Dívidas e Reparos Históricos

O estado não deve promover a mendicância distribuindo esmolas que são as medidas assistencialistas, deve ater-se a distribuir de forma eqüitativa a Justiça. Mas é justo aplicarmos o mesmo critério a indivíduos que de forma artificial foram colocados à margem da cadeia produtiva? Defrontamos com outro grande paradigma brasileiro, que é a dívida histórica aos índios e afro-descendentes principalmente, paradigma devido ao fato de termos essa dívida, mas não se pode paga-lá promovendo a mendicância e tão pouco pode exigir submeter a grande parte da população que se encontra bestializada aos balizamentos da Lei.

O enfoque deve ser mudado, como coloquei no princípio deste trabalho, ao invés dos assistencialismos medidas que promovam a inserção dos excluídos na cadeia produtiva e elevando sua auto-estima. A dívida deve ser aceita e a forma de pagamento nunca confundida com filantropia e sim como reparações históricas, focado principalmente nas futuras gerações, afinal, a recuperação de certos segmentos a séculos artificialmente excluídos é inviável nos restando somente à reintegração dos mais jovens. É duro e cruel pode ser, mas é a verdade, não adianta negar que a recuperação de certos indivíduos é impossível e resta-nos, infelizmente, tentar salvar as maçãs boas no cesto que apesar de nossa total omissão ainda não se estragaram.

A reavaliação de fatos históricos do nosso país é imperiosa para que avancemos, essa revisão sustentasse por questões óbvias afinal não estamos, pelo menos abertamente, em meio a um conflito onde forças que oprimem travam duelo pelo poder contra os que são oprimidos, nossa sociedade prega que uma relação harmoniosa entre todos os setores deva ser o objetivo comum, mas essa visão se choca com a seguinte questão, as versões históricas não foram ajustadas, o lado vencedor unilateralmente desfila sua versão, seus heróis, suas conquistas enquanto que os perdedores são obrigados a reverenciar esse desfile humilhante. A maior parte do que é ensinado nas escolas constitui um atentado contra a auto estima dos afros e indo descendentes, levantarei alguns pontos.

O mito da bondade da colonização portuguesa persiste entre nós, sinceramente não sei por que razão. Nossa colonização foi a mais cruel, duradoura e bárbara das impostas pelas potências européias no Novo Mundo, a forma como Portugal e, posteriormente o Império Brasileiro e a República que herdaram sua estrutura, reprimiram os movimentos que reivindicavam mudanças e o fim da opressão são comparáveis aos métodos nazi-fascistas, analogamente às vezes penso que essa negação da barbárie ocorra de forma similar ao o que acontece na Alemanha de hoje, custa-nos acreditar, tal qual aos alemães de hoje, que fomos capazes de tamanha crueldade. Na nossa colonização chegamos ao máximo da exploração a que pode ser submetido um ser humano, ou rendiam-se à escravidão ou eram dizimados, os negros optaram pela sobrevivência, os índios pelo genocídio, mas todos pagaram um alto preço, que continua ser cobrado aos seus descentes.

Foi a partir da escravidão imposta por Portugal que se produziu no Brasil essa artificialidade na nossa organização socioeconômica onde o capital esteve condicionado a exploração humana, durante três séculos o nosso crescimento esteve ligado somente a esta variante que tolheu nossa capacidade de inventividade, pois era cômodo enriquecer através da mão de obra barata e grandes extensões de terra.

Essa forma de acomodação que o Capital estabeleceu no Brasil perdura até hoje, a maioria do empresariado tem em mente que a melhor forma de multiplicar seus lucros é com a exploração máxima dos seus empregados, sonegação de impostos ou com as benesses do governo. Latifúndios gigantescos estão aí para provar, e nos lembrar que o estado ainda não criou mecanismos que possibilitem o acesso de todos ao desenvolvimento, ainda estão enraizadas em nossas mentes estruturas esdrúxulas descendentes do período colonial. O brasileiro aceita certos comportamentos, pois lhe foi durante séculos negado o abrigo seguro do direito, as mutilações dantescas como a de cortar os tendões dos pés dos negros fujões, castrações, morte por chibatadas e outras atrocidades eram bem aceitas por toda a sociedade escravocrata brasileira que, tinham até o consentimento da Igreja que demorou a considerar os negros como possuidores de alma, há relatos que na beira do século XX, a partir do ano de 1871 com o advento da Lei do Ventre Livre ocorreram genocídios sistemáticos de crianças negras, afinal elas não constituíam em propriedades dos senhores de engenho, mas gerava um custo as manter.

