Literatura Infantil auxilia na Alfabetização

Literatura Infantil auxilia na Alfabetização

A literatura infantil encontra suas origens na Novelística Popular Medieval, a qual tem seus primeiros registros na Índia. No entanto, a literatura infantil apenas constitui-se como gênero durante o século XVII, época em que as mudanças na estrutura social desencadearam repercussões também no âmbito artístico.

Quanto ao Brasil, segundo Nelly Novaes Coelho (1983), devemos tomar a obra de José Bento Monteiro Lobato como um marco na literatura infantil nacional.

Como a literatura infantil prescinde do imaginário das crianças, sua importância se dá a partir do momento em que elas tomam contato oralmente com as historias, e não somente quando se tornam leitores. Desde muito cedo, então, a literatura torna-se uma ponte entre a história e imaginação, já que “é ouvido histórias que se pode sentir… e enxergar com os olhos do imaginário… abrir as portas à compreender do mundo”.

Justamente por isso o uso da literatura infantil como parte integrante do processo de alfabetização é muito importante, e tal importância e uso são crescente na educação formal brasileira. Isso porque a educação contemporânea prevê que, unindo-se literatura e alfabetização, a criança entraria em contato com o mundo letrado não só ampliando seu vocabulário e proporcionando maior conhecimento da formação de textos, mas também exercitando o poder de sua imaginação.

Segundo Maria Solange Millis Romani, pedagoga da UFSC, não haveria aspectos negativos na utilização da literatura infantil no período da alfabetização. Ao contrario, esta deveria ser tomada como mais um instrumento facilitador de aprendizagem, mesmo antes de criança aprender a ler. Ouvir histórias e manusear os livros seria, assim, muito importante para o aprendizado da criança e para o exercício de suas competências imaginativas.

Ainda, segundo Magda Soares (apud Evangelista, 2001), as relações existentes entre o processo de escolarização e a literatura infantil podem ser interpretadas em duas perspectivas: em uma primeira perspectiva, tais relações estariam na apropriação, pela escola da literatura infantil; ou seja, haveria uma literatura que seria destinada à escolarização, ou da qual a escola lança mão para incorporá-la ás suas atividades de ensino  e aprendizagem, fazendo dela uma literatura escolarizada.

Numa outra perspectiva, a conjugação entre literatura infantil e alfabetização é interpretada como sendo produção, para a escola, de uma literatura destinada às crianças, ou seja, abrangeria não só a leitura, mas também o processo pelo qual a literatura é produzida para a escola, para os objetivos da escola, para ser consumida na escola, para clientela escolar, buscando literalizar a escolarização infantil.

No entanto, nenhuma destas duas perspectivas leva em consideração o fato de também as crianças produzirem textos, também elas serem escritores incitados pelo que lêem; produtores, enfim, de historias. Devemos, pois, pensar na relação entre alfabetização e literatura como algo mais amplo e abrangente, já que nesta afinidade, ambas, literatura e alfabetização, são modificadas e recriadas.

Observando a obra “A Psicogênese da Língua escrita” (1999), de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, vemos que não há indicações precisas de como produzir o ensino para a alfabetização, já que esta metodologia é estruturada em torno dos princípios que organizam a prática do professor. Porém, um desses princípios é o fato de a criança aprender a ler e escrever lendo e escrevendo, mesmo sem saber ainda exatamente como tais processos se realizam e se encaminham.

Com isso, poderíamos prever que, quando usamos a literatura para ensinar a escrever, além de tornarmos o processo mais lúdico e significativo, também fazemos os alunos produzirem textos e, assim, melhoramos a própria produção de histórias.

Isso porque a literatura, quando usada como suporte pedagógico para a alfabetização, a engrandecer e é engrandecida por ela.

