O Che de Soderbergh

Mais cinema que biopic, mais Robert Bresson que Oliver Stone, gostei muito da contenção, sujidade e rudeza de “Che, O Argentino“. Filme honesto e esforço cinematograficamente estimulante, o realizador Steven Soderbergh é muito cuidadoso na forma como aborda os temas óbvios do filme: os ideiais e a génese de todo o movimento revolucionário cubano e por outro lado os fuzilamentos e a dura disciplina necessária a uma revolução de contornos ideológicos absolutos.

Nos dois pratos da balança, Che Guevara sai no filme claramente beneficiado, sem lugar a excessivos entusiasmos. “O Argentino” (ainda não vi a 2ª parte)é um filme fechado e é um filme deste tempo.Ponto.

É por ter um lado mítificador que Che Guevara se tornou um personagem tão universalmente interessante. No seu ideal pode dar azo a váriadas interpretações. O actor Benício Del Toro dá a Guevara uma versão autêntica daquilo que pode ter sido em vida, dentro da linguagem própria do filme que quer criar dali o seu próprio objecto cinematográfico, mais que um objecto histórico. Benício “acredita” como acreditaria se estivesse ali naquelas circunstancias. Não actua como se acreditasse.

Talvez muitos pensem que o “O Argentino” se fecha um pouco num certo vazio e não tenha o corpo e a dimensão que o acontecimento da Revolução Cubana pedia. Eu penso que é precisamente aí que está o interesse do filme como cinema: é um filme narrativa sem antes nem depois, apesar de todas as cambalhotas e flashbacks. Existe o que se mostra e daí vamos decompondo o nosso Che Guevara, dentro da guerrilha e nos diferentes “tempos presentes” a sobreporem-se uns aos outros. É narrativamente primorimorosa a forma como vai sendo alternado o Che guerrilheiro, com Che no seu discurso das Nações Unidas para regressar ao Che alfabetizador e por aí fora. Sem ponta de pretensão, seco, cru, fazendo-nos sentir a poeira e sujidade da terra, “Che,O Argentino” é um filme que se sabe pensar a si mesmo. (Continua…)