Tudo no Brasil é artificial, foi criado no início propositadamente com o intuito de manter a exploração e depois, por conseqüência dos desdobramentos dos fatos históricos. Geramos uma criatura medonha e bastarda, que tentamos inutilmente abortar, nós seus pais, a rejeitamos, mas ela insiste em viver e por não conseguimos destruí-la mentimos sobre sua existência. Essa negação sobre a nossa herança que foi marcada pela exploração produziu essa nossa instabilidade social onde não nos reconhecemos como iguais na maioria das vezes, e em outras ocasiões sim. A loucura brasileira é impar no mundo, como ímpar é tudo o que se refere ao Brasil. Somos os mais tolerantes e racistas do planeta, na verdade não somos indecisos simplesmente não nos conhecemos e essa falta de compreensão nos empurra para a negação sistemática de nossa origem, criando esse conflito piscológico que aos mais desavisados soa como uma indecisão, afinal é boa a nossa essência, mas custa-nos acreditar na nossa origem perversa. A nação mais miscigenada do planeta não pode ser racista! Ouvi uma vez de um amigo, claro que pode, pois em seu gênesis essa miscigenação se deu sob égide da opressão.

Nossos sonhos eróticos são com as mulatas, mas casar com elas já vai uma distância enorme, sonhamos com uma companheira branca e uma amante mulata, as mulheres onde se predominam as características negras são na maioria das vezes rejeitadas e empurradas para a realização de tarefas menos importantes, confinando-as à condição de empregadas domésticas, faxineiras. Quando caminho à noite pelo centro do Rio não consigo dissociar a imagem dos mendigos, loucos e toda a sorte de marginalizados, negros em sua maioria, com as dos escravos recém libertos no início do século XX que, enxotados sem nenhuma compensação indenizatória das fazendas que ergueram foram colocados à margem da sociedade, sendo preteridos por imigrantes estrangeiros, afinal se é para pagar salários vamos pagar a brancos, nunca àqueles que nos pertenceram, teria dito um fazendeiro da época. Debret (21) hoje teria os mesmos modelos para pintar, talvez sua obra ficasse até mais chocante, ao invés da sinhazinha alimentando negrinhos embaixo da mesa como cães, ele retrataria esses mesmos negrinhos, cheirando solventes e revolvendo lixeiras em busca de comida em frente aos restaurantes da Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro.

Isso é uma das várias abominações que herdamos dos senhores de engenho, e as reproduzimos sem saber o motivo, pois o nosso DNA está desde a concepção impregnada por elas. Os séculos de opressão imposta pelo período escravocrata brasileiro, produziram uma manifestação psíquica que apesar de macabra não deixa de ser interessante, que é a redução de um gênero humano definindo-o como uma coisa, melhor explicando, os negros do Brasil durante séculos não foram massacrados apenas com a imposição de uma cultura dominante, não foi só isso que aconteceu, os negros foram classificados, ou melhor, desclassificados de sua condição humana, no inconsciente da sociedade da época os negros eram comparados com os animais de tração. 50 alqueires de terra, 20 mulas, 8 cavalos, 10 vacas de leite, 2 touros, 15 negros… A maioria das pessoas pensa que isso é uma atitude comum nos momentos de opressão, mas na verdade essas atitudes são exceções, nos momentos em que um povo domina outro se criam metodologias com o objetivo de menosprezar as manifestações culturais do povo dominado, mas a sua humanidade não, os nazistas negavam a humanidade aos judeus, ciganos, eslavos e negros, mas reconheciam os povos germânicos e escandinavos onde os franceses, ingleses, suecos e dinamarqueses eram vistos como seres humanos, os romanos massacravam militarmente e culturalmente todos os povos bárbaros dominados e impunham aos príncipes dominados sua cultura e em relação aos gregos ao contrário a assimilaram, em ambos os casos isso é reconhecer sua humanidade, mesmo os escravizando, os nortes americanos apesar de não terem proporcionado o fenômeno da miscigenação como no Brasil, reconheciam como cidadãos os negros do norte, os do sul não possuíam o reconhecimento de sua condição humana, a Klu Klux Klan que já contou com mais de cinco milhões de membros no início do século XX e foi protagonista de massacres bárbaros perde felizmente nos dias atuais a sua força e isso só foi possível por uma única razão, o norte americano construiu uma nação que mesmo não respeitando no plano externo o direito autônomo dos povos, internamente são contemplados pelo fortalecimento de suas instituições que garantem o acesso ao direito de todos independente de sua raça, orientação religiosa ou sexual. Para os portugueses os negros eram animais domesticados, ficaram escandalizados quando começaram nascer mulatos onde esse termo por si só já denota toda a carga racista portuguesa, muitos acreditavam que seria até impossível que isso acontecesse.
Essa redução do gênero humano a uma coisa foi tão marcante entre nós que persiste em algumas manifestações até hoje, quando um negro entra em um lugar sofisticado, quando ele exige seus direitos, quando candidata-se a uma vaga disputada por brancos , essas situações não são bem aceitas pela nossa sociedade, as pessoas negam, mas elas causam um desconforto, podendo escolher ninguém quer um médico ou advogado negro, quanto mais um patrão nesse caso cedo ou mais tarde sua condição racial vai ser motivo de crítica em relação a alguma atitude profissional. Áreas de serviço com banheiros próprios destinados aos empregados da casa já carrega toda uma força segregacionista, onde aceitamos bem a condição de subordinação e não nos enxergamos como iguais, esse comportamento é bem aceito por todos assim como o fato de não causar constrangimento algum o pagamento de miserável salário aos empregados, isso é uma herança da cultura opressora européia e bem enraizada entre nós, que aceitamos por força de nossa gênesis cultural esse apartheid.

