Internet Móvel Ilimitada ainda Parece Coisa de Cinema

Há quem goste dos restaurantes com comida servida a La Carte, mas eu particularmente prefiro os tradicionais restaurantes de comida a kilo, que hoje também permitem total acesso ao cardápio oferecido; aqueles tipo “bufê livre”.

Extrapolando os restaurantes, o modelo de banda larga móvel foi idealizado nos mesmos moldes mundo afora: um grande bufê livre com preços fixos – e utilização aparentemente sem limites – para todos. Enquanto houve lugar à mesa, a conta fechou sem grandes complicações. De um lado, consumidores sempre satisfeitos. De outro, operadoras cuja clientela só crescia.

Somente entre 2008 e 2009, o número de conexões de internet pela rede celular aumentou 60%, passando de 680 milhões em todo o mundo. Só que a cozinha começou a ficar pequena: no mesmo período, o consumo global de dados nessas redes mais que dobrou. E então junho trouxe uma notícia que muitos antecipavam: a AT&T, segunda maior operadora de celular dos Estados Unidos, que detém exclusividade sobre a comercialização de iPhones no país, anunciou o fim dos planos de dados ilimitados. A justificativa para a medida foi a alegação de que os novos pacotes – com consumo mensal limitado a 2 gigabytes – atenderiam 98% da base de clientes. Uma semana depois, a O2, operadora da Telefônica na Europa, também terminou com os planos sem limite de tráfego. Desde então, circulam rumores de que a Verizon, maior operadora americana, deverá seguir caminho parecido. Seria o fim do bufê livre da internet móvel?
Provavelmente sim, diz Alan Hadden, presidente da Global Mobile Suppliers Association: “Planos ilimitados não são viáveis no longo prazo”. Acostumadas ao baixo volume de dados consumido por serviços de segunda geração, as operadoras se viram; da noite para o dia; carregadas de tráfego de vídeo, redes sociais e intensa navegação, um fenômeno provocado por modelos de smartphones cada vez mais sofisticados.

Tecnicamente, o desafio está em dar conta do crescimento da demanda por dados. Segundo a Cisco, fabricante de equipamentos que controlam o tráfego de bits da internet, a demanda por banda larga móvel deve aumentar 39 vezes entre 2009 e 2014. Até aí, não há muita novidade. Os prognósticos sobre expansão de internet móvel sempre foram agressivos. O que muda, desta vez, é que a solução apresentada pelas operadoras sugere um alinhamento direto entre o que se consome de dados e o que se deve pagar por eles. A criação de planos distintos, de fato, tornou o serviço mais barato para usuários que consomem pouco. Mas também escancarou o caráter limitado das redes, que enfrentam sérios gargalos a despeito de contínuos – e vultosos – investimentos em infraestrutura (apenas no caso da AT&T, foram 17 bilhões de dólares em 2009). A promessa de acesso ilimitado à internet de qualquer lugar, a qualquer momento, parece cada vez mais apenas isso: uma promessa.
A internet móvel é hoje o serviço que mais cresce no Brasil. Em março, pela primeira vez, os acessos por banda larga móvel ultrapassaram os acessos pela fixa – já são 11,9 milhões ante 11,8 milhões. Mas há diferenças entre o congestionamento verificado no Brasil e o nos mercados mais ricos. A principal delas é o crescimento das vendas dos modems 3G. Em todo o país, já são mais de 3,2 milhões de unidades. O que foi concebido como um serviço auxiliar, porém, acabou se tornando a principal porta de acesso à internet. “Os modems são hoje a internet principal de mais de 80% dos clientes”, diz Fiamma Zarife, diretora de serviços de valor agregado e roaming da Claro. Os motivos são a pouca oferta e concorrência nos serviços de internet fixa, pelas redes de telefone ou de TV paga. Em média, usuários desses dispositivos chegam a consumir até dez vezes mais dados que os de smartphones, segundo as operadoras.

Embora no Brasil não existam planos ilimitados de dados no sentido estrito (usuários que ultrapassam a franquia pagam pelo tráfego excedente ou sofrem diminuição de velocidade), há mudanças em curso também por aqui. Desde o início do ano, as quatro maiores operadoras do país vêm realizando alterações em seus portfólios de internet móvel. Todas elas tornando mais nítido, de alguma maneira, o vínculo entre consumo e limite de franquia. Em uma cartilha produzida recentemente para ser distribuída entre clientes, a Vivo prega o “uso consciente” da internet móvel. “Quando o objetivo do acesso é utilizar um volume muito grande de dados (…) de forma frequente, a internet fixa é mais adequada”, diz o manual. “É importante que os usuários saibam fazer uso inteligente das redes”, afirma Hugo Janeba, vice-presidente de marketing da Vivo.

Mas a questão do afogamento das redes e do fim dos planos ilimitados não diz respeito apenas aos dilemas enfrentados pelas operadoras. O que está em jogo é o futuro de toda a internet móvel. Negócios inteiros foram construídos com a premissa de que, num futuro não tão distante assim, a banda larga móvel seria ilimitada. A lista é extensa e inclui desde aparelhos feitos para a internet, como o iPad, até serviços de transmissão de vídeos. “Podemos esperar um ‘efeito psicológico’ agora que as pessoas têm de estar atentas ao seu consumo”, diz Craig J. Mathias, analista do Farpoint Group, consultoria especializada em mobilidade com sede nos Estados Unidos. Se um usuário precisa fazer as contas antes de acessar um vídeo pelo celular, por exemplo, é mais razoável imaginar que o YouTube vá perder muito da audiência que clica por impulso. “Existem mudanças no comportamento de navegação dos usuários, e precisamos ficar cada vez mais atentos a isso”, diz Fernando Madeira, presidente do Terra. Em breve, a companhia deverá estabelecer parcerias com operadoras para transmitir serviços de streaming, como o Sonora, de música, em franquias de dados separados. “Será uma maneira de não consumir diretamente a franquia mensal dos usuários”, afirma Madeira. Iniciativas como essa deverão se tornar cada vez mais comuns. Eis o provável legado do fim do bufê livre da internet móvel: clientes mais seletivos a cada prato que consomem.