Férias distantes

Férias são aquele dias desejados, fervorosamente aguardados como se aguarda a divulgação do resultado de uma prova de seleção, ou o nascimento de um filho (claro, nas devidas proporções!). São dias de descanso merecido após meses a fio trabalhando várias horas diárias, buscando melhorar a vida – ou pelo menos, mantê-la num patamar confortável e sem sustos (nem sempre conseguimos, mas a gente se esforça o ano todo, não é?).

As-férias-sempre-se-caracterizam-por-algum-que-marcam-as-lembranças.E quase sempre, temos um local favorito onde passar esses dias. Pode ser a casa de um parente, ou uma pousada que já conhece e pra onde adora voltar sempre que pode. Eu tinha meu lugar favorito quando era criança: a casa de uma das minhas tias. Como moro me uma cidade de porte maior e fortemente urbanizada, a ida à casa dessa tia era uma fuga que eu precisava fazer sempre que as férias chegavam, pelo bem do meu juízo mental. Ela morava na zona rural de uma cidade do interior – ou seja, distante de qualquer agitação. Ô, glória…

No sopé da montanha

Ocorre que essa tia morava numa casinha que ela construiu depois de se aposentar, num terreno que ela herdou do pai, e esse terreno ficava aos pés da imponente Serra da Mantiqueira. Onde era mais plano, minha tia ergueu a casa: era uma espécie de casa de campo com estilo de casa de roça (ou seria o contrário?) muito bonitinha, pequena mas bem dividida. Para aproveitar a vista maravilhosa ao máximo, a varanda ficava voltada para o vale e os quartos para a serra logo atrás da casa. Acordar ali era coisa de sonho: os quartos não tinham janelas mas, sim, portas-balcão enormes que ficavam no mesmo rumo da cabeceira da cama. Eu nem fechava as cortinas à noite! Assim garantia a vista maravilhosa da serra assim que acordasse.

A casa toda era coberta por telhas coloniais, então imagine como era nos dias de chuva? Aqueles filetes de água caindo em frente à varanda e batendo nas pedrinhas que ela colocou ao redor da casa. “Faz um barulhinho gostoso”, ela dizia. E fazia mesmo!

Ao redor da casa, ela forrou com grama-esmeralda. Parecia até que ela tinha construído a casa num campo de futebol porque – meu Deus – era muita grama! Aqui e ali, foram plantadas jabuticabeiras, pitangueiras, pés de acerola e árvores menos conhecidas como pés de grumixama (em algumas regiões, ela é conhecida como cumbixaba), uma frutinha parecida com jabuticaba mas com um gosto bem diferente. Uma delícia! Ao redor dessas árvores, ela fez canteiros de flores cercados com pedrinhas brancas de rio.

Um furacão dentro de casa

As-férias-também-marcam-por-inúmeras-atividades-que-fazemos-quando-criança.Mas o mais legal daquela casinha era quando chegava a época dos ventos, em agosto. Como todos os quartos tinham portas-balcão, entrava muito vento neles – e como minha tia adorava deixar as portas abertas, o vento tinha passagem livre por dentro da casa toda. Em agosto, não tinha jeito de deixar papéis soltos pela casa, ou voariam todos pela porta da frente! Nós nos divertíamos! Fazíamos aviõezinhos e deixávamos em cima da mesa ou pelo corredor – e quando o vento batia, carregava-os atrapalhadamente pela casa. Fazíamos uma corrida pra ver qual aviãozinho chegaria primeiro à sala – e os que por acaso conseguissem sair pela porta da frente ganhavam um prêmio especial: um pedaço ENORME de bolo (minha tia adorava cozinhar, e fazia cada um…)!

Mas as férias têm um problema: acabam. Aliás, DOIS problemas: acabam e tendem a se encurtar. Hoje já estou no mercado de trabalho e, daquelas férias de 30 dias no meio do ano e quase 60 na época do Natal, hoje só me restaram 30 no total. Minha tia infelizmente não está mais entre nós mas, além das lembranças e da simplicidade que ela nos ensinou, ficou também a “casinha das montanhas”: meus irmãos e eu a herdamos através do testamento que ela deixou (como ela não teve filhos, deixou a casa para nós). Hoje são nossos filhos que vão para lá se divertir com os aviões de papel. A casa da nossa infância se tornou a casa da infância deles também.