Informação Para a Transformação: Bibliotecas e Arquivos Públicos como Aliados do Conhecimento

Desde o início do século XX, evidencia-se o crescimento exponencial dos meios de comunicação, especialmente os de massa. Mas apesar dessa expansão, a maior parte da população ainda não usufrui das vantagens que essa evolução traz. A falta de conhecimento por parte da população sobre esses avanços e possibilidades, além da pouca oportunidade de acesso à informação prejudica todo o processo.

No Brasil, é importante destacar que o acesso à informação foi extremamente prejudicado durante o Regime Militar, que iniciou em 1964 e se prolongou até o final do processo de abertura política, em 1985. Tal período foi marcado por autoritarismo, supressão de direitos constitucionais, perseguições, prisões, torturas, morte dos opositores e censura aos meios de comunicação. Durante esse regime, o acesso à informação no Brasil esteve totalmente restrito, devido à forte censura à imprensa, eventos, espetáculos, obras literárias, musicais e artísticas, atingindo profissionais como artistas, professores, estudantes, jornalistas, intelectuais e políticos. Não só a restrição foi severa, como também houve o fato de o governo manipular as informações, obrigando os meios de comunicação a apoiar o regime militar através de propaganda favorável, nacionalismo ufanista e supressão de imagens que demonstrassem o que realmente estava ocorrendo nas ruas e nos bastidores. Desse modo, a maioria da população desconhecia as informações sobre o que de fato estava acontecendo no país.

O direito à informação consta na Constituição brasileira de 1988, no entanto, a idéia parece não ter saído do papel. A informação permite a avaliação e a crítica do que passa diante do indivíduo. Uma seleção do que é verdadeiro só é possível para um sujeito que se coloca na sociedade como participante, ativo e seguro de suas idéias. Um cidadão informado é um vigilante da gestão pública, avaliando a efetividade e exigindo transparência – o que lhe garante continuar informado.

Segundo dados da Unesco do ano de 2002, o Brasil – que é considerado um país em desenvolvimento – possui as seguintes estatísticas de acesso aos meios de comunicação: 40 em cada 1.000 habitantes (ou seja, 4%) lêem jornais; 434 em 1000 pessoas (43,4%) têm aparelho de rádio; 31,63% dos habitantes têm aparelho de televisão; 3,63% da população possuem computador (1999) e cerca de 2% dos habitantes têm acesso à internet (1999). (UNESCO apud BATISTA)

Diante desse histórico e estatísticas, observamos que a crescente disseminação de informações e a busca pelo conhecimento sofrem com a falta de acesso e o despreparo na busca e na interpretação dos fatos e fontes. Isso porque cada fonte constitui uma versão própria do autor, sendo necessário um estudo ampliado diante do assunto, para que se possa formular uma interpretação bem fundamentada.

Uma vez que a própria descrição, o diagnóstico dessa realidade, se faz com base em determinados enfoques teórico-metodológicos longe de serem consensuais. Ou seja, reivindica-se, aqui, a idéia de que nenhuma descrição é “pura” ou fala da realidade aquilo que ela é. (Trigueiro, 2001, p.65)

O que se encontra nas informações são versões de fatos e não descrições. É arriscado emitir afirmações buscando uma descrição absoluta, pois as descrições de qualquer fato são tão diversas quanto o número de testemunhas. Por isso, este “filtro” informacional é algo a ser conquistado com mais informações, ou seja, com a informação vinda de várias fontes.

O volume e a velocidade das informações cresceram sem que as pessoas conseguissem sequer lidar com o antigo ritmo da informação. Dessa forma, o que mais se destaca é o que chega primeiro ao conhecimento da massa. É aí que se evidencia o trabalho publicitário. No Iluminismo, a imprensa incentivou a vida intelectual e facilitou a disseminação das idéias que surgiam. No entanto, o que observamos atualmente é que antes que o sujeito possa (ou aprenda) a selecionar suas preferências, há um ataque midiático massivo, do qual praticamente não se tem consciência, que induz o sujeito a determinadas escolhas. “Todo conhecimento pode ser posto a serviço da manipulação.” (MORIN, 2005)

Nesse sentido, as bibliotecas e arquivos públicos, embora ainda em limitada utilização, têm potencial para atuar como agentes colaboradores de um sujeito que busca o conhecimento de forma autônoma, contando com o auxílio dos profissionais da área, os quais estão altamente empenhados em atender e desenvolver este interesse. Em outros tempos, tanto o bibliotecário quanto o arquivista centravam-se no cuidado e organização do acervo, muitas vezes impedindo ou dificultando o acesso dos demais como medida de precaução. Gradualmente, o foco destes passa a ser o usuário, surgindo aí a preocupação com as questões de incentivo à leitura, disseminação de informações e conhecimentos, além da interação com a comunidade. De maneira que os arquivos e as bibliotecas tornam-se verdadeiros portais para outros tempos, espaços, realidades, vivências e culturas.

As bibliotecas e arquivos devem ser aliados da educação; em contextos sociais problemáticos, a educação encontra, entre tantos outros, o problema da falta de acesso e de disponibilidade de materiais, fato que pode, em alguns casos, desmotivar a busca do aluno por mais informação. Além disso, a realidade em si já cria tendências que direcionam as atenções para outras atividades, enquanto ainda há estigmas negativos em torno destes locais, os quais ainda não são vistos como centros culturais enriquecedores. Há ainda a questão do acesso às novas tecnologias, as quais atuam como ferramentas na busca pela informação e são fundamentais  em unidades informacionais como arquivos e bibliotecas. A informação tecnológica visa que os usuários tenham essas ferramentas como suas aliadas na busca dos materiais e da informação que deseja, oferecendo-lhes a possibilidade de se tornarem pensadores críticos e efetivos usuários da informação, em todos os formatos e meios. Logo, os profissionais atuantes nessas unidades são membros profissionalmente qualificados, responsáveis pelo planejamento, gestão, manutenção e pela relevância do local na transformação da vida dos usuários e da comunidade.

REFERÊNCIAS

BATISTA, Roseli Araújo. Artigo “O acesso à informação como requisito para o exercício da cidadania”. disponível em: http://www2.metodista.br/unesco/agora/mapa_animadores_pesquisadores_roseli.pdfAcesso em: 14/11/2008.

MORIN, Edgar. Ciência, ética, sociedade. In: MORIN, Edgar. O Método: ética. Porto Alegre: Sulina, 2005. p 69-79 e p. 60-66

TRIGUEIRO, Michelangelo G. S. A formação dos cientistas: necessidades e soluções. In: BAUMGARTEN, Maíra. A Era do Conhecimento: Matrix ou Agora. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2001. p.61-70