O que fazer então para debelar este câncer que é a estratificação sócio-racial criada artificialmente por nossa herança colonial portuguesa? Ora, temos que criar artificialmente também mecanismos que acelerem a cura desse mal, como por exemplo:

1.Promover através do sistema de cotas o acesso dos afros e indo-descendentes as universidades públicas e particulares;
2.Crédito em condições acessíveis para compra de terra aos afros e indo-descendentes;
3.Criação de programas de capacitação aos jovens afros e indo-descendentes;
4.Cotas para admissão no serviço público para os afros e indo-descendentes;

5.Subvenções aos bancos e entidades de crédito que financiarem o fomento de atividades comerciais e/ou industriais aos afros e indo-descendentes;
6.Demarcação definitiva das terras indígenas, contudo protegendo-as da exploração mineral e madeireira o que seria terminantemente proibido, fazendo que as terras indígenas contribuíssem para a manutenção de nossas reservas ambientais e proporcionassem a preservação da cultura indígena que sofre sensivelmente quando em contato com segmentos de exploração comercial;
7.Demarcação das áreas dos quilombolas que usando do mesmo critério utilizado com os grupos indígenas seriam restritos as atividades de subsistência;
8.Estabelecimento de parcerias com MST, onde em conjunto com os estado promoveriam o assentamento de milhares de famílias para o desenvolvimento da agricultura familiar de subsistência, creio que não seja preciso lembrar que 90% dos “sem terra” são negros e mestiços.

O sistema de cotas é necessário enquanto avanços mais efetivos no campo educacional não são implantados em nosso país, onde se a educação fosse um monopólio do estado e acessível a todos, obviamente essas medidas afirmativas não seriam necessárias.

Espero que tenha sido claro o bastante, e aproveito para retomar esse ponto, o ensino de História do Brasil necessita de reformas urgentes no seu enfoque, às populações afros e indo-descendentes precisam tomar sistematicamente conhecimentos de como se deu a sua integração na constituição étnica do povo brasileiro, das lutas de resistência e dos grandes líderes, valorizando suas conquistas que ao contrário do que é ensinado nunca foi algo graciosamente ofertado por uma princesa que fugia completamente ao estereotipo comum das de contos de fada, Isabel era feia e gorda, e sim fruto de muito derramamento de sangue. O período imperial brasileiro assim como o início da república representa um momento histórico negativo de nosso gênesis, nossos reis são figuras que deveriam passar por uma revisão antes de colocados nos bancos escolares, de Dom João VI até D. Pedro II, passando por D. Pedro I esses governos são bem representativos de uma sociedade segregacionista. Dom João VI não passava de um soberano covarde que se escondia sob a mesa toda vez que escutava um estampido tal era o seu pavor pelos exércitos de Napoleão, não hesitou em deixar o seu povo a própria sorte diante do inimigo francês fugindo desesperadamente para o Brasil, mas inexplicavelmente tentam vender a idéia de um líder com visão estratégica. Anos mais tarde com a ameaça napoleônica debelada pelos esforços heróicos do povo português, Dom João retorna à Portugal com a finalidade de exclusiva de garantir sua linhagem no poder, mas não sem antes é claro limpar de todas as maneiras possíveis os cofres do lugar que tanto “amava”, promovendo a falência do recém criado Banco do Brasil. Eram claras as tendências absolutistas de Dom João e isso parece que era um fator genético como veremos em Dom Pedro I.

