“Mamãe, eu queeero viajaaar”

Foi assim que minha filha começou a conversa sobre intercâmbio dela comigo: parodiando uma musiquinha dos Trapalhões (aquela que dizia “Ô, paai, eu quero me casa-aar”, cantada pelo Zacarias). Eu estava atolada em uma pilha e meia de relatórios de pesquisa pra ler, analisar e pontuar; só dei uma olhada de canto de olho pra porta. Lá estava ela. Eliza. Dezessete anos. As mãos atrás do corpo, os pés unidos e balançando pra frente e pra trás, igualzinho o personagem do Zacarias. Sorria sem mostrar os dentes, como se estivesse aprontando alguma coisa. A única coisa que eu disse (melhor: morrinhei) foi: “hum”.

Foi o bastante pra ela entrar no meu quarto e vir pulando feito filhote de cabrito até minha escrivaninha. Ah, meu Deus, porque o marido nunca está em casa nessa hora? Eu passaria essa conversa pra ele, ele resolveria e eu não seria interrompida! Mas nãaao… tinha que ir à farmácia comprar meus remédios pra pressão. Bom… pensando bem… Mas enfim. Eliza parou ao lado da escrivaninha e perguntou: “Mão, quanto custa um intercâmbio? É muito caro?”. Ah, pronto, ela queria fazer intercâmbio! Fiquei tentando imaginar qual coleguinha de faculdade meteu essa ideia na cabecinha dela!

Conhecendo novos lugares, através do intercâmbio

Conhecendo novos lugares, através do intercâmbio

Coreia do Norte?? Há!!

A faculdade, de fato, tem feito alguns anúncios de intercâmbios. Desde que a diretoria mudou, os novos gestores, mais jovens e visionários, passaram a incentivar esse tipo de experiência, para dar aos alunos uma visão de mundo mais ampla do que o conhecimento passado pela televisão e por algumas aulinhas teóricas. Vivenciar a coisa na prática sempre foi mais contundente, e com isso eu tinha que concordar. Incentivava meus filhos a essas vivências. Mas pra ser sincera, eu não fazia a menor ideia de quanto custa um intercâmbio pra onde quer que fosse, afinal nunca tinha participado de um. E enquanto eu pensava nessas coisas, perguntei pra onde ela queria ir. Aí ela falou. “Coréia do Norte, mãe. O que acha?”.

Um mundo de oportunidades para aprender e conhecer novas culturas

Um mundo de oportunidades para aprender e conhecer novas culturas

Não cheguei a cair da cadeira, mas a caneta voou longe. Coreia do Norte? Eu tinha escutado direito?? Pior que tinha. “Filha… você deve ter lido errado o cartaz… A Coreia do Norte é fechadíssima, não tem condição alguém ter conseguido convencer o governo de lá a ceder vagas de estágio assim!”, falei a ela. “Não é Coreia do SUL?”. “Não, mãe, é a do Norte, mesmo. Mas o estágio não é pela universidade de lá, é por uma multinacional que atua aqui e lá também”.

De fato. Eliza sempre teve interesse em mecânica de todo tipo e acabou fazendo vestibular (nossa, que coisa velha) pra Engenharia Mecânica – e tem, mesmo, uma montadora na nossa cidade com sede lá na danada da Coreia do Norte. Suspirei fundo. “Vou conversar com seu pai”. Eliza sai pulando do meu quarto, se fecha no quarto e ainda a escutei falar com algum colega ao telefone: “Acho que vai rolar! Acho que vai rolar!”. Meu Deus…

Senta, que lá vem história…

Tentei concentrar de novo na correção dos projetos, mas a verdade é que aquela conversa de poucos segundos me tirou do prumo completamente. O que se sabe sobre o que há dentro dos portões da fechada Coreia do Norte é pouco, e o que o mundo tem aprendido é que o governante de lá pode ser impulsivo, extremista e volátil. Ele pode abrir ou fechar as fronteiras a seu bel prazer como se o mundo fosse seu quintal, com seus animais que ele escolhe deixar sair ou não.

Quando meu marido chegou, sentamos pra conversar sobre a ideia. Antes de qualquer coisa, ele perguntou “quanto custa um intercâmbio pra Coreia do Norte?”. “Minha saúde mental, com certeza. Mas em valores financeiros, não faço ideia”, respondi. Brincadeiras à parte, a ideia era incômoda – tão incômoda que não permitimos que Eliza fosse. Mas a incentivamos a buscar informações sobre intercâmbio para países mais amigáveis, pois certamente existiam vagas em vários outros lugares.

Claro que ela protestou – e só então fiquei sabendo que ela queria ir porque uma colega (a tal do telefone) estava tentando ir também. Tentando, porque os pais dela também não permitiram, no final.