O Capital

O sistema financeiro não consegue manter-se estável indefinidamente, necessita ciclicamente de uma regulação externa por parte do estado mesmo que diga enfaticamente o contrário, e os detentores do Capital sabem disso, contudo por uma questão de posicionamento filosófico não podem em hipótese alguma admitir.

As pessoas não compreendem que no cenário mundial existem vários atores, alguns são melhores do que os outros, O Capital é um ator super experimentado e ético, sua atuação sempre é condizente com os seus interesses, não importa sob que situações ele sempre permanecerá fiel ao seu roteiro, mesmo diante de guerras, o flagelo da fome e a devastação ambiental ele seguirá firme ao seu único objetivo que é o de gerar e acumular riquezas, mesmo que essas riquezas realmente não existam, melhor explicando, O Capital nasceu de modo natural e desenvolveu-se tanto que no plano real não comporta mais o seu tamanho e por essa razão se viu obrigado a transpor para o irreal, essa era a única maneira de continuar a crescer na mesma proporção. O Capital se viu obrigado a enveredar no campo imaterial ou filosófico onde valores não concretos poderiam ser explorados.

No plano concreto tudo pode ser mensurado, se pode ser medido necessariamente terá um início e um fim, só que as expectativas são ilimitadas enquanto que os bens materiais são limitados por capacidades físicas de produção, diante desse dilema a solução foi criar um dimensionamento irreal, onde os valores concretos teriam outro valor agregado que possibilitaria sua valorização de forma exponencial desde que os demais atores aceitassem, mecanismos especulativos foram criados para fortalecer essa valorização que não necessariamente encontra lastro em nada de concreto. Os valores monetários não representam efetivamente um décimo do que realmente valem, as grandes somas que são dificilmente assimiladas matematicamente não existem, tudo é subjetivo e só podem ser aceitas se a maioria das pessoas simplesmente acreditarem, o sistema financeiro está assentado em uma única base, a confiança.

Acredito que todos já devam ter ouvido falar da economia real e na outra que chamam de financeira, mas que na verdade é simplesmente irreal, efetivamente não existe e ciclicamente assolam crises financeiras que se originam no aumento do tamanho da parte irreal que deve ser alimentada por questões subjetivas, às pessoas necessitam em acreditar em algo que realmente não existe e quando essa fé é abalada os mercados entram em colapso, possuo um amigo economista que certa vez me disse em tom de brincadeira que o excessivo número de siglas e do uso de um vocabulário bem peculiar comum a todos os economistas não importando a nacionalidade, tinha por objetivo camuflar e tornar inacessível a maioria a grande verdade econômica, é tudo irreal, ou melhor dizendo, é tudo uma grande mentira, essas somas financeiras que os bancos possuem não são verdadeiras, as grandes empresas não geram tanto o quanto apregoam, os preços das coisas se relacionados com o custo de fabricação e o valor tecnológico agregado não são verdadeiros, existe uma construção de valores onde o Capital impõe de forma implacável e auxiliado pelo uso agressivo de todas as mídias o preço, esse conceito de valor pode ser melhor compreendido quando usamos a arte no sentido comercial da palavra, um quadro avaliado em cinco milhões de dólares, por exemplo, esse valor é fruto de uma construção restrita no campo intelectual, na prática ele não possui esse valor, mas efetivamente possui pelo fato da maioria das pessoas influentes creditarem e acreditarem nisso, um Monet (22) ser capaz de alimentar 100.000 pessoas na África durante um ano em sua opinião é real ou irreal? O que faz um diamante valer tanto? Como pode uma vasta área verde na Amazônia, cortada por maravilhosas paisagens de rios com cachoeiras e árvores lindíssimas “valer” digamos uns cem mil dólares? O valor existe pelo fato de acreditarmos nele, e O Capital usa de todos os seus recursos para avalizar essa idéia, as ações na bolsa não representam o valor que é apregoado, é tudo da economia irreal ou mentirosa se você achar melhor, as leis fundamentais da economia que nos primórdios estabeleciam o valor das coisas baseados na oferta e procura não satisfazem mais os interesses do Capital, e a crise faz parte do capitalismo, e funciona como um regulador para que o real e o irreal não fiquem tão distantes. Ao contrário do que a maioria pensa a culpa não é do Capital e sim dos outros atores que não desempenham bem o seu papel e o pior é que a maioria nem o conhece, lembra de Esopo e suas fabulas como a do escorpião e a rã, a mesma coisa é O Capital ele não pode fugir de sua natureza.