Um país onde uma criatura como D. Pedro I, desprovida de qualquer vínculo com o Brasil e que durante toda a sua permanência aqui só teve duas obsessões na vida que era primeiro, a de perseguir qualquer rabo de saia e depois, tal qual o seu pai, garantir que sua linhagem se perpetuasse no poder, proclama a Independência faz com que o autor daquela célebre frase tenha razão, esse país, pelo menos historicamente, não é um país sério. Dom Pedro I passou de “Açougueiro de Bragança” a herói nacional e patrono da Independência, devemos creditar a ele como sendo um dos primeiros a cercear a liberdade de imprensa no Brasil quando do assassinato do Jornalista Libero Badaró, o que esperar da semente de D.Pedro I, algo ainda mais bizarro, seu filho D.Pedro II.

Criou-se na imagem de Dom Pedro II a idéia daquele senhor bonzinho amante das artes e da cultura erudita, aquela sua barba branca lembrava até Papai Noel, mas analisando friamente logo percebemos que essa visão não condiz com a realidade, o segundo reinado foi marcado por repressão violenta a vários movimentos libertários brasileiros, note que me refiro apenas ao segundo reinado quando da maioridade de Dom Pedro II. Aquele imperador bonzinho já em sua maioridade, reprimiu com força e truculência a Revolta Praieira, movimento que buscava em Pernambuco o fim do latifúndio através da distribuição de terras aos menos favorecidos, O Manifesto ao Mundo de Borges da Fonseca tal qual fazem nos Estados Unidos com os textos de Thomas Jefersom deveria ser ensinado nas escolas. Nesse episódio histórico brasileiro uma anistia foi proposta aos insurretos, mas como todas as anistias do Império Brasileiro não foram posteriormente cumpridas e os rebeldes encerrados na Fortaleza de Lajes. Devemos aprender com os fatos históricos, para que não repitamos os mesmos erros do passado e uma coisa que observo repetidamente é que não devemos acreditar piamente nas promessas dos governos brasileiros, isso não é exclusividade do Império, na República está recheado de momentos em que anistia é proposta, acordo selado com aperto de mãos e depois de sufocada a revolta, enforcamento, sumiços, cárceres, acidentes misteriosos… na Revolta da Chibata depois da ameaça de bombardeio ao Rio de Janeiro controlada com o aceno de uma anistia, os marinheiros foram perseguidos, mortos no Navio Satélite, presos e torturados na Ilha das Flores. Agora voltando ao período correspondente ao segundo reinado, no Maranhão nos anos de 1838 até 1841 aproximadamente, aconteceu uma das mais interessantes rebeliões do Brasil, que foi a Balaiada, seus personagens principais eram homens comuns, um era vaqueiro para ser mais preciso de nome de Raimundo Gomes, seus seguidores eram Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, o balaio, e um ex escravo chamado Cosme. Esses homens conseguiram congregar 3000 almas no seu ideal de liberdade, essas almas eram os excluídos de hoje, mestiços em sua maioria assim como escravos fugidos de toda a redondeza, essa revolta foi sufocada impiedosamente, como era de seu costume, pelo “patrono” do nosso exército o Coronel Luís Alves de Lima e Silva que mais tarde seria o Duque de Caxias, “herói” nacional e uma das criaturas mais perversas de nossa história. Após ferozes combates onde balaio foi morto, Cosme, que considero o primeiro general negro assim como João Candido que foi o primeiro almirante, refugiou-se no sertão para reorganizar a resistência, enquanto isso o outro líder Raimundo Gomes com o intuito de evitar mais carnificina aceita a anistia proposta pelo governo, coitado não conhecia história, Raimundo foi morto sob os cuidados do governo brasileiro quando ia preso para São Paulo. Cosme se entrega e com ele 2500 rebeldes que ele conseguiu reagrupar, Cosme é enforcado em setembro de 1842 apesar do decreto real com o selo do Imperador Bonzinho Dom Pedro II que contava já com dezessete anos.

