse seu comportamento levou seus dedicados pais, Hermann e Pauline, a desconfiarem de que seu filho único teria problemas mentais, suspeita endossada pelo estranho formato de sua cabeça (na verdade não era o formato que impressionava e sim o tamanho grande se comparado com as outras crianças), característica que sua mãe interpretava como um prenúncio de retardo mental. Felizmente o que os pais de Einstein iriam mais tarde descobrir, aproximadamente quando o menino contava com cinco anos, era que o garoto simplesmente gostava de ficar só e o seu rendimento intelectual era extraordinariamente potencializado quando não interagia. Creio que seria uma atitude justa se o instituto sueco que administra o Premio Nobel concedesse um pós mortem aos pais de Einstein, pela contribuição à humanidade, explico – se seus pais tivessem seguido o s conselhos dos educadores nós não seriamos abençoados com o pensamento pujante de Einstein. Hoje há mais de um século do seu nascimento é comum a padronização da interatividade no processo educacional moderno, e toda a padronização, como dizia Nelson Rodrigues (27), é uma burrice. Costumo dizer que a pérola só é formada por ter a ostra se fechado do mundo exterior, impedindo que impurezas a contaminasse. É claro que nem todo o aluno que se isola será um gênio, mas o estresse causado pela imposição com que certos educadores submetem os seus alunos a interação total, como se isso representasse um pré-requisito para a assimilação de conhecimento, representa sem a menor dúvida em danos graves e muitas vezes irreversíveis no processo educacional. A própria estrutura dos cursos de pedagogia, onde os futuros mestres não são apresentados aos grandes pensadores, e a total ausência de disciplinas exatas, como a matemática, física, química e, também, às ciências biológicas, sem contar com o ensino fundamental de história, português e uma língua estrangeira como instrumental, faz com que esses profissionais apresentem déficits quanto a sua formação. Estudam muito Paulo Freire (28) e Piaget (29) como se isso significasse algo relevante. O Estado forma péssimos mestres e, por conseguinte, a nossa sociedade estará condenada à mediocridade. Essa é a razão do restabelecimento da Faculdade de Humanidades onde todos os cursos da área de humanas fossem fundidos em um único curso, e a formação acadêmica de oito anos é fundamental.

Voltando a Einstein, ele foi uma criança diferente, como aluno foi brilhante e é comum a lenda de que foi reprovado na escola em matemática, reprovado ele foi, mas por indisciplina, Einstein tinha dificuldade de se relacionar com os professores. Em casa sua personalidade era respeitada, sua mãe tão logo percebeu sua característica passou de modo sistemático a ler para o filho. Assim que foi alfabetizado, sua zelosa mãe se encarregava de espalhar pela casa revistas e livros para que o menino os encontrasse. A harmonia do casal era completa e todos se empenhavam em promover uma melhor formação educacional ao menino, isso é outra lição que devemos aprender com o estudo biográfico de Einstein, a educação é um processo onde todos os atores devem estar empenhados na sua promoção (estado, sociedade e família). O Sr. Hermann vendo que o seu filho não gostava de brinquedos lhe deu uma bússola de presente, sem perceber havia despertado a paixão pela ciência em seu filho. O termo é paixão, pois o menino ficou de uma forma tão avassaladora envolvido com o objeto e com a força “mágica” que direcionava a agulha para o norte, que teve febre e calafrios à noite, tamanha foi sua excitação; e isso aos seis anos.

Seu tio Jakob juntamente com o seu pai, respeitava o seu modo de vida, a ponto de rolarem no tapete da sala com a pequena Maja, sua irmã caçula, e ao jovem Einstein proporem problemas matemáticos que eram de forma ávida procurados entre amigos e vizinhos. Isso se chama respeito e essa lição Einstein iria levar por toda a sua vida, o respeito às diferenças. Amigo teve poucos (Max Talmud, Marcel Grossman, Mileva Maric que mais tarde se tornaria sua esposa e grande colaboradora), mas para a vida toda, Einstein recebeu orientação religiosa dentro dos princípios judaicos, tornou-se um pacifista ferrenho, ecologista, defensor das liberdades e das minorias, amou as pessoas mesmo as mantendo longe.

Antes de falar sobre outro grande exemplo da genialidade humana, e de sua relação intrínseca com o ambiente onde primitivamente obtém formação, quero enfatizar que tenho noção da dimensão entre o gênio e a forma em que a genialidade se manifesta. Quando usei os exemplos de Newton e Einstein o objetivo era demonstrar que teve papel fundamental, a forma como se desenvolveram intelectualmente. Foram o resultado de sólidos sistemas educacionais que, somados aos mais variados incentivos e a sua condição intelectual inata, produziu esses seres extraordinários, mas para não ficar restrito a ciência menciono agora um general, melhor dizendo, o maior general da história da humanidade.