A intencionalidade da atuação de um professor com o intuito de promover a alfabetização no ambiente escolar, usufruindo da literatura infantil, deveria ser de agir de forma a disponibilizar o lúdico e o significativo para os alunos através da literatura. Isto sem, no entanto, usá-la como artifício ou simples pretextos para ensinar ortografia ou gramática.

Enfim, a alfabetização, em conjunto com a literatura, tem o potencial de se tornar mais acessível e lúdica, enquanto a literatura, em conjunto com a alfabetização, poderia se compor como forma de expressão para os alunos.

O CASO DA EMEF “Antonio Giovani Lanzi” (Mogi Guaçu-SP)

A fim de investigar como literatura infantil e alfabetização estão se entrelaçando no ambiente educacional formal, foi feita uma pesquisa de campo.

Para isso, visitou-se a escola E.M.E.F. “Antonio Giovani Lanzi”, fundada em janeiro de 1973 e situada na cidade de Mogi Guaçu, interior de são Paulo.

Segundo sua diretora, Patrícia Helena S. Marchiori, esta escola prioriza a leitura como forma de conhecimento e trabalha ativamente com livros biblioteca rotativa, onde os educandos podem tomar emprestados os livros para a leitura como forma de conhecimento e trabalha ativamente com livros para a leitura fora do ambiente escolar.

Através do intermédio desta diretora, pudemos analisar três projetos, ocorridos nos anos de 2001 e 2002, que tinham como finalidade a conjugação de literatura e alfabetização. Pudemos analisar o registro de 3 projetos: o projeto “Poesias” (outubro/2001); o projeto “Fábulas” (março e abril/2002); e projeto “Autores Brasileiros” (outubro e novembro/2002); os quais envolveram todos os alunos do ensino fundamental básico.

No projeto “Poesias”, as crianças tiveram contato com o comércio próxima da instituição e com seus proprietários. Aqueles comerciantes que aceitaram participar do projeto foram incumbidos de escrever um pequeno texto sobre seu estabelecimento. Textos estes que foram reescritos e transformados em poesia pelos alunos e, após ser ilustrado pelas crianças, tornou-se um livro. Ao cabo, o livreto foi entregue como presente para tais proprietários – o que propiciou um contato com a linguagem poética não só por parte dos alunos, mas também da comunidade escolar em geral.

Com o “Projeto Fábulas”, a escola se envolve em uma pratica pedagógica na quais professores e alunos trabalharam em união nas atividades de leitura e apreciação de histórias. Os professores ofereciam títulos da literatura infantil para que os próprios alunos escolhessem os de seu interesse e, então cada aluno tinha a tarefa de recontar a fábula para sua classe. Na sequência, reproduziam a história através de um teatro de fantoches.

Já no projeto “Autores Brasileiros”, as crianças fizeram um trabalho de pesquisa sobre o acervo de autores da nossa literatura infantil. Com o apoio da biblioteca da escola, os alunos coletaram diversas informações e, através do auxilio dos professores, escreveram um cartaz para cada autor pesquisando. Neste projeto, o principal intuito era desenvolver no educando o conceito de auditoria e também apresentar a diversidade de textos literários de nosso país.

No momento da feitura desde XVI COLE, no entanto, nenhum projeto está sendo desenvolvida nesta escola com o intuito de correlacionar a literatura e a alfabetização.

Analisando os registros, fica clara a importância crescendo que a literatura infantil tem tomado na educação formal e, sobretudo, nos processos de aprendizagem da língua escrita. A escola, assim, em abrindo os olhos para as relações pertinentes entre literatura e alfabetização.

No entanto, nem sempre se atribui à literatura infantil a importância merecida. Muitas vezes, ela é apenas utilizada como pretexto educativo para o ensino da língua portuguesa e de suas normas. Ou, ao contrario, muitas vezes não se explora a literatura enquanto produto letrado, dando a ela apenas o brilho do lúdico e da brincadeira.

A impressão que se tem é que a literatura é tomada, quando em relação com a alfabetização, apenas como mote para a aprendizagem da leitura, esquecendo-se que também a escrita faz parte deste processo e pode, e deve ser incitada pelas histórias infantis.