Negamos tributo aos verdadeiros ícones nacionais quando reverenciamos a indivíduos artificialmente postos em lugar de destaque no nosso panteón de heróis. Nossos jovens precisam saber como se formou algumas das estruturas que possibilitaram ao embrionário estado brasileiro exercer o controle sobre os segmentos explorados, as forças policiais foram criadas originalmente com um único objetivo, recuperar e reprimir os negros fujões. Aí se encontram as matrizes da violência institucionalizada pela polícia militar do Rio de Janeiro que vem a ser a que mais assassina jovens negros com o respaldo do estado e, por conseguinte de toda a sociedade.

Os heróis negros, principalmente, estão reduzidos a Zumbi e ao Quilombo dos Palmares que apesar de inegavelmente possuir elementos interessantíssimos como a duração e organização de toda a estrutura político-administrativa do quilombo, com um complexo sistema logístico, confesso ter má vontade com esse levante uma vez que nesse quilombo era aceita a escravidão sobre minorias étnicas seguindo padrões de comportamento originários da áfrica, mas outros levantes não carregavam consigo tanta mácula, A Revolta dos Malês onde negros cultos (sabiam ler e escrever em árabe) e coesos por tradições religiosas travam combates ferozes contra a tirania européia, preferindo a morte e o desterro a viver sob o jugo humilhante e degradante da escravidão, A Cabanagem onde mestiços predominantemente indígenas em sua maioria, conseguiram enxergar pela primeira vez uma identidade genuinamente brasileira (negando até o idioma português que foi substituído pelo tupi-guarani) e ousaram tentar o sonho da liberdade com a instauração da República do Grão Pará.

A Guerra de Canudos onde se inaugurou os questionamentos sobre a liberdade religiosa e o uso comunitário do espaço agrícola em regiões de pobreza extrema. Poderia citar dezenas de fatos históricos e líderes negros, indígenas e mestiços, João Candido, As tribos Tupinambás… Mas, o que me incomoda são os mitos cultuados hoje por nós como símbolos de nossa nacionalidade, vejam Tiradentes, por exemplo, o mais modesto representante de um grupo de aristocratas mineiros que tinham como objetivo primeiro, facilidades na obtenção de riquezas, a liberdade era um meio não o fim para alcançarem seus objetivos, basta lermos sobre a Inconfidência Mineira que logo percebemos como questões comuns aos movimentos libertários passavam bem ao largo, nunca se questionou de forma contundente, por exemplo, a libertação dos escravos, a redação de uma constituição ou qualquer projeto de país, a maioria dos inconfidentes era inclusive monarquista. Podemos e devemos rever tudo isso. Podemos sonhar com um projeto de país pujante e orgulhoso de sua história, mas antes devemos valorizar tudo o que é nosso e inserir todos os segmentos étnicos e religiosos no Olimpio dos heróis e até mesmo ídolos nacionais, ou não é de notório conhecimento a quase total ausência de representantes afros ou indígenas na mídia nacional, fazendo com que se estabeleça um padrão de beleza que não condiz com a nossa diversidade racial, isso também deve ser colocado na conta das reparações históricas.

Confesso que não fico a vontade em defender a ingerência do estado nas atividades do setor cultural privado, o mesmo não acontece quando me refiro às áreas da educação e saúde, contudo no que se refere à mídia televisiva principalmente, não posso deixar de posicionar-me excepcionalmente contrário a esta ingerência, mesmo reconhecendo que a mídia televisiva necessite de uma concessão estatal para o seu funcionamento, essa ingerência que vou sugerir me incomodaria mais se estivesse em questão um outro setor que não fosse à imprensa. Seria perfeito se as redes de televisões conscientes da abrangência e de sua importância na formação de opinião abrassacem espontaneamente a causa da valorização dos grupos étnicos que estão à margem. Como sei que essa conscientização não é possível defendo que, usando da prerrogativa de que os sinais de televisão são concessões de competência do estado, mais uma cota deveria ser implantada junto com as que anteriormente propus, ou seja, todos os programas exibidos pelas redes de televisões deviriam obrigatoriamente conter, segundo critérios proporcionais da constituição racial brasileira, em seus quadros exibidos representantes de todos os grupos raciais.

