O Che de Soderbergh (II)

Ao entrar-se na Segunda Parte retoma-se a marcha do filme. Como o regresso a um livro que se tenha interrompido por uns tempos. Centrado directamente na Bolívia e omitindo o fracasso do Congo e as viagens pela Europa comunista, “Che II” volta a pôr Che Guevara no cerne da acção que realmente conta para a vitória e derrota da “Revolución” – a Guerrilha.

Muito falhou na Bolívia. A falta de apoio do Partido Comunista Boliviano, os erros individuais de muitos, incluíndo Che Guevara, que estranhamente não preparou as operações de forma conveniente, confiando numa vaga de fundo que nunca existiu, pelo contrário, da esperança logo se passou para o desespero e martirio. Do Che herói para o Che Martir, como Cristo pregador a Cristo crucificado

O “Che” de Soderbergh tal como “Barry Lindon” de Stanley Kubrick, joga com os dois lados de uma imagem. A Luz e a Sombra. O Positivo e o Negativo. A cor a esbater-se no branco final.

Todo o movimento de ascensão de Che Guevara como herói aqui se torna negação vertiginosa. O antigo exército de entusiastas passa a grupo de farrapos humanos. O processo de ascese é superiormente filmado com a imagem suja e a Câmara á mão a dar a noção do real desconforto, a encerrar-nos no Mato. Dolorosa e sofridamente vamos partilhando a mesma poeira da guerrilha. Com o Céu e o Inferno lá dentro.