Os projetos analisados aqui constituem-se como bons exemplos no cenário da alfabetização nacional. No entanto, se a literatura infantil de fato fosse tomada como imprescindível para a alfabetização, e vice-versa, não haveria motivos para que iniciativas como as destes projetos fossem paralisados.

Tentando-se, pois, auxiliar a escola na tarefa de unir permanentemente literatura e alfabetização, após a pesquisa de campo e a pesquisa bibliográfica foram elaboradas algumas sugestões. Com elas, se pretende o envolvimento dos hábitos de leitura e escrita, considerando a real importância da literatura infantil para a alfabetização, assim como o oposto.

Como primeiro passo, a escola deveria criar uma proposta pedagógica do ensino da língua portuguesa que sempre a atrelasse com a literatura, não deixando esta relação ocorrer apenas em projetos isolados. Acreditamos, pois, que a relação entre alfabetização e literatura/produção de histórias deve ser permanente, e somente com este comprometimento viriam, então, resultados satisfatórios.

Com isso em mente, o professor deveria iniciar seu trabalho escolhendo o texto que será lido com os alunos. Caso a criança faça essa escolha sozinha, se deveria observar os critérios utilizados por ela, pedindo-lhe que justifique sua escolha. Sendo a escolha feita pelo professor, ele deveria considerar a qualidade do texto e das ilustrações, alem de sua história aos demais temas abordados em sala seria, pois, de suma importância, pois somente assim a literatura estaria de fato conjugada com o cotidiano da escola.

Após a escolha, o professor deveria não só ler o texto com os educandos, mas também poderia reconstruir este texto com a participação deles, de forma coletiva. Desta forma, exercitaríamos não apenas a leitura das histórias, mas também incitaríamos educandos o hábito da escrita com suas normas e exercícios de imaginação e criatividade.

Viriam, a partir daí, as tarefas de ampliação da leitura. Estas tarefas seriam como comentários sobre o texto, nos quais se poderiam verificar aspectos de conteúdo (tema, narrativas e narradores, personagens, locais, etc.) e aspectos estilísticos e literários (léxico, figuras literárias, repetições, onomatopéias, formulas de inicio e final, aspectos gramaticais evidentes, etc.). Memorizações de fragmentos e canções, dramatizações dos contos e desenhos, também seriam ricas possibilidades de tarefas em sala de aula.

Para que tudo isso aconteça, entretanto, destaca-se novamente a necessidade de se trabalhar com textos significativos para os alunos, que sejam de seu interesse e que estejam em relação direta com os temas abordados em sala de aula. Pois só assim, dentro de textos ricos e estimulantes, as regras, normas e convenções da escrita ganhariam sentido, assim como só desta forma a literatura estaria, de fato, dando voz ao processo criador e imaginativo das crianças-leitoras-escritoras.

Além das tarefas de ampliações da leitura, também poder-se-ía propor outras atividades, entre elas o ato de completar o texto de um conto com lacunas e a reescrita de um conto conhecido a partir de imagens ordenadas.

A primeira atividade citada seria uma forma de focalizar a atenção do aluno uma reprodução do conto em que se omitiram palavras ou fragmentos do texto significativos, mas dedutíveis pelos alunos. O aluno, ou grupo de alunos, leria atentamente o texto para poder identificar a palavra ou segmento omitido. Haveria, então, a escrita para completar o texto e a correção da coerência da palavra acrescentada, de sua ortografia, etc.

Dentro dos conteúdos específicos, se trabalhariam com esta atividade a leitura com antecipação do texto, inferindo a palavra ausente pelo contexto ou pelos indicadores textuais e a aprendizagem do sistema alfabético, de normas gramaticais (separação de palavras, ortografia, concordância, etc.), de acordo com o nível de conhecimento dos alunos.