O maior gênio militar de toda a história, o homem que consolidou e propagou os ideais da Revolução Francesa, o homem que dominou toda a Europa e foi decisivo nos destinos dos Estados Unidos e do Brasil, Napoleão Bonaparte, o revolucionário, o general, o Imperador da França, queria na verdade viver bucolicamente no campo, ao invés de dominar o mundo o seu sonho era ser mecânico.

Durante o período em que, forçado por imposição de sua família, ficou na Real Academia Militar de Brienne como Cadete do Rei, Napoleão sofreu com a saudade da Córsega, sua terra natal, onde corria pelos campos e andava livremente, sua paixão pela ilha era um caso único que inclusive o motivou a escrever um volumoso livro sobre a sua história, ele durante toda a sua vida sempre repetiu que por ele nunca sairia da ilha, ou melhor, da sua perfumada ilha onde era só fechar os olhos e sentir o aroma e imaginar-se no paraíso.

O jovem Napoleão, uma vez obrigado a viver na França forjou o seu espírito; sua vontade e determinação traçaram um novo destino e o da humanidade também. O jovem, que gostava de botânica e poesias, dedicou-se ao máximo a arte da guerra, sua especialidade era a artilharia, mas Napoleão não aceitou o estreitamento intelectual, tornou-se o melhor cadete, buscando as abrangências e dedicando-se de forma exasperada a obtenção de conhecimento e nada foi capaz de removê-lo de seu intento. Diante de uma instituição de ensino que proporcionava a excelência acadêmica ainda que voltada para as artes da guerra, encontra em Napoleão terreno fértil onde pode desenvolver todas as suas potencialidades. Como já disse sou um leitor ávido de biografias, e em Napoleão encontro algumas frases mais fantásticas das proferidas pelos gênios, com certeza muitos não compartilharão dessa opinião, mas em defesa registro que essas frases apesar de desprovidas de requintes literários denotam a objetividade no intuito e da importância da formação abrangente.
“Não há nada que eu próprio não possa fazer.”

“Se não há quem possa fazer a pólvora, eu sei prepará-la; sei construir o reparo e a carreta do canhão; se houver necessidade de fundir canhões, também sei fazê-lo; se for necessário ensinar os detalhes da manobra, eu os ensinarei…”

E continua com uma frase que costumava repetir frequentemente. “Conhecer seu trabalho a fundo e fazê-lo até ao limite das forças.”

Em Napoleão observamos a importância da educação na formação do caráter do individuo, a sua formação onde o interesse pelos mais variados assuntos foi o que possibilitou o surgimento de sua genialidade, se ele optasse pela especialização em apenas um ramo do conhecimento nunca o seu potencial seria despertado, Napoleão é um produto do eficiente sistema educacional Francês, da mesma maneira que possibilitou o surgimento de Santos Dumont, costumo até brincar com a história de que tanto a vinda da família imperial ao Brasil e o maior inventor brasileiro só aconteceram graças à França e ao seu sistema público de educação, essa forma de promoção educacional clássica onde os estabelecimentos de ensino fornecem todos os recursos aos seus alunos, que apoderam dessas informações e durante um longo período estão focados unicamente na progressão intelectual, isso é fundamental e constitui no maior patrimônio que uma nação pode almejar, não são os recursos naturais que diferenciam as grandes das pequenas nações e sim o índice de desenvolvimento humano, a educação é o único caminho para esse objetivo, e os estudos de biografias revela que são os indivíduos que transformam os destinos dos povos, e sempre foram pessoas que de alguma maneira tiveram possibilidades de estudarem, o nosso país parece que não compreendeu ainda essa questão.

Choca-me quando vejo um governante brasileiro vangloriar-se de ter possibilitado a inserção de jovens no mercado de trabalho e ter também oferecido “a oportunidade” de algum curso de especialização, o caminho não é esse, a formação onde a universalidade acadêmica faça parte de todos os currículos, onde o jovem tenha tempo para conhecer os clássicos da literatura universal, os grandes filósofos, noções sólidas de todas as áreas do conhecimento e não a mediocridade que tomou por completo o ensino superior no Brasil, onde as universidades não passam de grandes cursos profissionalizantes que colocam viseiras em nossos jovens, que da mesma maneira que os eqüinos só conseguem enxergar o que está na sua frente. A tendência natural é que as coisas evoluam com o tempo, mas no que diz respeito ao ensino parece que essa regra não se aplica e a cada geração ficamos mais bestializados, as pessoas cultuam o descartável em todos os segmentos do conhecimento humano, a arte é descartável, os valores são descartáveis e a vida também passou a ser. Essa cultura perniciosa é algo que poderia através de um esforço conjunto de toda a sociedade ser modificada, nós podemos mudar desde que queiramos e foquemos na educação dos nossos jovens.