Mistério na Noite

O som do grito varou a noite invadindo o silêncio das casas mergulhadas em sono profundo. Era agudo e gutural, feminino, sem dúvida. A primeira a levantar e correr até a janela foi Maria Lucia. Olhou para a rua e viu uma luz acesa na casa em frente. Havia uma sombra passando pela janela, mas o grito havia cessado. Lamentou o fato de Homero, seu marido, estar viajando justo nessa noite.

Era a casa de Dalva, jovem costureira que para ali se mudara há mais ou menos sete meses. Estranhou o fato de somente ela ter aberto a janela, a rua permanecia deserta e silenciosa. Fixou a visão no vitrô da sala do outro lado da rua. A sombra continuava se movimentando. Pareceu por um momento ouvir um gemido que a ela chegava baixo, mas poderia ser algo sério. Resolveu ligar para a policia. Não poderia simplesmente invadir a casa da moça que mal conhecia. E se invadisse? O que faria? Tinha medo de ligar para lá e piorar a situação que já parecia bem séria. Desejou muito que houvessem aparecido outros vizinhos, com mais pessoas seria mais fácil chegar a uma conclusão sobre o que fazer. – Bem, ninguém apareceu, então ligaria para a policia, tinha anotado o número da delegacia  para qualquer emergência. – Que droga! – o telefone estava sem linha. E se gritasse também? Bobagem, não resolveria nada. Nesse momento o grito se repetiu mais alto e mais sofrido.

Maria Lucia correu para a rua, tinha que fazer algo, olhou para todos os lados. Ninguém. Não havia remédio, tinha que tomar uma atitude,  – Seja o que Deus quiser! Benzeu-se, atravessou a rua e invadiu a casa da moça  correndo direto para a sala. Visão dantesca. Dalva estava caída no chão no meio de uma poça de sangue. Em pé, pisando na massa sanguinolenta, Homero, seu marido. Sem camisa segurando uma enorme faca olhou-a com ódio. – O que está fazendo aqui meu amor?  Ela deu dois passos para trás antes de começar a gritar. Homero avançava para ela, ameaçador. Fechou os olhos sem parar de gritar – Era isso que precisava saber meu amor? Acorda amor! Não sou quem você pensava! Acorda! Abriu os olhos. Homero estava a sua frente, o rosto quase encostado ao seu. – Outro pesadelo, amor?