O material utilizado para esta atividade seria, portanto, o texto com lacunas, e o grau de dificuldade da atividade seria muito variável, podendo-se adaptá-la à diversidade de alunos em todos os níveis escolares.

Na segunda atividade proposta, a reescrita de um conto conhecido, vê-se, como funcionalidade, a possibilidade de escrever contos para que façam parte da biblioteca da sala de aula, ou para organizar uma revista ou jornal escolar. Incitaría-se, assim, a leitura da literatura infantil, a escrita, e a leitura das historias produzidas pelos alunos, o que poderia gerar um interessante ciclo de produção de conhecimentos.

No desenvolvimento desta atividade, o aluno, após conhecer perfeitamente o conto de nossa literatura infantil, seu argumento e suas características linguísticas, deveriam recontá-lo, depois de elaborado um “pré-texto” coletivamente – como, por exemplo, uma reconstrução oral do conto.

Haveria também a possibilidade da reescrita de cada sequencia da história por um aluno ou grupo, e a correção com a participação dos próprios alunos, assim como a feitura das ilustrações dos textos.

Dentro dos conteúdos específicos, esta atividade envolveria o conto em questão; os procedimentos da escrita (reconstrução oral e normas gramaticais ao alcance da criança; a relação texto-imagem; e a edição e apresentação adequadas a cada estilo de texto escolhido (cartaz, revista, jornal, etc.).

Os materiais utilizados seriam folhas de papel em formato de conto, fáceis de encadernar, onde haveria uma imagem em cada pagina e um espaço em branco, ou pautado para escrita.

Tudo isso, e muito mais, pode e deve ser feito em favor da relação, cada vez mais próxima, da literatura com a alfabetização.

No entanto, não se pode deixar que se trabalhe em sala de aula também o simples ato da leitura, visto que os alunos sentem prazer em ouvir uma boa historia, sem ter que elaborar algo a ser “avaliado”.

Consequentemente, não se estaria vinculado, obrigatoriamente, o ato de ler a atividades posteriores, o que favoreceria, assim, o gosto pela leitura.

Por fim, vale ressaltar que, para que tudo isso aconteça, o professor precisa gostar de ler, pois com isso ele próprio poderia criar estratégias eficientes de estímulos à leitura. E mostrar que, mais do que instrumento para ensinar os conteúdos das disciplinas curriculares, a leitura é competência fundamental para inserir todas as pessoas na cultura letrada.

CONCLUSÃO

Neste estudo, buscamos atentar para as formas como a literatura infantil vem sendo  utilizada nas salas de aula de nossa educação formal.

Observamos três projetos de trabalhos da EMEF “Antonio Giovani Lanzi” (Mogi – Guaçu-SP), os quais foram estudados tentando-se compreender como alfabetização e literatura poderiam unir-se, modificando e complementando uma à outra.

Conclui-se que esta relação está cada vez mais próxima e deve melhorar! Para tanto, devemos atentar para o fato de que a literatura infantil não deve ser usada somente com a intenção pedagógica e didática ou para incentivar o hábito de leitura, apesar de estes serem motivos justificáveis.

Mais que isso, a literatura deve dar espaço para o imaginário e a fantasia da criança, não só no ato da leitura, mais também no da escrita. Ou seja, a literatura infantil deve ser encarada, sempre modo global e complexo, em sua ambiguidade e pluralidade.

A escola, como local onde se instrução formal deveria fazer com que a criança entre em contato com o mundo irreal, a fantasia, a viagem pelo mundo dos livros. E este contato deveria ser permanente e não localizado em projetos isolados.

‘para que os educandos vejam a escola como um local agradável, alegre e prazeroso, deve-se oferecer a literatura infantil como instrumento para a sensibilização da consciência, para a expansão da capacidade e interesse de analisar o mundo. Assim, mesmo antes da criança aprender a ler, deve-se incitá-la ouvir histórias e manusear livros.

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