Maré de Azar

Tem gente que parece ter nascido com o traseiro apontando pra lua. Tem uma facilidade enorme nos estudos, passa no vestibular fácil, logo arruma um excelente emprego, acha uma boa companhia pra vida, se casa, tem filhos lindos, uma casa maravilhosa, viaja pra caramba… Não é? Rapidinho encaixa a vida nos sonhos que tinha e fica tranquilo. Aí eu paro de observar a vida dessas criaturas e passo a olhar pra minha. Eu não sei que parte do meu corpo saiu primeiro da minha mãe, mas imagino que tenham me puxado pelas orelhas, de abano. Fiz uma cirurgia há poucos meses pra corrigir, porque a zoeira – você pode imaginar – era terrível. Homem com orelha de abano escuta umas piadas, mas passa. E mulher?? Ainda mais uma que tenha cabelos mais lisos que qualquer elfo por aí? As minhas orelhas ficavam aparecendo por entre os fios, de tão pronunciadas que eram. E se eu prendesse o cabelo pra isso parar, ficava parecida com o Dumbo. Mas se eu soubesse que esse seria meu primeiro problema grande pra resolver…

Paletes e sua diversidade de uso.

Paletes e sua diversidade de uso.

 Estudar nunca foi problema pra mim, mas passar no vestibular foi. Levei três anos até conseguir passar em Biologia, numa federal. Minha intenção era se especializar em Biologia Marinha e logo depois entrar pro projeto Tamar, um sonho antigo. Mas calma, que ainda nem comecei a contar a história. Entrei pra Biologia, mas numa federal que ficava em outra cidade; logo, precisaria me mudar. Nunca gostei de casa cheia, então abri mão das repúblicas e fui morar numa quitinete alugada. Móveis? Não tinha nenhum, só um colchão que já tinha alguns anos. Vi uma loja de tintas vendendo uns paletes usados e comprei quatro: dois pra servir de cama, dois pra usar como sofá (joguei umas almofadas por cima). Fogão e geladeira comprei usados mesmo; não estavam muito bonitos mas funcionavam bem. No mês seguinte comprei uma estante (usada também) que parecia estar em ordem, pra colocar meus materiais de estudo e minha televisãozinha de 14 polegadas. Nada de mesa ou cadeiras.

 Tudo parecia bem

 Os meses se passaram daquele mesmo jeitinho: meu pequeno quartel-general montado na base do improviso mas funcionando bem, aulas o dia todo, umas saídas com os colegas de vez em quando, xingamento de professores… enfim, todas essas coisas que regam os dias dos universitários e os mantém focados em sua existência acadêmica. Até um rolinho eu arrumei! Coisa de duas ou três festas, só, nada de sério – até porque, namoro sério àquelas alturas só iria me atrapalhar, e eu já tinha complicações mais do que suficientes pra lidar. Mal sabia eu…

 Nas férias do segundo ano do curso, fui pra casa dos meus pais e passei uns dois meses lá (férias de Natal, essa bênção). Quando voltei, mal sabia o que me esperava.

Palete, uma boa atitude para economizar.

Palete, uma boa atitude para economizar.

 Quando cheguei em “casa”, vi uns montinhos de poeira grossa em vários cantos da tal estante que comprei, porque parecia boa. Cupins. Dei uma boa olhada em todas as partes e achei vários furinhos em praticamente todas elas. Mas pensei: “bom, tá no início, ainda deve dar pra usar bastante tempo”. E deixei. Mas quando me sentei no meu sofá improvisado com paletes, que ficava ao lado da estante, vi que tinha cupim nele também, além de traças furando algumas almofadas. Ok, aí eu comecei a ficar aborrecida, mesmo. Minha sala estava ficando ferrada por causa dos cupins e das traças. A casa ficou fechada muito tempo e a umidade convidou essas pragas pra entrar.

 Pensa que acabou?

 Fui à universidade organizar minha grade do semestre e descobri que numa disciplina do semestre anterior eu havia sido reprovada, porque o professor não lançou a nota do trabalho final que fiz. Lá vou eu atrás do dito cujo, que nem lembrava mais se tinha lançado ou não. Foram dois dias pra resolver isso, e mais um processo acadêmico pra regularizarem minha situação (como as notas já tinham sido fechadas, corrigir esse tipo de problema é mais complicado). Depois de muita labuta, voltei exausta pra casa – e a prateleira mais alta da estante quebrou quando coloquei meus livros sobre ela, caindo justo em cima da minha televisão na prateleira debaixo. Ótimo.

 Depois que meus vizinhos conseguiram me fazer parar de gritar de raiva, me ajudaram a desmontar a estante e a levá-la pra fora. Por sorte, só um palete do sofá tinha sido atacado pelos cupins, então só precisei trocar um, mesmo. Mas fiquei sem estante por vários meses por falta de grana. E sem TV pelo mesmo motivo.

 Agora tô procurando uma benzedeira! Conhece alguma?