Na marcenaria do Zé Roberto

Zé Roberto era um marceneiro de mão cheia. Aprendeu o ofício quando ainda era novo, com seu pai, conhecido marceneiro da região. Era chamado em todas as obras para providenciar caibros, tesouras de telhados e batentes de portas e janelas. Como era um homem muito paciente – e acreditava no valor do trabalho bem feito -, ensinou o ofício ao filho, que assumiu a marcenaria assim que o pai se aposentou.

Mas uma coisa que Zé Roberto aprendeu pela observação foi que era necessário inovar e profissionalizar o serviço prestado. A marcenaria de seu pai funcionava num galpão nos fundos da casa e isso limitava seu crescimento e a aquisição de novas máquinas – além de não ter espaço para outras pessoas ali com segurança. Este problema ele resolveu depois de seis meses trabalhando muito e juntando todo dinheiro que podia: comprou um galpão maior num endereço perto dali, uma antiga oficina desativada. Limpou o lugar, pintou as paredes e montou estruturas para armazenar madeiras, ferramentas, materiais de consumo e uma pequena mesa que serviria como escritório. Instalou os equipamentos que já tinha, convidou um amigo para entrar em sociedade e trabalharam mais alguns meses até poderem comprar máquinas novas com funções diferentes das que já tinham. Como havia sobrado um pouco do dinheiro, investiram também em uniformes profissionais para profissionalizar ainda mais os serviços daquela microempresa que surgia.

Inovações a todo instante

A-profissionalização-do-serviço-foi-bem-aceita-por-todos.Só de passarem a trabalhar uniformizados, Zé Roberto e seu sócio começaram a ser mais notados. Afinal era coisa que o pai dele nunca havia feito – mesmo porque não trabalhava como pessoa jurídica e, sim, pessoa física – e não achava que isso fosse importante. E com as máquinas novas que faziam cortes e acabamentos diferentes dos que haviam feito até então, novos clientes foram surgindo. Portas e janelas começavam a aparecer com recortes e formatos de acabamento que chamavam muito a atenção e em alguns casos o trabalho era tão bonito que algumas pessoas paravam para ver a porta das casas que ostentavam um dos trabalhos da marcenaria do Zé Roberto.

Com o tempo, os pedidos chegavam e maior número do que ele e seu sócio conseguiam atender e foi necessário aumentar o quadro de funcionários. Contrataram dois logo de cara, um já com vários anos de experiência e outro novato na profissão. Ambos foram treinados para trabalhar com as máquinas novas e – quem diria – o novato se mostrou um exímio artesão de madeira! Em pouco tempo já fazia trabalhos rebuscados em painéis de madeira que iam adornas portas frontais de casarões e mansões. Ele trabalhava apenas com pequenas lixas circulares, talhadeiras e retíficas manuais mas sabia operar as máquinas maiores; assim, podia ajudar nos trabalhos mais volumosos. Quando o ritmo da marcenaria melhorava um pouco, voltava para sua arte.

Proteção a todo instante

Se-arriscar-e-arriscar-a-saúde-dos-outros-não-era-algo-que-Zé-Roberto-aceitasse.O trabalho em marcenaria tinha um porém, e Zé Roberto sabia bem disso: o pó da madeira serrada. Respirar aquele pó fino o dia todo era um perigo para a saúde, além do risco de ferimento dos olhos- o que era um perigo em potencial, já que os trabalhos sempre envolviam serras e outros equipamentos bastante perigosos. Por isso, uma das exigências feitas a todos os funcionários (e disso Zé não abria mão de jeito nenhum) era que os uniformes profissionais de cada um estivessem completos – ou seja, inclusive com os itens de proteção. Luvas grossas de raspa, mangas longas para proteger os braços de farpas lançadas pela serra, óculos de proteção e máscara para evitar respirar o pó. A única exceção era o novato, que não usava luvas para não atrapalhar seu serviço, que era de precisão. Mas estava sempre de óculos e máscara. Zé Roberto fez isso porque se lembrava sempre dos ferimentos que viu seu pai carregar a vida toda por pura teimosia, além das várias corridas ao oftalmologista quando uma farpa acertava seus olhos em cheio. Aliás, foi um desses ferimentos que provocou sua aposentadoria antecipada: perdeu parte da visão de um dos olhos e sua noção de profundidade ficou prejudicada, o que tornou o ofício perigoso.

Em dois anos, a marcenaria de Zé Roberto já estava registrada, com página na internet e uma enorme fila de pedidos. Precisou contratar mais dois marceneiros para os trabalhos mais simples; ele e o sócio ficaram responsáveis pelas portas e janelas; o “ex-novato” agora ficava só no artesanato e seu trabalho ficou tão sofisticado que ele passou a receber comissão sobre os pedidos por peças suas, além do salário. Um administrador e um contador foram contratados para que Zé Roberto pudesse se dedicar totalmente ao seu verdadeiro ofício (mas não perdia nada de vista). A empresa passou por altos e baixos, como toda empresa, mas até hoje se mantém na ativa com todos os funcionários – e a boa fama que seu pai iniciou décadas atrás.