EPI pra que, se não é 100%?

Temos visto exaustivas propagandas do governo atentando para a importância do uso dos equipamentos de proteção individual em nossos trabalhos diários. Tratam dos acidentes como acontecimentos anunciados – e portanto, evitáveis – que podem deixar um trabalhador aleijado permanentemente, comprometendo suas funções e colocando inclusive sua vida em risco. Mas será que um EPI protege mesmo?

Há poucos dias, vimos no noticiário que um jogador de críquete morreu depois de ser atingido na cabeça por uma bola arremessada por um colega durante um treino. Ela provocou traumatismo craniano, hemorragia cerebral e, dias depois, terminou com o óbito do jogador. Detalhes: ele ESTAVA usando o capacete de proteção. “Então… pra quê usar essas coisas se elas não protegem quem usa a 100%, e ainda ficam atrapalhando?”

Ruim com elas? Bem pior sem…

Esse caso do jogador foi à parte. Na verdade, a bola o acertou meio que atrás da orelha e na direção da nuca, num ponto em que o capacete já não alcançava mais. Se ela tivesse atingido 5 centímetros mais acima, teria acertado o capacete – ia fazer um barulho tremendo, talvez até o fissurasse e deixasse o atleta meio zonzo, mas não causaria o estrago que causou. Por um acaso terrível, ela acertou justamente depois da borda do capacete.

Se-o-piloto-não-estivesse-bem-equipado-o-acidente-poderia-ter-sido-fatal.Mas temos exemplos mais reais. O piloto Michael Schumacher estava de capacete quando se chocou contra algumas pedras numa estação de esqui – se estivesse sem ele, teria morrido na mesma hora. Felipe Massa estava de capacete quando foi atingido por uma peça que se soltou do carro logo à frente. Lembra-se desse episódio? Ela o acertou com tanta velocidade que quebrou o visor e uma quina do capacete, atingindo sua cabeça logo acima de um dos olhos (inclusive houve fratura do crânio nesse local). Alguns dias de internação e de recuperação, e lá estava ele de volta ao campeonato. Mas se estivesse sem capacete, a tal peça teria atravessado sua cabeça e ele não estaria mais entre nós para contar sua história.

A quantas faíscas as córneas de um soldador resistem antes de começarem a sofrer danos irreparáveis?  A uma só. As faíscas oriundas das máquinas de solda são como escapes de altas cargas de energia – energia essa usada para fundir peças metálicas. Já pensou nisso? Imagine a energia nessas aparentemente inocentes faisquinhas? Não se podem brincar. Uma única delas que atinja o olho aberto já causa dano na superfície da córnea, comprometendo a qualidade da visão e colocando o trabalhador na fila do transplante.

Dê crédito pro EPI

Dizem que só damos valor a algo ou alguém quando perdemos. Por mais que seja verdade, essa afirmação não deveria ser tão levada a sério por nós. Só entendemos a falta que faz um equipamento de proteção individual quando efetivamente sofremos um acidente de trabalho e percebemos como o desfecho poderia ter sido melhor se o estivéssemos usando, não é?

O-uso-do-EPI-é-essencial-para-qualquer-tipo-de-obra.É óbvio que um EPI não protege de todos os riscos. Um capacete de obras absorve a queda de um tijolo até uma certa altura (mesmo que o funcionário chegue a desmaiar com o impacto, pelo menos não haverá um trauma fatal). Desta altura em diante – por exemplo, um bloco baiano caindo do quinto andar – provavelmente nenhum EPI do mundo conseguiria salvar o funcionário. Talvez preservasse o crânio, mas não teria como deter um dano gravíssimo no pescoço por causa do impacto. Para que esse risco seja minimizado é que se coloca aquele “saiote” de madeira ao redor do primeiro andar: para deter objetos que caiam do alto da construção e possam acertar alguém aqui em baixo.

Operários de metalúrgica não podem nem pensar em trabalhar sem os macacões refratários. O calor dentro da usina é fortíssimo (sim, pior que Teresina e Ipatinga juntas) e não se consegue ficar junto dos auto fornos por mais que alguns segundos sem esta proteção sem desidratar e perder os sentidos. Estas roupas de proteção são pesadas e não evitam que o funcionário sinta calor dentro delas, mas evita que o calor extremo permaneça distante do seu corpo e permite que o trabalho possa ser executado.

Um biólogo que trabalhe em regiões de charco e brejos devem sempre usar galochas e macacões impermeáveis para evitar o contato direto com as águas que inundam os terrenos por onde fazem suas pesquisas. Frequentemente estas águas possuem bactérias perigosas que, em contato direto com a pele enfraquecida pela umidade, provocam feridas necrosantes que podem se manifestar em poucas horas, causando lesões nem sempre tratáveis por remédios (sim, termina em amputação).

Já pensou passar por situações de risco assim tão perigosas, simplesmente por não acreditar que um EPI possa ajudar a protegê-lo? Parte da proteção vem do EPI, mas a parte mais importante da prevenção de acidentes vem da conduta do trabalhador. A soma dessas duas coisas afastam – e muito! – a chance de um acidente acontecer. Não dê bobeira.