Imagine um Novo Modelo Social

Em 1971, o famoso músico John Lennon lançou o disco “Imagine”, título de sua música destaque, que acabou por se tornar um dos mais lindos hinos à Paz Mundial. “Imagine” fala de um mundo utópico, filosoficamente ideal e convida a todos para que se unam nesta causa.

Tal iniciativa fomentou “amor e ódio” em muitos lugares do planeta. Enquanto muitos, cativados pela graça e emoção provocadas pelas idéias de Imagine, lançaram-se em campanhas fervorosas a favor da paz mundial, o próprio John acabou sendo assassinado por Mark Chapman, fanático religioso que textualmente afirmou seu ódio ao cantor, pois no hino, Lennon diz: “Imagine se o paraíso (no sentido espiritual) não existisse, nenhum inferno abaixo de nós e acima apenas o céu…” o que foi considerado uma blasfêmia por Chapman.

Assim como vários filósofos analisaram a proposta de “Imagine” podemos constatar que a utopia proposta pode ser buscada com sérias intenções por muitos estudantes de sociologia, políticos e visionários também deram crédito a proposta do cantor. Vale a pena buscar compreender a idéia central do músico e a aplicabilidade destas idéias na sociedade humana.

Abaixo uma tradução livre da famosa música e a seguir alguns comentários.

“Imagine que não existe paraíso, é fácil se você tentar. Nenhum inferno abaixo de nós, acima de nós apenas o céu. Imagine todas as pessoas, vivendo para o hoje. Imagine não existir países, não é difícil fazê-lo. Nada pelo que lutar ou morrer. E nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas, vivendo a vida em paz. Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu tenho a esperança de que um dia você se junte a nós e então o mundo será como um só. Imagine não existir posses, me pergunto se você consegue. Sem necessidade de ganância ou fome. Uma irmandade de humanos. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo. Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu tenho a esperança de que um dia você se junte a nós e então o mundo viverá como um só”. (John Lennon – 1970/1971).

O primeiro ponto importante é entendermos que nossa humanidade se classificou em etnias. Uma “etnia” é definida por um conjunto cultural (idioma, hábitos, religião ou sistema de crenças, regras sociais, meio ambiente onde se encontra, etc).

Historicamente sabemos que este padrão nunca foi quebrado ou substituído. Se não podemos quebrá-lo ou substituí-lo, nos resta apenas aprendermos a conviver com a heterogeneidade humana, com respeito, sem pré-conceitos e discriminações. É o primeiro passo, um passo tão importante e difícil que há anos estamos tentando conquistar e só agora nas camadas mais intelectualizadas podemos ver algumas mudanças claras de comportamento. Sem isso, um modelo social abrangente é impossível pois sempre iremos ser excludentes e separatistas. Portanto, aprendermos a conviver com esta realidade étnica diferenciada é essencial. Se no próprio planeta Terra, fazemos acepção de pessoas, “Imaginem” (parafraseando Lennon) quando os avanços humanos permitirem que entremos em contato com civilizações extraterrestres ?

Pode parecer extremamente ilusório tudo isso que está sendo dito, mas infelizmente a necessidade da mudança de padrões básicos está batendo a porta. E se as propostas de mudança forem sempre tratadas como ilusórias e utópicas, jamais ocorrerão e isso é uma verdade inegável.

Um ponto bem esquadrinhado na música é a questão religiosa. Hoje em dia vemos verdadeiras guerras por motivos religiosos. A palavra religião em sua semântica, significa, religar a Deus e possui um caráter excludente e discriminatório. Dizemos, ou alguém possui uma religião ou é um Ateu. Mesmo sem sabermos o que significam ambas as palavras. A expressão “religar a Deus” parte de uma concepção cultural e étnica que não é compartilhada por todas as culturas do planeta. Nem todos concebem “Deus” como “algo” ou “alguém”, portanto não há o quê religar nestes casos. A respeito de uma proposta social diferenciada, mais uma vez o respeito à liberdade de crença individual é essencial e não pode servir de base para comportamentos excludentes.

Por último, Lennnon atenta para dois pontos fundamentais, a questão da posse e a questão do ato de compartilhar. São dois conceitos ambíguos que infelizmente são mal interpretados e paradoxalmente parecem antagônicos. Posse não significa ser “dono” de algo, além disso, não significa que ao possuirmos algo não podemos compartilhar isso com outras pessoas. Compartilhar significa permitir que outros façam uso, se beneficiem com este uso. Quando Lennon fala de um mundo “sem posses” e que pode ser compartilhado por todos os seres humanos, busca a conotação de que não somos Donos do Mundo, que este é um “bem” comum e natural que deve ser bem utilizado por todas as pessoas. Além do quê, é característica humana, estabelecer fronteiras e dividir pedaços como “este é meu”, “aquele é teu”, e assim por diante, ao invés de “isso é nosso”.

Enquanto não conseguimos entender estas “Verdades” simples a mensagem de John Lennon ficará apenas no terreno da Fé, da Esperança e do Amor.

“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (I Coríntios 13:13)