Note que essa é a única cota em que não é de competência exclusiva do governo, sei que muitos criticarão essa idéia, apelarão aos direitos constitucionais, dirão que é uma sugestão retrógrada, mas convenhamos que em certas circunstâncias atitudes drásticas se façam necessárias, acredito que seja irresponsável a não ingerência por parte do poder público nessa questão, ela nos confina em um ciclo vicioso, percebam: as redes de televisão seguem tendências ditadas pelo mercado, à fatia do mercado que detém o maior poder de compra corresponde à classe média branca brasileira, a não veiculação de afros e indo-descendentes na mídia televisiva dificulta que esses grupos raciais sejam inseridos na cadeia produtiva, obrigando que os anunciantes queiram que a televisão represente na sua programação o seu público alvo que é ditado pelo mercado…

As redes de televisões brasileiras tiveram mais de meio século para contribuírem com os problemas sociais, negaram-se. Pois agora o estado assumindo sua dívida histórica com segmentos de nossa sociedade, apresenta parte da conta.

Quando uma criança reconhece padrões étnicos seus similares com os dos heróis-ídolos, sejam eles de qualquer tipo, cívico-nacionais ou até mesmo estrelas do meio artístico, ela estabelece um vínculo de identificação, criando consequentemente uma valorização do seu ego ainda que de forma inconsciente, mais na frente isso refletirá na capacidade de absorção de valores imprescindíveis para a formação de um cidadão pleno e consciente de suas responsabilidades para com a sociedade que, verdadeiramente faz parte. A sociedade, representada pelo estado o inclui e, por uma reciprocidade natural o indivíduo é alcançado em sua plenitude pelo estado que naturalmente também o defende. Agora quando o estado ao invés de agregar simplesmente exclui, ele possibilita que o indivíduo não reconheça a sua representatividade, tornando inútil a tentativa de inseri-lo posteriormente, pois sempre lhe parecerá falsa (artificial como costumo dizer).

Esse indivíduo, na acepção máxima da palavra, marginalizado não terá comprometimento nenhum com o respeito às normas básicas de convivência, afinal ele vem sendo vilipendiado constantemente pela sociedade que agora cobra a sua subordinação perante as autoridades constituídas, apesar de não a terem sido por ele. Mas como já mencionei antes, o estado é uma organização natural e inerente ao gênero humano, sempre nos organizamos e organizaremos em grupo. Não faltará a esses indivíduos colocados a margem mecanismos que possibilitem sua organização, de forma paralela é verdade, mas com mais legitimidade que a “oficial” afinal na sociedade regular eles são obrigados a usar sempre a entrada de serviço na “oficiosa” não, na “oficial” os que detêm o poder são de um grupo étnico diferente do seu ao contrário da “oficiosa” onde ele se reconhece, na “oficiosa” ele é respeitado enquanto que na” oficial” ele é apenas um negrinho favelado onde, até o idioma é diferente. Outro dia em um bar presenciei uma cena inusitada, dois jovens de comunidades carentes estavam conversando a respeito de uma determinação judicial que um deles seria submetido, os dois conversando com aquele hieróglifo nas mãos, onde todo o requinte do léxico do nosso vernáculo neolatino era descortinado, eles estavam achando graça daquele vocabulário, eu também estava achando engraçada a situação, quando um deles sentenciou: eu não to entendendo nada, isso tudo é coisa de branco. Nesse momento o meu riso cessou, o preciosismo de algum agente público estava tornando inacessível que a Justiça contemplasse quem realmente necessitava dela, o português daquele documento não era o mesmo falado por aqueles jovens, eles teriam que contratar um tradutor, no caso um advogado, mas como não possuíam recursos financeiros teriam que aguardar nos corredores de algum fórum lotado e, torcer para serem atendidos por algum defensor público. Eles tomaram a decisão correta, fizeram uma bolinha de papel com o documento da “Justiça Brasileira” e com um chute acertaram a lata de lixo, afinal aquilo não era para eles.