O Casamento, A Televisão e o Desvario

Hoje pela manhã ao ligar a TV fui saudado – afrontado? – pelas imagens e principalmente pelas declarações dos apresentadores de um programa, falando do casamento do príncipe William com a plebeia Kate

Durante a matéria fui exposto, melhor, me expus voluntária e corajosamente a expressões, digamos, “superlativíssimas” como por exemplo: o casamento do século! – o evento do século!

Cáspola!

O século está apenas começando, tem só 10 aninhos de vida e já decretaram com uma capacidade de clarividência portentosa, que o evento desta manhã irá superar todos os outros que se seguirão no futuro!

Ou seja, serão noventa anos de uma chatice tremenda, por isso quem quiser morrer a partir de amanhã, pode fazê-lo sem susto, sem medo de estar perdendo alguma coisa de real importância ou de importância Real. Está aberta a longa temporada de suicídios por monotonia.

Entre tantos exageros e desvarios televisivos uma expressão particular me chamou a atenção, e é:

A cerimônia veste-se de glamour!

Veste-se de glamour? Como é isso?

Quer dizer, a tal da cerimônia vai lá num guarda-roupa imenso, gigantesco e começa a escolher a roupa mais adaptada ao momento:

veste-se de pobreza? Não.

Veste-se de humildade? Se ainda fosse o Ghandi.

Veste-se de ódio? Ela não é um Hitler.

Veste-se de pompa? Tamos chegando lá!

Veste-se de piedade? Não é irmã Dulce.

Ah!, achou: VESTE-SE DE GLAMOUR!

E assim a tal da cerimônia endossa o vestido com ranço de naftalina, escândalos e anacronismos e vai encantar o populacho – tem bobo pra tudo nesse mundo!

Uma outra expressão bastante significativa e delirante da cobertura da TV é:

Todas as mulheres do mundo irão copiar o vestido da princesa!

Eis o vestido

Todas? Todas mesmo? Até minha mulher? Ô carambeira, vou ter que casar, pois para que serve um vestido de noiva sem casamento?

Fico imaginando uma nepalesa equilibrando-se nas bordas dos abismos, nos caminhos estreitos e vertiginosos do país montanhoso vestida de princesa inglesa.

Ou uma negra que nos confins das savanas africanas, corre desesperada tentando fugir de um leão faminto ou sendo devorada por ele enquanto o sangue da infeliz mulher macula para sempre a brancura do vestido real.

E uma índia? Imagine uma índia, mulher do pajé, fazendo greve de sexo se o pobre pataxó não for na cidade comprar uma versão paraguaia (ou chinesa) do vestido da princesinha inglesa. Num tem vestido, num tem nheco-nheco!

Será que todas as mulheres do mundo além de copiarem o tal vestido não irão também copiar os costumes ou a regras que serão impostas à princesa?

Que tal isso, mulherada:

1 – andar sempre dois passos atrás do marido;

2 – não poder chorar em público;

3 – não poder usar cabelos soltos, esvoaçantes;

4 – não poder trabalhar.

Isso dentre tantas outras obrigações que desconheço e que restituiriam os anos de glória a nós, pobres homens indefesos.

Enquanto escrevo este artigo, deu-se o beijo real na sacada de um prédio lá deles. Lá embaixo, a praça trabucava de gentes que acenavam bandeirinhas

A bitoca real

e gritavam.. A família real reunida (Ê cacófato!) e o beijo… um selinho de nada, uma bitoca casta (cacófato de novo!) enquanto os súditos gritavam num gozo coletivo, uma catarse televisiva, um ponto de encontro, a convergência das ilusões dos contos de fadas.

Antes, o povaréu agitava as bandeirinhas azul-vermelha-branca enquanto o cortejo passava. Esbabacados, ansiosos por verem ao vivo e a cores o jovem de sangue real por nascença e a jovem de sangue vermelho que, num passe de mágica, ganhou coloração azulada.

Pois é, dezenas e dezenas de séculos acumulados, milênios de evolução depois e o ser humano continua buscando algo superior a si – um deus ou um rei, não importa – como ponto de referência e de reverência.

Não lhe basta a própria existência, seu mundo definido e determinado pela realidade em que vive mergulhado. Suas coisas exatas, seus pontos de contatos e ancoragens ao senso comum.

Busca-se ou inventa-se algo que os tire de seu mundinho e os lance nas infinitas possibilidades e alucinações da cerimônia real ou qualquer outra coisa que o valha – como o endeusamento aos jogadores de futebol, por exemplo.

É por isso que o casamento do século, evento maior dos próximos 90 anos, veste-se de glamour!

Ê mundo besta, bom Deus!