A especulação econômica é uma das maneiras encontrada para burlar uma das leis fundamentais da economia que é o princípio que todo feirante sabe, se a procura for maior do que o bem ofertado o seu preço aumenta e o se a oferta é abundante o preço despenca, não estamos no século XIX quando era possível comprar grandes quantidades de produto, estocar e provocar artificialmente a sua procura, ou disponibilizar altas somas de recursos para que fosse possível a queima de sacas de café na tentativa de aumentar o seu preço, note no que isso significa o bem perde o seu valor e a única forma de valorizá-lo é destruindo-o, ora se ele pode ser destruído é por não ser de real importância, não é lógico que algo que exista tenha que deixar de existir para que tenha valor, mas o Capital conseguiu impor essa irracionalidade, e atualmente transformou o café em uma importante commodities consumido em todo o mundo, mas nos dias de hoje os níveis de produção não permitem que ocorra, então o que o Capital teve que fazer para conseguir regular o preço da saca e especular sem ter que queimar milhões de sacas e arrancar milhões de pés de café, a resposta é bem mais simples do que a maioria das pessoas imaginam, basta que o Capital alimente incertezas no mundo real através do que não é real, melhor dizendo, a economia real submete-se diante da economia financeira, se um banco simplesmente decidir que o crédito concedido ao plantio de determinada commodities terá taxas mais atraentes que outras ele estará valorizando uma em detrimento de outra e essa atitude permite que interesses exclusivamente econômicos regulem a oferta de produtos e por conseqüência o seu preço, qualquer pessoa que detenha essa informação e possua credibilidade junto ao Mercado poderá aproveitar dessa informação e lucrar, e tratando-se de produtos agrícolas acrescente que previsões ou fatos sobre o clima de determinada região possibilitam que oscilações de preços ocorram, isso tudo colabora para que o mercado especule e tente lucrar sobre algo inexistente ou sobre uma possibilidade, como podem ser definidas as projeções dos resultados de safras que ainda nem foram colhidas . E é tudo tão subjetivo que bolsas de mercados futuros fecham negócios sobre bens que nem foram produzidos, o que isso tudo significa é que há mais oferta de capital do que bens. Como pode a representação simbólica de um bem possuir um valor maior do que o próprio bem? Ora essa resposta não pode ser respondida no campo da racionalidade, pois o valor monetário necessariamente deve estar atrelado a algum lastro, se há tanta oferta de capital ao ponto de ser possível a negociação de bens que ainda nem existem significa obviamente que as moedas não possuem qualquer valor de fato, mas milagrosamente as pessoas acreditam nelas e através delas o plantio, a produção e todos os financiamentos são mantidos, fazendo que o mercado seja regulado por moedas cujo valor não pode ser efetivamente mensurado e mesmo assim são capazes de determinar todo o ordenamento das cadeias produtivas. O estado precisa desempenhar bem o seu papel que da mesma forma do Capital é bem definido, só que existe um detalhe entre os papéis, ao contrário do Capital o estado é um ator coadjuvante.

Cabe ao estado garantir que o espetáculo continue, mediando o relacionamento entre os protagonistas que são O Capital e a Sociedade, é necessário que o estado atue em certas áreas exercendo o monopólio, em outras garanta a atuação do Capital, mas sempre tendo a sociedade como foco, afinal trata-se da maioria e da grande estrela do espetáculo. A pior falha de um estado é quando por omissão, ele possibilita que uma parte do segmento da nação explore demasiadamente outra, e por outro lado os recursos não podem ser socializados como se essa artificialidade fosse capaz de proporcionar o bem comum, com certeza isso é irreal, e o estado não pode servir aos interesses do Capital em detrimento dos anseios da maioria, a centralização da renda não deve ser combatida diretamente, e sim destruirmos os mecanismos que artificialmente a promove, esse ajuste fino é o que diferencia os bons dos maus governos. A ingerência do estado constitui um mecanismo importante na manutenção do equilíbrio social, o Capital ao longo dos anos sabe que naturalmente se verá obrigado a valer-se dos governos para a manutenção de sua estrutura, a sociedade por sua vez deve estar atenta para as situações onde o estado deva atuar com exclusividade para também promover a manutenção de todo o sistema, as áreas da educação, saúde, defesa territorial e do meio ambiente e também o controle sobre as mídias no sentido de buscar a preservação do país devem ser encaradas de maneira mais concreta, sem que rompantes apaixonados sejam fatores que inflam os ânimos da intolerância. Com cada ator ciente de suas obrigações o sucesso do espetáculo será garantido.

