Mobilidade Acadêmica. Oi?

Eu tenho o mau hábito de não ver o tempo passar, ainda que eu perceba as mudanças no mundo conforme ele passa. Comecei com isso lá nos anos 70, quando me formei em Agronomia numa universidade federal que é casca grossa nessa área. Me formei, especializei, casei, trabalhei feito um louco, vieram meus filhos – que me puseram louco de vez – e eis-me aqui, aos sessenta e poucos anos, vendo meus meninos batalharem numa federal. Na minha época, a gente entrava na universidade prestando o vestibular (e olha, quando a gente passava, eram três dias de festa em casa). Agora não: meus filhos entraram pelo tal do Enem, Sisu e mais umas siglas que eu, sinceramente, não acompanhei direito como apareceram.

Muitos lugares oferecem Intercâmbio

            Muitos lugares oferecem Intercâmbio

Quando eu era estudante, não haviam muitas opções de intercâmbio; a gente, no máximo, ia participar de um congresso de vez em quando, um treinamento… mas essas facilidades de hoje? Nem nos nossos sonhos mais dourados. E um dia desses, meu filho mais velho veio me falar que “tava rolando uma vaga de mobilidade acadêmica lá na facul” (sic). Ah, gente, eu já estou mais velho… imagine se consegui entender o que ele disse?? Claro que não. Precisei que ele me explicasse. “Intercâmbio, pai, intercâmbio”. Aí sim eu entendi. Mas, poxa, na minha época, quando aparecia alguma coisa do tipo, era caríssimo! Mas nos dias de hoje, eu não faço a menor ideia de quanto custa um intercambio – e pra ser bem sincero, eu tinha até medo de fazer essa pergunta. Foi uma conversa com mais conteúdo do que eu estava esperando…

Quando os mais jovens ensinam

Quando nos tornamos pais é que entendemos o que é manter uma casa, uma vida de uma família composta por várias pessoas diferentes. Quando somos jovens, não temos noção disso, mesmo quando pensamos que temos. A realidade é muito mais pesada do que se imagina, muito mais. Então, quando essa conversa começou, meu filho tinha estrelas nos olhos, mas eu tinha uma caldeira escura de preocupações e dúvidas a respeito. A começar pelo nome da coisa, que no meu tempo era só “intercâmbio”, e não a tal da “mobilidade acadêmica”. E perguntei: “Ok, mas quanto custa um intercâmbio hoje em dia?”.

Sandro se sentou ao meu lado no sofá e ele só faz isso quando a conversa é séria. Até me endireitei.

“- Então, pai…” (uma dica pra vocês: quando a resposta começa com “então”, pode saber que lá vem bomba)

– “Essa mob… intercâmbio é quase todo bancado pela instituição que vai receber os alunos. É uma instituição de pesquisa lá na Espanha. Os alunos selecionados pela facul daqui vão ser só três, e a instituição de lá vai pagar a viagem, o alojamento e a manutenção deles”.

– Manutenção? Como assim?

– “Isso eu ainda não vi, acho que é alimentação. Mas de todo jeito, os alunos só vão ter que pagar o passaporte e os documentos que pedirem pra esse intercâmbio. Vão ser três meses, é rapidinho”.

Quando o tiro erra o alvo

Confesso que achei a ideia interessante, pois com a viagem sendo arcada na maior parte pela instituição espanhola, realmente ficava ao nosso alcance – e de fato, três meses era pouca coisa – minha mulher daria conta de ficar sem o grude dela por esse tempo. Eu acho. Consenti que ele buscasse mais informações, principalmente sobre a tal “manutenção”.

Infelizmente Sandro não pôde ir por um detalhe: o coeficiente das notas dele, que por muito pouco, não foram suficientes. Assim, nem indicado como possível candidato ele pôde ser. Mas haviam outras oportunidades em andamento, e novas surgiriam nos meses seguintes. Numa dessas, quem sabe, ele conseguiria entrar?