Mary de Abel Ferrara

“Mary” é um bom filme, muito à Abel Ferrara, de quem gosto muito. Mesmo dos falhanços absolutos, como “New Rose Hotel”. Mary é um filme de uma honestidade desarmante, apesar de ser mais “parcial” que outros filmes do autor. Mesmo assim a mensagem de “Mary” é deixada tão ao de leve e de forma tão ténue, que passa despercebida – o catolicismo como uma possivel cura para o caos dos nossos dias. Mais por sugestão, por um think for yourselves, é um catolicismo tão velado e escondido que apenas se pode vislumbrar a espaços no filme. É o contrario de toda a furia cheia de respostas de “Códigos da Vinci” e afins.

Ferrara não cede um ponto na sua estética. Sabe onde colocar a câmara. Pode (é dos poucos…) tocar desafinado sem que perca a sua própria respiração. Pode porque sabe, mas só o revela a espaços, daí a sua força, daí o seu mistério.”Mary” é um Ferrara mais apaziguado consigo próprio, como já se viu em “R Xmas”, mas as imagens de força do autor vivem sempre dentro do plano. Na forma como filma Nova Iorque, silenciosa como um deserto, quase mística, no personagem idiossincrático de Matthew Modine, num Forrest Whitaker em convulsão consigo próprio, na presença sublime de Juliette Binoche.

Ferrara deixa tudo a pairar no ar, não conduz a história a uma meta definida. Prefere jogar com o estilo e com uma auto-sugestão mentalmente muito elaborada. Há quem não goste ou até o ridicularize, mas quem percebe este universo pessoal e complexo está sempre a postos para mais e mais momentos Ferrarianos. I mean it.