Gostaria agora de exemplificar para que possa visualizar de maneira mais clara tudo o que disse. Segundo o índice divulgado pelo o IBGE e pela Bovespa (23) o valor de mercado da Petrobras e da Vale superam o PIB de maior parte dos estados e do Distrito Federal, para ser mais preciso supera 23 estados e o DF, apenas São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul possuem PIBs maiores, agora vejamos a Petrobras onde o seu valor de mercado em 2005 era de R$173,583 bilhões, esse valor é o que mercado avaliou a estatal enquanto que o PIB do Rio Grande do Sul era avaliado em R$144,344 bilhões, ora poderia argumentar que a comparação é completamente absurda e o embasamento dessa afirmação resumi-se no fato de que se algum dia você tiver o privilégio de conhecer a Serra Gaúcha, com suas paisagens exuberantes, com seus desfiladeiros e tudo o que a natureza foi capaz de formar em milhares de anos saiba que essa região continuará existindo mesmo após a extinção de toda a raça humana, e posso assegurar que mesmo antes daqui a algumas dezenas de anos com a extinção da Petrobras a Serra Gaúcha continuará lá, firme e imponente. Se você conseguir me dar um argumento melhor do que esse que possa embasar essa relação de valor, por favor, sinta-se a vontade. Mas antes preste atenção em algumas questões que vou suscitar, esses índices correspondem ao ano de 2005 período em que a China consumiu toneladas e mais toneladas de óleo para manter alta a sua espetacular produção industrial, só que o gigante correu muito e agora nesse final de 2008 e início de 2009 já demonstra claros sinais de cansaço, isso não significa que ele vai parar para descansar, mas substituirá uma frenética corrida por uma suave caminhada e por conseqüência o valor do barril de petróleo que em vários momentos superou a casa dos US$ 100,00 hoje já acena com modestos US$ 58,32 e se as previsões sobre a fraca demanda se confirmarem é bem provável que chegue a menos de US$ 50,00, enquanto que a Serra Gaúcha continuará lá majestosa a Petrobrás amargará prejuízos e sofrerá com a sua desvalorização.
Nesse ano de 2008 um fato monopolizou o mercado financeiro brasileiro como sendo o maior negócio já realizado da história do Brasil, refiro-me a fusão de dois gigantes, o Itaú e o Unibanco, que segundo foi noticiado possibilitou o surgimento do 14º maior banco do planeta. Isso tudo não me diz nada a única coisa que me aborrece e uma vez ou outra ser surpreendido pela propaganda veiculada nos meios de comunicação dessa nova instituição, onde parecem gostar de vangloriar sobre a sua “competência” administrativa como sendo o agente que proporcionou toda essa pujança econômica. Essa propaganda é avalizada por todos os formadores de opinião e nenhuma voz com influencia vem a público falar algumas verdades. Sim, essa instituição é uma das maiores do mundo, mas carrega em sua origem nódoas que em um país onde se a seriedade fizesse parte da ordem do dia no mínimo uma investigação rigorosa essas instituições já deveriam ter sido submetidas a muito tempo. Os bancos Itaú e Unibanco possuem algumas semelhanças interessantes que talvez possa explicar toda a “genialidade” de seus executivos, que é uma próxima relação com o poder, o que em outros paises seria objeto de investigação no nosso, infelizmente, não dá nem notícia. Um dos patriarcas do Banco Itaú foi o Sr. Olavo Setúbal além de prefeito biônico da Cidade de São Paulo e Ministro das Relações Exteriores ambos os cargos no período do regime de exceção, sempre teve livre transito nos governos brasileiros e após anos de fortalecimento financeiro apoiados em benesses governamentais é claro que hoje essa presença não necessite mais de ser diretamente exercida. O Unibanco a mesma coisa, também um de seus patriarcas, o Sr. Walther Moreira Salles, sempre orbitou no campo gravitacional do governo tendo exercido durante bastante tempo os cargos de embaixador no EUA e acredite se quiser o de Ministro da Fazenda, a última afronta que descarada mente nos foi apresentada por essa instituição foi a nomeação do Sr, Pedro Malan, ex Ministro da Fazenda, para a ocupação de um cargo importante no Conselho que administra o banco. Esses posicionamentos não constituem em crime, mas são totalmente censuráveis sob aspectos éticos.

Mesmo esse gigante financeiro brasileiro não representa no campo do mundo real algo sustentável, seus impressionantes números são fruto de uma política perversa que colabora para um aumento escalar de seus lucros, analisemos os dados veiculados nos jornais, 14º maior banco do planeta, R$ 575,100 bilhões de ativos, R$ 225,300 bilhões em empréstimos, R$235,100 bilhões em depósitos, R$51,7 bilhões de patrimônio líquido, R$113,8 bilhões de valor de mercado e finalmente um lucro de R$ 8,1 bilhões. Agora se o governo aumentasse as taxas que incidem sobre o sistema bancário, reduzisse as taxas de básicas de juros e fiscalizasse com mais rigor as remessas irregulares de valores com toda a certeza esses índices seriam reduzidos em pelo menos 30% e esses bancos seriam obrigados a desempenhar políticas administrativas mais eficazes para garantir a sua sobrevivência, afinal administrar um banco no Brasil não constitui em uma tarefa difícil onde taxas de juros inimagináveis a qualquer cidadão do mundo são aqui praticadas, 9% ao mês creio que nem na Idade Média essas taxas foram aplicadas pelos senhores feudais. E todos os economistas parecem que já se acostumaram com a mediocridade como padrão para a gestão financeira. Quando o país está em processo de crescimento eles aconselham que as taxas permaneçam altas, para que mais investimentos estrangeiros entrem no Brasil, quando existe uma ameaça de recessão eles também aconselham que as taxas de juros continuem altas, para que o investidor mantenha aqui o capital aplicado e freie o processo inflacionário. Resumindo eles são incompetentes e não conseguem vislumbrar que só fortalecimento interno do nosso sistema financeiro poderá nos levar ao desenvolvimento, a dependência externa em qualquer situação é nociva.